Morreu Joaquim Letria, jornalista e fundador do Tal & Qual, aos 82 anos, segundo foi agora noticiado.
Joaquim Letria morreu esta sexta-feira, 16 de outubro, aos 82 anos. A notícia foi avançada pelo Observador, que cita uma fonte próxima da família. Jornalista, apresentador, fundador de publicações e professor, construiu um percurso que atravessou a imprensa, a rádio e a televisão.
O seu nome ficou ligado a programas como “Directíssimo” e “Tal & Qual”, à criação do semanário com o mesmo nome e à revista Sábado. Trabalhou também em órgãos de comunicação internacionais e foi assessor de comunicação do Presidente da República Ramalho Eanes.
Da primeira reportagem ao jornalismo internacional
Nascido em Lisboa a 8 de novembro de 1943, Joaquim José da Conceição Letria contraiu poliomielite aos dez anos. A doença obrigou-o a adaptar a forma como segurava a caneta, mas não o afastou da escrita.
A banda desenhada, as histórias do quotidiano e os livros de Ernest Hemingway alimentaram esse interesse. Um conto sobre o circo, publicado no Diário de Lisboa, antecedeu a entrada no jornal, onde começou a trabalhar em 1961, inicialmente num emprego de verão de apoio à direção.
A cobertura de um incêndio abriu-lhe caminho para a reportagem. Seguiram-se passagens pela revista Flama e pelo Rádio Clube Português, antes de um percurso internacional que incluiu a Associated Press, a agência alemã DPA e a secção portuguesa da BBC, em Londres.
Militante do Partido Comunista Português desde a adolescência, abandonou o partido em outubro de 1968, na sequência da invasão soviética da Checoslováquia.
O regresso a Portugal e uma televisão em mudança
Depois do 25 de Abril de 1974, regressou a Portugal e assumiu funções na informação da RTP, onde apresentou “Teledomingo”.
Uma entrevista a Pedro Pires, dirigente do PAIGC, esteve na origem de um conflito com António de Spínola. O então Presidente da República terá exigido que o jornalista deixasse de aparecer no ecrã, numa ordem que não se concretizou.
Letria participou no lançamento do Expresso, foi um dos fundadores de O Jornal, em 1975, e trabalhou na agência ANOP.
Em 1978, regressou à apresentação com “Informação 2”. Nos anos seguintes, ajudou a aproximar informação e entretenimento, com formatos como “Directíssimo” e “Tal & Qual”. A rubrica de câmaras ocultas “Apanhados”, estreada em 1979, tornou-se uma das marcas desse período.
Do programa de televisão ao semanário Tal & Qual
Após a saída da direção da RTP2 e o fim do programa televisivo, Joaquim Letria levou o nome “Tal & Qual” para a imprensa.
O semanário foi lançado a 28 de junho de 1980, com Rocha Vieira, Ernâni Santos e Ramon Font, e chegou a atingir tiragens de 200 mil exemplares. Em 1988, Letria concebeu e dirigiu a revista Sábado.
Foi também porta-voz e assessor de comunicação de Ramalho Eanes durante o segundo mandato presidencial. Liderou o Sindicato dos Jornalistas e recebeu, em 1986, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.
Uma carreira entre os ecrãs, os livros e o ensino
“O Dito e o Feito”, “Já Está”, “Rosa dos Ventos”, “Conversa Afiada” e “Café Lisboa” fizeram parte de uma carreira com passagens por várias estações de rádio e televisão. Em anos mais recentes, participou em “A Tarde é Sua”, na TVI, e em “Roda Livre”, na TVI24.
Em 1998, declarações feitas em antena deram origem a um processo por difamação e discriminação racial, posteriormente arquivado. O episódio foi abordado pelo próprio no livro “A Verdade Confiscada. Escândalo — A Armadilha da Nova Censura”.
Publicou ainda obras como “Histórias para Ler e Deitar Fora”, “Pequeno Breviário Jornalístico”, “Livro de Assentos”, “A Foto” e “A Arte da Crónica — Um Pontapé nos Textículos”.
Ao trabalho jornalístico juntou mais de duas décadas de ensino em instituições do Porto, de Lisboa, de Aveiro e do Seixal. Em 2018, comissariou a exposição “Cheias de 67”, no Museu Municipal de Vila Franca de Xira, mantendo também atividade cívica e doando centenas de livros da sua biblioteca pessoal.
