Pedro Chagas Freitas reflete sobre o luto: “Não voltamos ao que éramos”, considerou o escritor, nas redes sociais.
Numa publicação no Facebook, o escritor abordou a ausência de quem se ama e a forma como a saudade acompanha até os momentos felizes. “O luto não passa. O tempo não o apaga”, escreveu.
Pedro Chagas Freitas dedicou uma publicação no Facebook ao luto e às mudanças que a perda de alguém amado provoca em quem fica. Na mensagem partilhada este sábado, 10 de outubro, o escritor questionou a ideia de que o tempo permite recuperar a vida tal como ela existia antes da morte.
Sem identificar, no texto, uma pessoa ou uma perda concreta, o autor descreveu a procura de uma nova normalidade, marcada pela ausência e pela coexistência entre felicidade e saudade.
“Pode existir felicidade, mas assim que existe passa a ser saudade”
Pedro Chagas Freitas começou por rejeitar a possibilidade de regressar à pessoa que se era antes da perda:
“O luto não passa. Tem fases, estádios, ciclos. Em todos eles estamos despenhados, derrocados. Em nenhum deles há um alívio que nos ampare. Quando perdemos alguém que amamos, não voltamos ao que éramos. O mundo era com aquela pessoa. Sem ela, será outra coisa, outra espécie de mundo. Deixa de haver a felicidade absoluta. Pode existir felicidade, mas assim que existe passa a ser saudade. Lembra-nos de como seria mais feliz aquela felicidade se aquela pessoa que amamos ali estivesse.”
A reflexão prosseguiu com a ideia de que continuar implica aprender a viver de outra forma, em vez de tentar reconstruir exatamente aquilo que existia.
“Depois da morte de alguém que amamos profundamente, temos de nascer profundamente, descobrir como se chega à normalidade possível. Não vale a pena tentar compor os cacos, remendar, reconstruir quem éramos. É fundamental deixar ir, entender que o que fomos não voltaremos a ser. Ninguém volta de um luto.”
A ausência nas rotinas e nas conquistas
No texto, o escritor associou a morte de alguém próximo à perda de um mundo partilhado, feito de hábitos, sensações e planos. É também por isso que, na sua perspetiva, as conquistas passam a ser acompanhadas pela falta de quem já não pode celebrá-las.
“Quando morre alguém que amamos, morre o Eu que viveu com aquela pessoa. Não é o fim do mundo: é o fim daquele mundo, com aquelas rotinas, sons, cheiros, toques, precisões, vícios, sonhos, expectativas, futuro. A partir dali, não há alegria sem saudade, não há conquistas sem um vazio ao lado. Quando venço, já não venço completamente; venço com a sensação de que falta um pedaço na vitória que venci.”
Ainda assim, Pedro Chagas Freitas reconheceu que haverá espaço para sorrir, vencer e agradecer a vida, embora esses momentos possam voltar a despertar a consciência da ausência:
“Sei que vou ganhar muitas vezes, sorrir muitas vezes, rir bem alto muitas vezes, agradecer infinitamente a felicidade de estar vivo, mas sei também que em cada um desses momentos de felicidade terei pelo menos uns instantes, mais ou menos curtos, mais ou menos insuportáveis, em que serei um buraco sem fundo, uma avenida deserta por onde a imagem, a pele, o olhar, de quem perdi caminha, a olhar-me, a acenar-me, a dizer-me: como seria tão melhor a vida se eu ainda aí estivesse com vida.”
“O tempo não o apaga”
Na parte final da reflexão, o autor voltou à relação entre o luto e a passagem do tempo. Para o escritor, os anos podem alterar a forma como a dor se manifesta, mas não eliminar a ferida deixada pela perda.
“O luto não passa. O tempo não o apaga. Pode transformá-lo, dar-lhe novas tonalidades, alterar o lugar onde a ferida abre, mas não voltaremos a viver sem aquela ferida, não voltaremos a ver o mundo com os olhos que tínhamos antes.”
Pedro Chagas Freitas terminou afastando uma leitura positiva ou redentora do sofrimento e deixando uma pergunta sobre o que fazer com a ausência:
“Nada no luto nos melhora, por mais que queiramos acreditar nisso. Nada no luto é positivo. É mau, horrível, excruciante, dilacerante, desconcertante: o que se faz com o que não temos?”
