Scorpions na MEO Arena: 60 anos depois, ainda há quem saiba fazer música para ficar

Scorpions na MEO Arena: 60 anos depois, ainda há quem saiba fazer música para ficar e deixar-nos emocionados durante duas horas.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Rui Pereira

Os Scorpions regressaram a Lisboa e fizeram aquilo que deles se esperava: um grande concerto. Pode soar a simples, talvez até demasiado simples para falar de uma banda com 60 anos de história, mas é precisamente aí que está a diferença. Não foi preciso inventar uma narrativa de resistência, nem falar constantemente em longevidade, legado ou despedidas. A banda subiu ao palco da MEO Arena, tocou, emocionou e deixou milhares de pessoas felizes. Num tempo em que tanta coisa precisa de ser empurrada, explicada e vendida como extraordinária, isto já não é pouco.

A banda formada em Hanover, na Alemanha, entrou em palco depois de um vídeo dedicado às seis décadas de carreira. Entre as imagens, recordaram-se as 27 digressões mundiais e as passagens por 83 países. Números impressionantes, naturalmente, mas que ganham outra dimensão quando percebemos que, depois de tanta estrada, os Scorpions continuam a entrar num palco com vontade de o ocupar. E ocuparam-no. Por inteiro e sem favor.

São hits, senhores, são hits

“Coming Home” abriu o concerto e rapidamente se percebeu que a noite não seria uma visita protocolar ao passado. “Gas in the Tank”, “Make It Real”, “The Zoo” e “Coast to Coast” mostraram uma banda segura, madura e sem necessidade de esconder a idade atrás de truques. Os anos estão lá, evidentemente. Ainda bem. Fazem parte da história e também da verdade de quem está em palco.

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Os Scorpions não deixaram créditos em mãos alheias, nem em vozes alheias, muito menos em riffs ou baquetas alheias.

O alinhamento foi, como era previsível, um desfile de temas reconhecidos por várias gerações, mas isso nunca retirou interesse ao concerto. Pelo contrário. A grandeza de uma banda também se mede pela forma como consegue tocar músicas repetidas milhares de vezes sem lhes retirar alma. Houve espaço para um medley dedicado aos anos 70, juntando “Top of the Bill”, “Steamrock Fever”, “Speedy’s Coming” e “Catch Your Train”, antes de “Bad Boys Running Wild” e “Delicate Dance” conduzirem a noite para outra temperatura.

Foi com “Send Me an Angel” que chegou uma das primeiras grandes explosões de alegria da MEO Arena. Não apenas porque é uma das músicas mais reconhecidas da banda, mas porque há canções que transportam consigo uma parte da vida de quem as ouve. E, quando isso acontece, o público deixa de estar apenas a assistir a um concerto. Passa a fazer parte dele.

Klaus Meine, a experiência e uma arena transformada num céu

“Wind of Change” foi um dos grandes momentos da noite. Klaus Meine recordou a mensagem de paz da canção e falou sobre a guerra que continua a marcar o presente. Depois, enquanto a música atravessava a arena, milhares de telemóveis iluminaram as bancadas e a plateia.

A MEO Arena transformou-se num imenso céu estrelado.

Já vimos este gesto em muitos concertos. É verdade. Mas não vale a pena fingir que uma imagem perde beleza apenas porque já aconteceu antes. Naquele momento, funcionou. E funcionou porque “Wind of Change” continua a ser muito mais do que um êxito antigo colocado estrategicamente num alinhamento.

Klaus Meine soube, aliás, conduzir a noite com a naturalidade de quem já fez isto em praticamente todos os cantos do mundo. Houve elogios a Portugal, a Lisboa e ao calor do público português. Há quem possa olhar para estas palavras como parte de uma rotina de palco, mas a experiência também serve para saber como criar proximidade sem esforço aparente.

E a experiência, quando acompanhada de talento, tem um charme especial.

Klaus Meine já não precisa de provar que consegue fazer o que fazia há 30 ou 40 anos. Essa comparação seria até absurda. Precisa apenas de continuar a ser ele próprio. A voz é reconhecível, a presença mantém-se e, sobretudo, ainda existe capacidade para transportar emocionalmente músicas que milhares de pessoas carregam consigo há décadas. Não é pouco. Na verdade, é muito.

Ao lado de Klaus Meine, Rudolf Schenker e Matthias Jabs continuam a garantir a força das guitarras, enquanto Pawel Maciwoda segura a base de uma formação que conhece bem o equilíbrio entre a história e o presente.

Impiedosa bateria

Mas há um nome que merece atenção especial. Mikkey Dee.

O baterista sueco é uma força da natureza e foi, na MEO Arena, um dos elementos mais impressionantes do concerto. Há músicos que acompanham uma banda. Mikkey Dee empurra-a.

A bateria nunca foi apenas marcação de ritmo. Foi corpo, foi intensidade e, em determinados momentos, quase parecia uma luta pessoal entre o músico e o instrumento. Uma luta com técnica, claro, mas também com uma energia física difícil de ignorar.

E isto importa muito.

Uma banda com seis décadas poderia facilmente cair numa execução demasiado confortável, numa espécie de passeio respeitável pelo próprio catálogo. Com Mikkey Dee atrás da bateria, isso torna-se bastante mais difícil. Há um impulso constante, uma agressividade controlada e uma vontade de fazer as músicas avançarem. Não está ali para respeitar silenciosamente a história dos Scorpions.

Está ali para tocar. E toca muito. Ontem, foi arrepiante.

“Still Loving You” e tudo aquilo que nunca ficou verdadeiramente resolvido

O concerto seguiu com “Loving You Sunday Morning”, “I’m Leaving You”, “New Vision”, “Tease Me Please Me” e “Big City Nights”, até chegar a um dos momentos inevitáveis da noite.

“Still Loving You”.

Talvez seja impossível ouvir esta música sem pensar em alguém.

Em alguém que amámos. Em alguém que ainda amamos. Alguém que, por uma razão ou por outra, se afastou.

É quase catártico olhar para milhares de pessoas a cantarem a mesma música e perceber que, apesar de todas estarem no mesmo lugar, cada uma estará provavelmente a pensar num nome diferente. Há afastamentos necessários.

Pessoas que devem permanecer longe. Há relações onde voltar seria apenas repetir uma ferida.

Mas também há bons corações que se perdem.

Pessoas que erram, que se magoam, que se afastam por orgulho, medo, imaturidade ou incapacidade de falar no momento certo. Pessoas que continuam a gostar uma da outra, mesmo depois de tudo parecer destruído.

Talvez dois bons corações devam ficar juntos. Não os falsos corações.

Não aqueles que mentem, manipulam e magoam por prazer, para depois vestirem a crueldade com o nome de amor.

Falamos dos outros. Dos que sabem sofrer porque também souberam amar. Dos que carregam a ausência. Aqueles que percebem tarde demais o valor de uma presença. Dos que dariam tudo por uma conversa que nunca aconteceu.

“Still Loving You” é também isso. A possibilidade de acreditar que nem tudo o que se perde está condenado a ficar perdido para sempre. Que, em determinados casos, a reaproximação não é fraqueza. É coragem.

Nem todas as histórias merecem uma segunda oportunidade. Mas algumas talvez mereçam uma segunda conversa.

Porque há silêncios que salvam e há silêncios que apenas deixam duas pessoas infelizes em lugares diferentes.

E enquanto “Still Loving You” enchia a MEO Arena, era inevitável pensar na quantidade de histórias, memórias, saudades e nomes que cabiam dentro daquela música. Essa é uma das grandes diferenças entre uma canção e uma obra verdadeiramente intemporal.

Uma boa música entra-nos nos ouvidos. Uma grande música entra-nos na vida. E por lá permanece

Quando a música dura mais do que a tendência

É impossível assistir a um concerto dos Scorpions sem pensar na relação que temos hoje com a música.

Não por saudosismo fácil. Também não porque tudo o que se faz atualmente seja mau. Há excelentes artistas e excelentes canções a serem criadas.

Mas existe igualmente muita música-pastilha elástica. Mastiga-se depressa, sabe bem durante alguns minutos e perde o sabor antes de a embalagem chegar ao chão.

É música feita para consumo imediato. Para uma dança. Uma tendência. Para um refrão que precisa de funcionar nos primeiros segundos. Depois desaparece e, muitas vezes, ninguém sente falta.

Os Scorpions obrigam-nos a olhar para o extremo oposto. Uma obra construída durante décadas.

Canções que acompanharam amores, separações, viagens, perdas, regressos, adolescências e vidas inteiras. Temas que passaram dos pais para os filhos e, em alguns casos, já chegaram aos netos. Isto não acontece por acidente.

Também não acontece por causa de um algoritmo. O sucesso pode ser fabricado durante algum tempo. A memória, não.

Talvez muitos artistas contemporâneos ainda estejam demasiado ocupados em tentar chegar rapidamente ao próximo milhão para perceberem isso. Uma música pode ter milhões de reproduções e não deixar rasto nenhum.

Depois há uma arena inteira a cantar “Send Me an Angel”, “Wind of Change” ou “Still Loving You” décadas depois de essas músicas terem sido lançadas. A diferença está aí.

E é uma diferença brutal. O concerto teve ainda uma componente visual de grande qualidade. O vídeo e o desenho de luz acompanharam as músicas sem transformar o palco num parque de diversões tecnológico, e no encore surgiu um escorpião gigante que aumentou ainda mais o impacto visual da produção.

“Blackout” abriu o regresso ao palco, antes do inevitável “Rock You Like a Hurricane”.

Sim, inevitável. E ainda bem.

Há uma mania moderna de acreditar que tudo precisa de surpreender. Não precisa. Por vezes, queremos apenas ouvir a música certa, no momento certo, tocada pela banda que a tornou eterna. Foi isso que aconteceu.

Respeitem o legado dos antigos

Os Scorpions terminaram o concerto com a MEO Arena rendida e com a sensação de que o tempo passou por eles sem lhes retirar aquilo que verdadeiramente interessa. Não são os mesmos homens de há 40 anos.

Ninguém é. Mas continuam a saber tocar, continuam a saber comunicar e continuam, sobretudo, a ter canções que fazem as pessoas sentir alguma coisa.

Numa época em que tanta música não nos deixa sequer tempo para sentir antes de chegar a seguinte, talvez seja essa a maior vitória de todas. Os Scorpions celebram 60 anos de carreira, mas Lisboa não assistiu a uma cerimónia de aniversário.

Assistiu a um concerto de rock. E isso diz quase tudo.

Por fim, este que vos escreve sentiu falta de canções como “Born to touch your feelings” ou “Follow your heart”. Mas muitas outras podiam ter surgido no alinhamento. Porém “Love, only love can bring back your love someday“, como diriam eles numa das canções ontem interpretadas.

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