Versão de “Hurt” de Johnny Cash faz 22 anos esta semana, mais propriamente no passado dia 25 de março. Com videoclipe lançado em março de 2003, esta versão trouxe uma nova audiência a Johnny Cash. O tema já tinha sido lançado no Natal de 2002, mas como um tema do álbum “American IV: The Man Comes Around” O lançamento de ambos single e videoclipe icónico, veio depois.
A canção mais arrasadora de todas as canções arrasadoras
Se perguntar a alguém qual o tema musical que puxa sempre pela lágrima, há uma grande probabilidade de responderem rapidamente: “Johnny Cash. Hurt.”
A canção foi originalmente escrita e interpretada pelos Nine Inch Nails, mas a forma como a versão e o icónico videoclipe foram criados só aumenta a sua força emocional. Quando perguntaram a Trent Reznor, dos Nine Inch Nails, se Johnny Cash poderia interpretar a canção, ele respondeu inicialmente que se sentia “lisonjeado”, mas temia que “a ideia soasse um pouco forçada”.
A gravação avançou, produzida pelo produtor musical Rick Rubin, e foi lançada como single em 2003, chamando a atenção do respeitado realizador de “One Hour Photo”, Mark Romanek.
O frio do Tennessee enfrenta The House of Cash
“Suplico ao Rick Rubin para me deixar filmar algo para essa música.”, contou Romanek a Dave Urbanski no livro “The Man Comes Around: The Spiritual Journey of Johnny Cash”. O realizador ficou instantaneamente fascinado com a versão e até se ofereceu para gravar o vídeo gratuitamente.
A Universal acabou por aprovar o projeto, mas Romanek teve de enfrentar uma corrida contra o tempo: a saúde de Cash estava a deteriorar-se e, com 71 anos, ele não estava disposto a suportar o frio do Tennessee durante muito tempo. Tinha apenas alguns dias para concretizar a ideia. Os planos iniciais para o vídeo foram descartados e Romanek apanhou um voo noturno para Nashville, começando imediatamente a procurar locais para filmar. Foi então que descobriu a casa e museu de Johnny Cash, The House of Cash.
“Chorei na primeira vez que vi. O museu estava fechado há muito tempo,” recordou o realizador. “O local estava num estado de decadência total. Foi aí que tive a ideia de sermos extremamente honestos sobre o estado de saúde de Johnny – tão honestos quanto ele sempre foi nas suas músicas.”
O fim de uma era…
Essa visão resultou num videoclipe comovente, que fala sobre a transitoriedade da vida, a fragilidade da morte, o desmoronar de um legado e o declínio de um género, de uma era e de uma atitude. Trent Reznor, vocalista dos Nine Inch Nails, viu o vídeo no estúdio, ao lado de Zack de la Rocha (Rage Against The Machine). Quando terminou, percebeu que qualquer dúvida que tinha tido sobre a versão já não fazia sentido. Segundo Reznor: “Estávamos no estúdio, prestes a começar a trabalhar, e eu coloquei o vídeo a reproduzir. No final, estava à beira das lágrimas… O silêncio era total. Houve apenas aquele engolir em seco e depois: ‘Hmm, ok, vamos buscar café’.”
Assim, o sinal de “Fechado ao público” no museu. Os discos de platina rachados. O banquete de caviar e lagosta sem ninguém para o comer e fazer companhia. As imagens dos primeiros anos de carreira de Johnny. June Carter, sua esposa de décadas, a observá-lo. A tampa do piano a fechar-se. Com tantas imagens que por si só se tornaram icónicas, cada espectador é tocado de forma diferente e para muitos, o momento mais comovente é quando Cash verte vinho de uma mão frágil e trémula.
Três meses após as filmagens, June faleceu. Johnny seguiu-a sete meses depois.
Como um ícone do country enalteceu um hino do rock industrial
Johnny Cash já tinha tido uma longa e marcante carreira antes de gravar “Hurt” em 2002, mas esta performance tornou-se uma das mais inesquecíveis da sua vida.
Nascido J.R. Cash em Kingsland, Arkansas, a 26 de fevereiro de 1932, o músico assinou com a lendária Sun Records nos anos 50, lançando êxitos como “I Walk The Line” e “Folsom Prison Blues”. Com o tempo, Cash tornou-se conhecido tanto pela sua música como pela sua imagem rebelde. Era “The Man In Black”, não só pelo seu visual, mas pela sua atitude de fora da lei (“outlaw”).
Na década de 90, depois de ter sido dispensado pela sua editora, Cash começou a receber homenagens de uma nova geração de artistas. Participou num álbum tributo a Willie Nelson com Krist Novoselic (Nirvana) e até deu voz a um coiote místico num episódio de “The Simpsons”, em 1997.
Foi então que o produtor Rick Rubin – famoso pelo seu trabalho com Beastie Boys, Public Enemy e Run DMC, teve a ideia de gravar um álbum com Cash, apenas com voz e guitarra acústica.
O primeiro álbum da parceria, “American Recordings” (1994), foi aclamado pela crítica. O formato continuou nos álbuns seguintes, onde Cash interpretou temas de artistas tão diversos como Tom Waits, Beck, Soundgarden, U2 e Nick Cave. Este conceito culminaria em “American IV: The Man Comes Around” (2002), o último álbum lançado em vida por Johnny Cash.
Um Homem a erguer-se com triunfo no final da sua vida
Entre as faixas escolhidas, Rubin sugeriu a Cash a música “Hurt” dos Nine Inch Nails. O resultado foi devastador. Em vez de uma canção sobre um jovem a cair na autodestruição, Hurt transformou-se numa despedida de um homem no final da vida.
Inicialmente, Cash não se identificou com o som industrial e angustiado da versão original. “Acho que para ele era difícil ouvir para além disso,” explicou Rubin. “Então enviei-lhe a letra. Disse: ‘Lê só a letra. Se gostares, encontramos uma forma de a interpretar à tua maneira’.”
Desta forma, Cash confiou na visão do produtor e gravou a canção na sua casa em Los Angeles, já debilitado pela neuropatia causada pela diabetes.
O álbum “American IV: The Man Comes Around” foi o primeiro disco de estúdio de Johnny Cash a atingir ouro nos Estados Unidos da América em mais de 30 anos.

