Raquel Tavares no Coliseu: O Fado como ponte entre dor e amor

Raquel Tavares no Coliseu: O Fado como ponte entre dor e amor, num concerto extraordinariamente bem conseguido.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Carlos Pedroso

O regresso: entrar no Coliseu como quem entra em casa

No Coliseu dos Recreios, na noite de 5 de dezembro, Raquel Tavares entrou como quem regressa a um lugar que lhe pertence e, ao mesmo tempo, como quem enfrenta a prova maior: a de se reencontrar consigo própria perante todos. Primeiro apareceu em imagem, projetada no palco principal, como uma memória a anunciar-se. Depois, o pano desceu e ela surgiu, inteira, pronta. Abriu com Hei de Beijar-te Lisboa, essa promessa que é também declaração de pertença.

O círculo da verdade

Seguiu então para o centro da sala, para o palco em 360º. E só aí, já rodeada pelo público, não sem antes, de peito cheio e feliz, saudou quem a esperava com o seu chapéu de aba larga na mão. À antiga. Um gesto simples — mas carregado da força de quem reconhece que o fado tem raízes que só florescem quando se honra a tradição. Foi nesse círculo, nesse coração exposto da sala, que apresentou Rosa da Madragoa.

As escolhas que a trouxeram ali

Com a proximidade de quem já não quer esconder nada, confessou depois: “Não têm ideia de quantas vezes imaginei o que vos ia dizer.”
Vulnerável e firme, acrescentou: “Hoje celebro convosco as minhas escolhas. As boas, as menos boas, todas. Foram elas que me trouxeram aqui e não há mais lugar nenhum onde eu quisesse estar. Portanto, deu certo.”

E nesta noite consegui-o — não apenas pela afinação da voz, mas pela entrega total de quem atravessou tempestades e finalmente aceita que o caminho, mesmo torto, a trouxe ao sítio certo.

As vozes que a formaram

Ao longo do concerto foi homenageando vários nomes. Os primeiros: Beatriz da Conceição, Lucília do Carmo e Carlos do Carmo. Mas a lista alongou-se ao longo da noite: Júlia Lopes, dos Ferreira — surpreendentemente presente na plateia, deixando Raquel visivelmente emocionada —, Fernando Maurício, entre outros.
Cada homenagem acendia uma luz no mapa íntimo das suas referências, mas também nas suas batalhas internas: as que travou com a música, com o silêncio, consigo própria.

Três vidas em “Olhos Garotos”

Depois mergulhou no passado com Olhos Garotos.
Primeiro, a versão que gravou em 1997, saída de um leitor de CD’s colocado no palco como um relicário. Depois, a segunda versão, mais tardia, já do seu primeiro disco.
E por fim, a terceira — ao vivo, ali, diante de todos.

No Coliseu, mostrou as duas gravações como quem expõe duas fases da mesma vida — uma inocente, outra ferida, ambas verdadeiras — e completou-as com a interpretação presente, unindo passado e futuro num só instante.

Símbolos, feridas e libertações

A noite avançou entre símbolos e memórias densas.
O xaile de Beatriz da Conceição sobre os ombros em Meu Corpo, o popular Meu Amor de Longe, e o Fado da Ironia, nascido do seu afastamento da música — “o elefante na sala” que todos reconheciam. Transformado agora em fado, já não era peso: era libertação. Era Raquel a olhar para a sua própria história de frente.

As sombras internas, em diálogo com a música

Acompanhada por Pedro Viana, Bernardo Viana e Francisco Gaspar, cantou como quem fala com as sombras que a acompanharam nos últimos anos: vozes que pesam, vozes que empurram, vozes que culpam, vozes que iluminam.
Em cada fado — Amor é Água que Corre de Marceneiro, Cravo de São João de Carlos Ramos, Fado Vitória — parecia tentar reencontrar-se com todas elas.

Encontros especiais

Houve partilhas especiais, como Fado Errado com Maria da Fé, que não procurou corrigir destino nenhum — antes abraçou a imperfeição dos caminhos percorridos.
Porque há fados que são erros e há erros que só o fado transforma em verdade.

E a noite contou ainda com convidados maiores, cada um deles soberbo na entrega e na arte: Ângelo Freire, Diogo Clemente, Jorge Fernando e Custódio Castelo. Quatro pilares, quatro presenças marcantes que acrescentaram corpo, alma e brilho à noite.

O verso que ficou no ar

Quase no final, ecoou essa frase que é mais vida do que verso: Deste-me um beijo e vivi.
Ali, naquele instante, mais do que cantar, Raquel parecia admitir que viveu — apesar das dores, apesar das dúvidas, apesar de si.

Uma casa de fado, uma casa de alma

Naquela noite, o Coliseu foi casa de fado, mas também casa de alma.
Um lugar onde Raquel Tavares pôde reluzir e rasgar-se, onde as emoções escondidas encontraram voz e as vividas encontraram espelho.

A reflexão final

Todos somos construídos de quem nos rodeia. E no fim, o amor será sempre o que salva.
Não o “amor” das borboletas na barriga.
O amor que vem da alma e explode no coração.
O amor que sobra quando tudo o resto falha.
É esse que fica. É esse que cura. É esse que resulta.

E sim: deu certo.

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