Pedro Chagas Freitas criticou a tendência para encontrar desculpas para os próprios erros, numa publicação em que também reconheceu ter adotado esse comportamento no passado. No Facebook, esta segunda-feira, 19 de outubro, o escritor chamou “masistas” a quem acrescenta um “mas” à admissão de culpa e defendeu a necessidade de assumir o mal causado aos outros.
A reflexão começou com uma declaração que incluiu o próprio autor na crítica.
“Estou farto dos masistas. Os masistas dão cabo do mundo. Eu já fui um masista. Estava farto de mim, de ser assim. O masista é aquela pessoa que sempre que faz merda arranja um ‘mas’ para se desculpar. ‘Ah, disse porcaria e magoei quem amo, mas foi porque sou impulsivo’; ‘ah, fiz o que não devia, mas foi porque a situação me obrigou a isso’; ‘ah, fui um brutamontes, mas foi porque sou muito perfeccionista’. Os masistas dão cabo desta porra toda. Encontram justificações. Não se culpam profundamente. É assim que não se curam.”
Para o escritor, reconhecer os próprios comportamentos exige disponibilidade para os enfrentar sem procurar uma justificação que os torne aceitáveis.
“Crescer é olhar para a própria sujidade sem apagar a luz.”
“Nada de ‘mas’. Nada de álibis”
Pedro Chagas Freitas desenvolveu essa ideia, distinguindo o pedido de desculpa acompanhado de mudança da repetição de argumentos para aliviar a responsabilidade.
“Quem não vê a merda que faz nunca vai deixar de fazer merda. Se faço merda, peço desculpa, faço tudo para não voltar a fazê-la. Só isso. Nada de ‘mas’. Nada de álibis. Fui uma vergonha, fiz coisas vergonhosas, magoei vergonhosamente. Ponto final. Os masistas são perigosos. São capazes do pior. Nunca são culpados.”
O autor acrescentou uma frase sobre a forma desigual como, na sua perspetiva, se vive o sentimento de culpa: “A culpa é algo que só acontece aos inocentes.”
A crítica prosseguiu com a defesa da capacidade de corrigir o comportamento, mesmo quando isso implica admitir sucessivas falhas.
“Os culpados masistas continuarão a não ver a sua culpa. Não passarão de masistas. Não evoluirão. Prefiro quem erra mais e corrige-se mais do que quem erra menos e nunca sai desse erro; justifica-o em vez de eliminá-lo. É daí que vem o pior mal: o que não passa, o que encontra raízes num qualquer argumento. Nada pode ser motivo para ferir o outro.”
“A vida não tem botão de edição”
Na parte final da publicação, Pedro Chagas Freitas chamou a atenção para a permanência das palavras na memória de quem as recebe.
“A vida não tem botão de edição; o que sai da boca fica a viver na memória de alguém.”
O escritor voltou depois à expressão que deu origem ao texto, relacionando a recusa de assumir a culpa com um afastamento de si próprio.
“Não suporto os masistas. Estou farto de masistas. O masismo é tóxico, sedutor, perigoso, pode ser letal. Quem foge da culpa passa a vida a fugir de si mesmo. Acho que é essa a pior, a única, forma de solidão: a de quem está sozinho de si.”
Sem apontar destinatários concretos, encerrou a reflexão com uma escolha entre reconhecer os erros e continuar a repeti-los: “Ou assumes a merda que fazes ou passas a vida inteira a nadar nela.”
