Vem aí novo concerto ‘Underground’ dos UHF, segundo foi revelado pela banda em entrevista ao Infocul.pt.
Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografia: Rock in Rio
Os UHF subiram ao palco do Rock in Rio Lisboa no passado sábado, mas antes da actuação houve tempo para uma conversa sobre nervos, carreira, televisão, resistência das canções e próximos projectos.
Liderada por António Manuel Ribeiro, a banda chegou ao festival depois de lançar recentemente o tema “Rock in Rio.pt”. A coincidência de tocar no evento, depois desse registo, serviu de ponto de partida para uma entrevista onde o músico revisitou quase cinco décadas de estrada.
Hoje, o cenário antes de entrar em palco é diferente. António Manuel Ribeiro já consegue esperar com calma. No início, porém, o camarim era outro território.
“Agora sento-me, leio um livro”
Questionado sobre se o nervosismo de subir a palco continua igual ao da primeira vez, António Manuel Ribeiro respondeu sem hesitar.
“Não, sabes que eu agora sento-me, leio um livro normalmente, estou à espera da minha hora, visto-me calmamente.”
Depois, recuou aos primeiros anos dos UHF e descreveu uma realidade bem diferente.
“Há 47 anos eu não almoçava, não jantava. Via os meus colegas jantar e tinha vómitos.”
A confissão mostrou o peso emocional que os concertos tinham nos primeiros tempos da banda.
António Manuel Ribeiro foi ainda mais longe na descrição desse nervosismo.
“Aliás, vou-te dizer que para mim o camarim era uma espécie de câmara de terror.”
O medo antes de entrar em palco
O músico explicou que qualquer atraso aumentava a ansiedade. Nessa altura, a espera parecia interminável.
“E quando se atrasava por algum motivo, o coração acelerava e eu disse eu vou ter um ataque ao coração.”
Apesar da juventude, o receio era real para António Manuel Ribeiro.
“Eu tinha vinte e tal anos, como calculas, mas pensava que ia morrer de ataque ao coração porque para mim o camarim era uma câmara de terror.”
Entretanto, a frase “estou à espera da minha hora” não passou despercebida durante a conversa.
Em tom de brincadeira, foi lançada a ideia de que poderia ser título de uma canção de despedida.
A resposta surgiu no mesmo ambiente descontraído.
“Olha para para ele…”, afirmou António Manuel Ribeiro, por entre um sorriso.
As canções que resistem ao tempo
A conversa passou depois para a longevidade dos UHF e para a forma como a banda atravessou diferentes gerações.
António Manuel Ribeiro recusou a ideia de que o grupo vive apenas de uma canção de sucesso.
“Sabes o que é que eu sinto muitas vezes no meio disto tudo? É que os UHF não têm uma canção de sucesso.”
Depois, explicou melhor o sentido dessa afirmação.
“Se tem 30 ou 40 canções de sucesso, tem 400 e tal que eu tenho registadas.”
Para o músico, a permanência das canções não depende apenas de estratégia ou de exposição mediática. Depende, acima de tudo, da relação criada com o público.
“Eu, como autor, e por outro lado há outra coisa importante, é que as canções só resistem se tiverem alguma coisa para dizer às pessoas.”
A seguir, deixou uma ideia central sobre o lugar de quem ouve.
“Quem faz os sucessos são as pessoas, é o público.”
E acrescentou que não há truque que substitua essa ligação.
“Por mais truques que tu tenhas, isto não existe.”
Televisão, concursos e ilusões rápidas
António Manuel Ribeiro reconheceu que os tempos mudaram e que o presente vive marcado por outra velocidade.
“Hoje é muito mais fácil trabalhar em palco para os UHF.”
Ainda assim, fez questão de sublinhar que a banda não depende de um único tema.
“É, nós, volto a dizer, não temos uma canção. Agora, os tempos são diferentes.”
Depois, apontou o imediatismo como uma das marcas actuais.
“Hoje há um imediatismo.”
A televisão também entrou na análise. António Manuel Ribeiro foi crítico da forma como alguns programas criam expectativas rápidas em novos artistas.
“Repara, a televisão tem a mania que faz artistas.”
Logo depois, explicou por que usa essa expressão.
“Eu digo que tem a mania porque, a maior parte, a esmagadora maioria, dos iludidos que vão aos programas, pronto, aquilo é muito engraçado, saem de lá e ninguém os conhece no dia a seguir, não é?”
Para o músico, o percurso artístico exige permanência, trabalho e resistência.
“E não é assim, sabes o quê? Tu tens de ficar para fora, tens de…”
A ideia ficou completa quando assumiu a palavra mais dura.
“A palavra é sempre chata de dizer, mas é verdade. Tens de sofrer.”
Depois, reforçou a necessidade de aprendizagem e persistência.
“Tu tens de saber. Tens de trabalhar. Tens de ver que não dá hoje e amanhã tens de voltar.”
“Se tu desistes à primeira, acabou ali”
Na mesma resposta, António Manuel Ribeiro deixou um aviso para quem procura uma carreira imediata.
“Se tu desistes à primeira ou desistes à segunda, acabou ali.”
O músico rejeitou também a ideia de que um concurso televisivo baste para criar uma carreira sólida.
“Ah, não, tu vais à televisão, ganhas um concurso e és uma vedeta. Não é verdade.”
Ainda assim, admitiu que esses formatos podem gerar uma exposição temporária.
“Até podes gravar um disco, tens uma canção, fazes um verão de espetáculos, fazes, e depois desapareceu.”
A conversa contou ainda com uma nota de outro elemento dos UHF, que recordou já ter visto esse ciclo repetir-se.
“Eu estou nos UHF há 30 anos e eu já vi isto acontecer várias vezes”, afirmou António Côrte-Real.
“Underground 2 e outros mistérios” chega ao Porto
A entrevista abordou ainda o concerto “Underground”, apresentado este ano no LAV, em Lisboa, e o próximo passo desse projecto.
Sobre a continuação, António Manuel Ribeiro confirmou o nome.
“Chama-se Underground e outros mistérios. Underground 2 e outros mistérios.”
Questionado sobre se o espectáculo ainda vai acontecer este ano, respondeu de forma directa.
“Vai.”
Depois, foi revelado que não será na mesma sala.
O destino também ficou conhecido durante a entrevista.
“Porto? Em dezembro. Sabes em primeira mão.”
Vinil, raridades e uma canção sobre o Bataclan
Na parte final da conversa, os UHF falaram também de edições discográficas.
António Manuel Ribeiro revelou uma nova edição em vinil do álbum “Porquê”, originalmente editado em 2011.
“Vamos ter uma edição também agora. Nós editámos, aliás, soubesse tinha-te trazido, editámos agora em vinil, um duplo vinil do Porquê, com uma capa luxuosa.”
O músico mostrou entusiasmo pelo resultado.
“Adorei fazer aquilo. Um duplo vinil.”
Além disso, o tema “Rock in Rio.pt” deverá integrar um novo volume de raridades da banda.
“O RockInRio.pt vai estar junto de mais dez canções das nossas raridades, que vai sair o quarto volume, onde aparecem coisas muito bonitas.”
Entre essas canções, António Manuel Ribeiro destacou uma composição ligada ao ataque na sala Bataclan, em França.
“Como por exemplo uma canção que eu escrevi sobre aquele massacre em França do Bataclan.”
Antes de entrarem em palco no Rock in Rio Lisboa, os UHF deixaram assim mais do que uma antevisão de concerto. Falaram de medo, estrada, trabalho, ilusões rápidas, memória e futuro.
Quase cinco décadas depois, António Manuel Ribeiro continua a olhar para a música como um território que só resiste quando tem algo para dizer.
Leia também: UHF no Rock in Rio: a multidão do Music Valley cantou 48 anos de canções sem idade
