Pedro Chagas Freitas emociona com carta a Maria Eduarda: “Onde estiveres, sente-te amada”, assinalou o escritor.
Pedro Chagas Freitas partilhou nas redes sociais um texto emotivo dedicado a Maria Eduarda, uma jovem que morreu aos 21 anos. A publicação, escrita em forma de carta, fala da morte precoce, da dor de quem fica e da dificuldade em encontrar palavras perante uma despedida tão injusta.
No texto, o escritor evita julgamentos apressados e pede prudência até serem conhecidos todos os factos. Ainda assim, não esconde a revolta perante uma vida interrompida demasiado cedo.
“Não sei escrever-te”
Logo no início da publicação, Pedro Chagas Freitas assume a impossibilidade de escrever sobre uma morte tão jovem com as frases habituais do consolo.
“Querida Maria Eduarda,
Não sei escrever-te.
Quando morre alguém com noventa anos, conseguimos mentir. Dizemos que cumpriu o seu tempo, usamos as frases todas que os vivos inventaram para sobreviver à cabra da despedida.
Quando morre alguém com vinte e um anos, não sei escrever.”
Depois, o autor sublinha a violência simbólica de uma morte aos 21 anos. Para Pedro Chagas Freitas, essa idade não representa um ciclo fechado, mas um início ainda por cumprir.
“Vinte e um anos não é uma vida inteira; é o começo dela, o esboço, a maqueta, o instante em que experimentamos o futuro todos os dias. Tinhas tanto: uma profissão, projectos, viagens, filhos talvez, netos talvez, milhares de cafés, milhares de abraços, milhares de manhãs, milhares de dias cheios de nada.”
A morte antes do tempo esperado
Na reflexão, o escritor confronta também a ideia de que a morte chega apenas depois de uma vida longa. A morte de Maria Eduarda, pelo contrário, surge no texto como uma interrupção brutal do futuro.
“A morte às vezes não chega depois. Queremos acreditar que é sempre assim. Que só acabamos depois de envelhecermos, depois dos cabelos brancos, dos corpos cansados, dos planos realizados. A morte pode vir antes do depois.”
Pedro Chagas Freitas recorda ainda uma frase escrita pela jovem horas antes, sem a reduzir a esse momento final.
“Para ti, veio num dia que querias que fosse feliz. Todos queremos, não é? Li a frase que escreveste horas antes: “Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte?”
A vida tem um sentido de humor monstruoso.”
“Não foste essa frase, essa queda, aquele vídeo”
Um dos pontos centrais da publicação passa pela recusa em resumir Maria Eduarda ao instante da morte. O escritor lembra que uma vida não cabe numa frase, numa queda ou num vídeo.
“Não foste essa frase, essa queda, aquele vídeo, aquele instante. O que foste é o que todos somos a toda a hora. Foste vinte e um anos de gente que te amou, vinte e um anos de gargalhadas, de histórias.”
A partir daí, Pedro Chagas Freitas entra nas perguntas que ficam depois de uma tragédia. Perguntas que, no texto, surgem ligadas à dor, à incompreensão e à revolta.
“Os que ficam, ficam com perguntas gritadas ao ouvido: como é possível? Como é que tantas pessoas não repararam no mais elementar? Como é que ninguém viu? Como é que ninguém parou?”
Revolta, prudência e recusa do ódio
Embora reconheça a revolta, Pedro Chagas Freitas pede cuidado antes de apontar culpados. O escritor defende a necessidade de esperar pelas investigações e pelos factos completos.
“São perguntas legítimas. Eu sei que revolta. Porra, revolta tanto. Apetece apontar dedos, atirar a matar. Tento resistir a isso. Tento o caminho da paciência difícil, aquela que quase nunca temos. Ainda não sabemos tudo. As investigações existem para isso. Os factos completos não costumam caber nas primeiras notícias. Não conheço aquelas pessoas. Não sei o que aconteceu, o que falhou. Vou tentar compreender antes de odiar. O ódio é burro, não esclarece nada.”
A frase deixa clara a posição do autor: há dor, há perguntas e há indignação. Porém, também há a tentativa de não transformar a tragédia num julgamento imediato feito a partir de informação incompleta.
Uma mensagem para quem fica
No final da carta, Pedro Chagas Freitas dirige-se novamente a Maria Eduarda e fala da dor dos pais e dos amigos.
“Maria Eduarda,
os teus pais vão acordar durante anos à procura do som da tua voz, os teus amigos vão pegar no telemóvel para te escrever. O amor faz-nos isso.”
A publicação termina com uma despedida breve, mas carregada de ternura.
“Onde estiveres, sente-te amada.”
Assim, o texto de Pedro Chagas Freitas transformou-se numa homenagem pública a Maria Eduarda. Mais do que comentar uma morte, o escritor procurou devolver-lhe humanidade, memória e amor, recusando que uma vida inteira seja reduzida ao instante em que terminou.
Veja a publicação AQUI.

