Morreu Edgar Morin, o pensador francês que defendeu Portugal, a liberdade e a complexidade humana

Morreu Edgar Morin, o pensador francês que defendeu Portugal, a liberdade e a complexidade humana, segundo foi revelado.

Edgar Morin, uma das vozes intelectuais mais marcantes do último século, morreu aos 104 anos. A notícia foi confirmada pela mulher, Sabah Abouessallam, ao jornal Le Monde, que o recordou como sociólogo do tempo presente e agitador de ideias“.

Filósofo, sociólogo, escritor e resistente a simplificações, Morin atravessou mais de cem anos de História sem perder a inquietação. Pensou a guerra, a liberdade, a educação, a democracia e os perigos do autoritarismo. Também olhou para Portugal com uma proximidade rara.

Uma vida inteira a pensar contra o óbvio

A obra de Edgar Morin tornou-se referência incontornável para várias gerações. Entre os seus livros mais conhecidos estão “O Método”, “Lições de um Século de Vida”, “Os Sete saberes necessários à educação do futuro” e “Vidal e os Seus”.

Neste último, dedicado ao pai, judeu de Salónica, é possível encontrar uma parte das raízes do seu compromisso com a liberdade. Esse compromisso atravessou toda a sua vida pública e intelectual.

Mesmo já centenário, Morin manteve uma capacidade rara de intervenção. Aos 104 anos, publicou “Lições da História”, obra também editada em português.

A ligação profunda a Portugal

Portugal ocupou um lugar especial no percurso de Edgar Morin. O pensador visitava o país desde a década de 1960 e criou laços duradouros com figuras da cultura e da política portuguesas.

Essa relação ficou registada no livro “O esplendor das amizades – a experiência portuguesa de Edgar Morin”, editado por Guilherme d’Oliveira Martins.

Na obra, é recordada a proximidade do francês a nomes como Helena Vaz da Silva, Mário Soares e António Alçada Baptista. Morin colaborou ainda na revista “O Tempo e o Modo”, publicação ligada à resistência intelectual durante o Estado Novo.

O apoio à Revolução dos Cravos e a defesa da liberdade

Antigo militante comunista, Edgar Morin afastou-se da lógica autoritária e centralista que viria a rejeitar. A partir daí, tornou-se um defensor firme da democracia e da liberdade.

Essa posição ficou clara na forma como acompanhou o pós-25 de Abril. Em 2023, durante a sua última visita a Lisboa, participou na conferência “O Atlântico – A Nova Carta do Humanismo”.

Nessa passagem por Portugal, recordou ao Diário de Notícias a forma como defendeu Mário Soares num período político particularmente tenso.

“Muitos em França diziam que os portugueses não precisavam de liberdade, precisavam de pão. E eu disse que se tem de ter pão e tem de se ter liberdade“, afirmou.

A frase resume uma parte essencial do seu pensamento. Para Morin, não havia progresso verdadeiro sem dignidade material, mas também não havia humanidade sem liberdade.

Humanismo até ao fim

A última passagem de Edgar Morin por Portugal deixou memórias fortes em quem o acompanhou. Manuel José Guerreiro recordou um homem lúcido, atento e profundamente humano.

Num encontro marcado por queijo de Serpa, vinho da Madeira e conversa, Morin deixou uma frase que condensa bem a sua visão das relações humanas.

“Se soubermos compreender antes de condenar, estaremos no caminho da humanização das relações sociais“, confidenciou.

Para Manuel José Guerreiro, Edgar Morin não era apenas um homem. Era “uma parte da civilização”.

O aviso que fica

Até ao fim, Morin manteve os olhos postos nos desafios concretos da humanidade. A ciência, a política e o conhecimento interessavam-lhe sempre quando ligados à vida real.

Por isso, deixou também um alerta sobre as prioridades do mundo moderno.

“Antes de pensarmos em ir aos planetas, temos de melhorar o destino da Humanidade aqui na Terra“, defendeu.

No último livro, “Lições da História”, voltou a insistir na imprevisibilidade dos acontecimentos humanos. A partir da Revolução Francesa, deixou uma reflexão que serve tanto para a política como para a vida.

“O resultado de uma ação pode ser contrário à sua intenção inicial.“

Edgar Morin parte deixando mais do que livros. Deixa uma forma de olhar o mundo: desconfiada das certezas fáceis, fiel à liberdade e profundamente comprometida com a complexidade humana.

Destaques

Bad Bunny emocionou a Luz com “A Minha Casinha” numa noite em que Lisboa também foi Porto Rico

Bad Bunny emocionou a Luz com “A Minha Casinha”...

João Moura Caetano anuncia encerrona para o final da temporada

João Moura Caetano anuncia encerrona para o final da...

Um enorme Miguel Moura e um bom Moura Caetano marcaram a corrida da Feira de Maio na Moita

Um enorme Miguel Moura e um bom Moura Caetano...

Salvaterra de Magos: Rouxinol Jr triunfou na corrida do tomate

Salvaterra de Magos: Rouxinol Jr triunfou na corrida do...

Reportagens

Artigos relacionados