Não à violência, excepto nos Óscares

Não à violência, excepto nos Óscares

Não à violência, excepto nos Óscares, um artigo de opinião redigido por Marta Raimundo.

Nas últimas semanas temos assistido com perplexidade, a todo o conflito que está a decorrer na Ucrânia. Vladimir Putin parece muito seguro da sua escolha e não quer voltar atrás. Os dias passam e a guerra continua. A violência aumenta, as mortes vão surgindo, notícias de sequestros e violações aparecem nos telejornais e nos nossos telemóveis, por meio das redes sociais. Lágrimas, destruição, inocentes presos, crianças a sofrer, famílias separadas.

Por aqui, nós assistimos e tentamos ser o mais solidários possível. As ondas de recolhas de bens e donativos fizeram-se ver por todo o país, a preocupação sentiu-se de Norte a Sul e os pedidos para que a guerra acabe ecoam.

Temos todos, uns mais, outros menos, mas todos de forma geral, gritado a fortes pulmões para que a violência termine. As mensagens de que esta nunca é solução são agora mais evidentes do que nunca porque o conflito acabou por colocar a sociedade a pensar. A pensar não só neste conflito, mas a dar-se conta de outros, por este mundo fora, não tão mediáticos, e nas suas realidades, próximas, onde a violência também existe. Ou, no segundo caso talvez não.

Vejam-se os exemplos nas escolas, onde a violência entre os jovens é uma realidade e os smartphones estão usualmente prontos a carregar no play para filmar. É mais importante ter conteúdo que entusiasme para partilhar através do Whatsapp e outros, do que parar uma briga, que pode acabar em morte, por motivos quase sempre completamente absurdos e incompreensíveis. 

Este fim-de-semana, na cerimónia dos Óscares, por causa de uma piada – que poderá debater-se se de mau gosto, ousada, excessiva, ou não – dá-se uma cena de violência, que leva a comentários elogiosos e aplausos.

Will Smith é, assim, o melhor marido, por ter, dizem muitos/as cibernautas, defendido a mulher da ofensa a que foi exposta. Foi um herói e todas as mulheres deviam ter um homem como este ao seu lado. Deviam mesmo?

Andamos há semanas a pedir “não à violência” e agora batemos palmas de pé a um ato de agressão em plena cerimónia de Óscares, que há uns bons anos tenta ser exemplo de moralidade – notem-se os discursos pelas causas, bem vincados e estudados.

Temos um apresentador, que se calhar arriscou, que podia ter sondado se aquela piada seria levada a bem, que podia não ter entrado por ali, mas que estava somente a fazer o seu trabalho. E sabemos que nem todos têm estofo e capacidade de levar a bem o dito humor negro. De qualquer modo, e como já foram vários os profissionais da área a vir prestar declarações, não podemos, de todo, estar a debater isso. E temos um cidadão que, como não gostou do que ouviu, partiu então para a violência, com um estalo noutro homem, esquecendo-se completamente de que vive em Sociedade.

O que precisamos de ver, é que abrimos as portas com estes aplausos e elogios, para que, sempre que nos digam algo que não gostamos, possamos recorrer à violência e deixemos de respeitar o próximo. Isso é Democracia? Isso é Liberdade? Nada justifica este tipo de comportamentos.

Não fosse o Will Smith uma celebridade e a história era outra.

A pintura dos Óscares ficou borrada e eu só tenho pena que muitos, afinal, sejam a favor da violência. Retome então, quem agora se plantou ao lado de Will Smith, à hipocrisia da defesa da Paz e da Liberdade. Quanto a mim, digo não à violência, quer seja na Ucrânia, quer seja nas escolas, quer seja nos Óscares.

Marta Raimundo

Vice-presidente da Juventude Popular de Setúbal

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