Há uma cena que se repete em famílias por todo o país. Alguém nota que o pai anda mais cansado, que o marido adiou outra vez aquela consulta, que o irmão despreza uma dor que já dura há semanas. E lá vem a resposta do costume, dita quase com orgulho: “não é nada, já passa”. Passa-se assim uma vida inteira, entre o desvalorizar e o deixar para depois, até que um dia deixa de passar.
Há uma cena que se repete em famílias por todo o país. Alguém nota que o pai anda mais cansado, que o marido adiou outra vez aquela consulta, que o irmão despreza uma dor que já dura há semanas. E lá vem a resposta do costume, dita quase com orgulho: “não é nada, já passa”. Passa-se assim uma vida inteira, entre o desvalorizar e o deixar para depois, até que um dia deixa de passar.
A saúde masculina continua a ser, em Portugal, um assunto pouco falado à mesa e ainda menos falado no consultório. Não por falta de informação, mas por uma teia cultural que ensinou gerações de homens a associar a doença à fraqueza e o pedido de ajuda a uma espécie de rendição. O resultado está nos números, e não é bonito.
Um silêncio que se paga caro
Os dados são consistentes há anos. Em Portugal, a esperança média de vida dos homens é vários anos inferior à das mulheres, e parte dessa diferença não se explica só pela biologia. Explica-se pelo comportamento. Os homens fumam mais, bebem mais, vão menos ao médico e adiam mais os rastreios. Lideram, de forma transversal, quase todas as estatísticas de mortalidade evitável, dos acidentes às doenças cardiovasculares, passando por um dado que raramente se diz em voz alta: a taxa de suicídio é substancialmente mais alta nos homens do que nas mulheres.
A Organização Mundial de Saúde tem chamado a atenção precisamente para isto, sublinhando que em muitas circunstâncias os homens têm pior saúde do que as mulheres e que grande parte desse fosso é agravado por normas sociais e não apenas por genética. Quem quiser aprofundar encontra esta análise nos relatórios da própria OMS, que há vários anos insiste na necessidade de olhar para o género quando se pensam políticas de saúde.
O peso de uma masculinidade antiga
Por trás do “não é nada” há uma construção cultural inteira. Durante décadas ensinou-se ao homem que ele é o provedor, o que aguenta, o que não se queixa. Mostrar dor, medo ou vulnerabilidade tornou-se quase um defeito de fabrico. E poucos territórios expõem tanto esse desconforto como a saúde do próprio corpo, sobretudo quando os sintomas tocam temas urológicos ou sexuais, envoltos em vergonha e em silêncio.
O cancro da próstata é o exemplo mais claro. Estima-se que uma parte significativa dos homens venha a ser diagnosticada ao longo da vida, e ainda assim muitos evitam a consulta por receio de falar de sintomas urinários ou de possíveis alterações na função sexual. Ir ao médico deixou de parecer um ato de responsabilidade para passar a sentir-se como uma admissão de que algo, ali, já não é o que era. Este é o cerne do tabu: não é desleixo, é medo travestido de indiferença.
Envelhecer em público, cuidar em privado
O curioso é que os homens envelhecem, de facto, em público. As rugas, o cabelo grisalho, a barriga que aparece com os anos, tudo isso é aceite e até celebrado como sinal de maturidade. O que fica escondido é o resto: a tensão arterial que ninguém mede, o colesterol que ninguém controla, a saúde mental de que ninguém fala. Envelhece-se à vista de todos, mas cuida-se às escondidas, ou não se cuida de todo.
É aqui que algumas mudanças recentes ajudam a quebrar barreiras. A crescente literacia em saúde, campanhas de sensibilização e o aparecimento de plataformas de saúde como a Apomeds, que permitem tratar certos temas com mais discrição e menos exposição, retiram parte do constrangimento que afastava tantos homens do primeiro passo. A tecnologia não resolve o tabu, mas torna mais fácil dar aquele empurrão inicial que faz toda a diferença.
Falar de saúde masculina não é fragilizar os homens. É devolver-lhes anos de vida que a vergonha lhes anda a roubar. Talvez a verdadeira força esteja, afinal, em marcar a consulta que ficou para depois e deixar de fingir que não é nada.
