Morreu Dolly Parton aos 80 anos: a voz de Jolene e I Will Always Love You, conhecida como rainha do country.
Dolly Parton morreu esta terça-feira, 25 de agosto, aos 80 anos. A notícia foi anunciada pela família através de um vídeo divulgado na página oficial da cantora no Instagram, onde foi explicado que a artista “morreu pacificamente hoje em Nashville”. A causa da morte não foi divulgada.
Cantora, compositora, atriz e filantropa, Dolly Parton construiu uma carreira de sete décadas e tornou-se uma das figuras mais reconhecidas da música norte-americana. Canções como Jolene, I Will Always Love You, 9 to 5 e Islands in the Stream atravessaram gerações e consolidaram o seu percurso entre a música country e a pop.
Sobrinho anunciou morte da cantora
A confirmação foi feita por Bryan Seaver, sobrinho de Dolly Parton e responsável pela sua segurança durante mais de duas décadas.
Filho de Cassie Parton, Bryan assumiu uma função anteriormente desempenhada pelo pai, Larry. No vídeo divulgado nas redes sociais, revelou que a própria cantora lhe tinha pedido, anos antes, que fosse ele a transmitir esta mensagem.
“É uma honra, uma honra que se mistura com absoluto orgulho e grande tristeza. Mas a tristeza está connosco, não com Dolly. Dolly viveu na luz e está nos braços de Jesus, certamente recebida por Carl, os seus pais e inúmeras outras pessoas que a observaram e ansiaram por encontrá-la nos céus”, afirmou.
A família descreveu Dolly Parton como uma “vida de strass que brilhou o suficiente para o mundo ver”.
“Dolly será para sempre uma inspiração, não só através da sua música intemporal e composição prolífica, mas também pelo seu humor, calor e gentileza que nos fizeram sentir como família. O legado de Dolly Parton é de amor, compaixão e resiliência”, acrescentou.
Na mesma mensagem, os familiares destacaram o impacto do trabalho desenvolvido ao longo de várias décadas.
“Com uma carreira de sete décadas, inspirou várias gerações de artistas e fãs com a sua música e um compromisso inabalável em tornar o mundo um lugar melhor. As suas canções continuarão a ressoar com pessoas de todas as idades, e o seu trabalho filantrópico terá um impacto duradouro”, referiram.
Marido morreu em março de 2025
A morte de Dolly Parton acontece cerca de um ano e meio depois da perda do marido, Carl Dean, que morreu em março de 2025, aos 82 anos.
Os dois estiveram casados durante quase seis décadas e mantiveram uma relação caracterizada pela discrição, apesar da exposição pública associada à carreira da cantora.
Dolly Parton e Carl Dean não tiveram filhos. A artista foi submetida a uma histerectomia quando tinha cerca de 30 anos, devido a problemas relacionados com endometriose.
Problemas de saúde obrigaram ao cancelamento de concertos
Nos últimos anos, Dolly Parton enfrentou problemas de saúde que condicionaram a sua atividade.
No outono de 2025, anunciou o cancelamento de seis espetáculos previstos para dezembro no Caesars Palace, em Las Vegas. Os concertos representariam o seu regresso aos palcos e acabaram por ser reagendados para setembro de 2026.
Na altura, a cantora explicou a situação aos fãs.
“Como muitos sabem, tenho lidado com alguns desafios de saúde, e os meus médicos dizem-me que preciso de alguns procedimentos”, escreveu.
Mesmo perante as dificuldades, manteve o humor que a acompanhou ao longo da carreira.
“Como brinquei com eles, deve ser altura da minha revisão dos 100.000 quilómetros, embora não seja a habitual ida ao meu cirurgião plástico!”, acrescentou.
A cantora esclareceu que não queria apresentar um espetáculo abaixo das expectativas do público.
“Com toda a seriedade, dado isto, não vou conseguir ensaiar e montar o espetáculo que quero que vejam, e o espetáculo que merecem ver. Pagam bom dinheiro para me ver atuar, e quero estar no meu melhor para vocês”, afirmou.
Ausência em cerimónia dos Óscares e evento em Dollywood
Em setembro de 2025, Dolly Parton também anunciou que não participaria nos Governors Awards, cerimónia da Academia de Hollywood onde receberia o Jean Hersholt Humanitarian Award.
O prémio honorário reconhecia o trabalho humanitário desenvolvido ao longo da sua vida.
Já em agosto de 2026, a cantora não conseguiu comparecer num evento em Dollywood, parque temático associado ao seu nome. Na ocasião, revelou que enfrentava episódios de desidratação e tonturas.
“O meu médico em Nashville ‘cortou-me as asas’, dizendo: ‘Não vai viajar esta semana’”, explicou.
Infância marcada por dificuldades no Tennessee
Dolly Rebecca Parton nasceu a 19 de janeiro de 1946, numa família de agricultores do Tennessee. Era a quarta de 12 irmãos e cresceu num contexto de dificuldades económicas.
A mãe chegou a fazer roupas para os filhos a partir de retalhos, experiência que mais tarde inspirou Coat of Many Colors, uma das canções mais associadas às suas origens.
A música fez parte da sua infância desde cedo. Dolly começou por atuar numa igreja pentecostal e passou depois pela rádio local.
Aos 13 anos, gravou o primeiro single, Puppy Love, e apresentou-se ainda adolescente no Grand Ole Opry, onde conheceu Johnny Cash.
Depois de terminar o ensino secundário, mudou-se para Nashville, em 1964, com o objetivo de construir uma carreira musical. Inicialmente, destacou-se como compositora e escreveu para artistas como Skeeter Davis e Kitty Wells.
Parceria com Porter Wagoner impulsionou carreira
O primeiro grande reconhecimento chegou em 1967, quando Dolly Parton substituiu Norma Jean como parceira musical de Porter Wagoner.
A presença regular no programa de televisão do cantor permitiu-lhe alcançar uma audiência nacional e consolidar a carreira.
Nesse ano, uma interpretação de The Last Thing on My Mind tornou-se o primeiro de 11 singles da dupla a entrar no top 10.
A colaboração atingiu um dos pontos mais altos com Please Don’t Stop Loving Me, que alcançou o primeiro lugar das tabelas.
Entretanto, Dolly Parton começou também a construir um percurso a solo. Joshua chegou ao primeiro lugar em 1970, enquanto Coat of Many Colors, Touch Your Woman e My Tennessee Mountain Home ajudaram a afirmar a sua identidade artística.
Em 1973, lançou Jolene, canção que se tornaria uma das mais conhecidas da sua carreira.
I Will Always Love You nasceu de uma despedida
A separação profissional de Porter Wagoner, em 1974, deu origem a I Will Always Love You.
Dolly Parton escreveu a canção como uma despedida ao antigo parceiro e levou-a ao primeiro lugar das tabelas country nesse ano. Em 1982, uma nova gravação voltou a alcançar a mesma posição.
A cantora manteve os direitos de publicação da música e recusou uma proposta para que Elvis Presley a gravasse, uma vez que a negociação implicaria ceder parte desses direitos.
A decisão revelar-se-ia especialmente importante em 1992, quando Whitney Houston apresentou a sua versão para a banda sonora de O Guarda-Costas.
A interpretação permaneceu 14 semanas no primeiro lugar das tabelas norte-americanas e vendeu quatro milhões de cópias. A banda sonora alcançou 45 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.
Sucesso estendeu-se à pop e ao cinema
A projeção de Dolly Parton ultrapassou a música country no final da década de 1970.
Here You Come Again chegou ao terceiro lugar da tabela pop em 1977 e representou um dos primeiros grandes sucessos da cantora junto de um público mais abrangente.
Em 1980, Dolly estreou-se no cinema ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin em Como Eliminar o Seu Chefe.
A canção 9 to 5, associada ao filme, conquistou prémios Grammy e valeu-lhe uma nomeação para o Óscar de melhor canção original.
A artista participou também em A Melhor Casa Suspeita do Texas, ao lado de Burt Reynolds, e em Flores de Aço.
Outra das músicas mais reconhecidas da sua carreira foi Islands in the Stream, gravada com Kenny Rogers e escrita pelos Bee Gees.
Dolly participou ainda em Rhinestone, com Sylvester Stallone, e manteve presença regular em televisão, incluindo programas de variedades e entrevistas.
Colaboração com Emmylou Harris e Linda Ronstadt
Entre os projetos mais reconhecidos da sua carreira encontra-se Trio, disco realizado com Emmylou Harris e Linda Ronstadt.
O álbum liderou a tabela de música country, chegou ao sexto lugar da classificação pop e conquistou um Grammy.
A colaboração voltou a repetir-se em 1999, com Trio II, que incluiu uma interpretação de After the Gold Rush, de Neil Young, também distinguida pela Academia de Gravação.
No início da década de 1990, Dolly Parton continuou a somar êxitos, incluindo Rockin’ Years, gravado com Ricky Van Shelton.
Mais tarde, participou também em When I Get Where I’m Going, tema de Brad Paisley.
Regresso às raízes com discos de bluegrass
A mudança de milénio trouxe uma nova fase criativa, marcada pela aproximação ao bluegrass.
Dolly Parton lançou The Grass Is Blue, em 1999, Little Sparrow, em 2001, e Halos & Horns, em 2002.
O primeiro recebeu o Grammy de melhor álbum de bluegrass, enquanto o segundo incluiu Shine, distinguido na categoria de interpretação vocal country feminina.
Em Halos & Horns, a cantora apresentou uma versão de Stairway to Heaven, dos Led Zeppelin.
A composição Travelin’ Thru, criada para o filme Transamérica, valeu-lhe uma nova nomeação para o Óscar de melhor canção original em 2006.
Em 2008, fundou a editora Dolly Records. Anos depois, Pure & Simple, lançado em 2016, tornou-se o seu primeiro álbum a alcançar o primeiro lugar da tabela country em 15 anos.
Entrada no Rock & Roll Hall of Fame
Dolly Parton foi distinguida pelo Rock & Roll Hall of Fame em 2022.
Inicialmente, mostrou reservas quanto à homenagem por considerar que não pertencia propriamente ao universo do rock. Acabou, contudo, por aceitar a distinção.
No ano seguinte, lançou Rockstar, um álbum construído em torno de colaborações com vários nomes ligados à música internacional.
A artista também foi integrada no Country Music Hall of Fame, em 1999, no Nashville Songwriters Hall of Fame, em 1986, e no Songwriters Hall of Fame, em 2001.
Recebeu ainda a National Medal of Arts, em 2005, e foi distinguida nos Kennedy Center Honors, em 2006.
Dollywood e livros gratuitos para crianças
A atividade de Dolly Parton estendeu-se ao empreendedorismo e à filantropia.
O parque temático Dollywood, em Pigeon Forge, no Tennessee, tornou-se um dos projetos mais conhecidos associados ao seu nome.
Em 1988, criou a Dollywood Foundation e lançou posteriormente a Imagination Library, programa dedicado à distribuição gratuita de livros a crianças.
Durante a pandemia de COVID-19, doou um milhão de dólares para investigação relacionada com o desenvolvimento da vacina da Moderna.
Como produtora, colaborou ainda em projetos ligados a Buffy, a Caçadora de Vampiros e aos filmes O Pai da Noiva.
Musical e espetáculo sinfónico marcaram últimos projetos
Mesmo com os problemas de saúde dos últimos anos, Dolly Parton continuou envolvida em novas produções.
Em julho de 2025, o musical Dolly: A True Original Musical estreou no Fisher Center, na Universidade Belmont, em Nashville.
A produção reuniu canções originais e alguns dos maiores êxitos da artista, com possibilidade de chegar posteriormente a Nova Iorque.
Em março de 2026, Dolly participou também na estreia mundial de Dolly Parton’s Threads: My Songs in Symphony, espetáculo que juntou diferentes cantores e orquestras sinfónicas.
A artista aparecia num grande ecrã enquanto as suas músicas eram interpretadas ao vivo.
Humor acompanhou percurso de sete décadas
A personalidade de Dolly Parton tornou-se tão reconhecida como a sua música. A cantora falava abertamente sobre a imagem extravagante, as cirurgias estéticas e os códigos visuais que construíram a sua identidade pública.
Uma das frases que repetia com frequência tornou-se especialmente conhecida.
“É preciso muito dinheiro para parecer tão barata”, dizia.
Madrinha de Miley Cyrus, Dolly Parton manteve-se próxima de diferentes gerações de músicos.
Em 2021, recebeu um Emmy por Dolly Parton’s Christmas on the Square e conquistou um Grammy com There Was Jesus, gravada ao lado de Zach Williams.
Em 2025, voltou a ser nomeada aos Grammy pela leitura do audiolivro Behind the Seams: My Life in Rhinestones.
A família não divulgou informações sobre as cerimónias de despedida.
