Estremoz: Arte e Tempo de Moura Caetano a marcarem uma noite para todos os gostos, esta sexta-feira, 2 de Setembro.

Texto: Rui Lavrador
Fotografia: Roberto Pingas Rodrigues
A Praça de Touros de Estremoz recebeu esta sexta-feira, dia 2 de Setembro, uma corrida de touros com o cartel composto pelos cavaleiros João Moura Caetano, João Moura Jr., João Ribeiro Telles e o amador Francisco Maldonado Cortes. Foram lidados touros de Joaquim Brito Paes e um novilho de Branco Núncio. As pegas estiveram a cabo dos grupos de forcados amadores de Alcochete e Arronches.
“E se o que eu for, for feito / E o que eu fizer for meu / Pode não ser perfeito / Mas há de ser eu”, é um excerto do tema ‘Leve como uma pena’, interpretado por Ana Bacalhau, e da autoria de Jorge Cruz. E bem que se pode aplicar ao que aconteceu na corrida de touros realizada em Estremoz. Quatro estilos distintos, com as suas qualidades e defeitos, não cedendo a caprichos.
A lotação contou com 3/4 fortes de casa, com um público que foi aplaudindo os artistas e entregando-se ao espectáculo, numa noite inicialmente amena e que depois foi arrefecendo.
Quanto à corrida, começar por destacar o curro de touros da ganadaria de Joaquim Brito Paes, com os touros a não terem excesso de peso, mas a pecar por falta de emoção e muitas vezes a desligarem-se facilmente das lides. Porém, a permitirem aos toureiros aplicar a sua concepção artística, desde que sem erros. Sempre que os toureiros cometeram erros, os touros estava lá, para relembrar que as facilidades dependeriam muito mais dos toureiros do que dos touros. O novilho de Branco Núncio não foi complicado, mas exigia rigor.
João Moura Caetano abriu praça, frente a um touro que saiu alegre, mas que rapidamente perdeu interesse na lide. Muito reservado e a não reagir aos incentivos do cavaleiro e a determinada altura nem no capote quis investir. O cavaleiro tem um primeiro ferro comprido de grande qualidade, deixando ainda outro antes de partir para a série de curtos. Montando o “Gallo”, desenhou uma actuação templada e segura, maioritariamente em curto e nunca permitindo que o touro se distraísse com outros movimentos ou barulhos na praça. Dois curtos de boa nota e uma excelente brega, foram o que de melhor se viu.
José Freire, pelos Amadores de Alcochete, concretizou a pega ao primeiro intento, com execução competente e o grupo a ser proactivo.
João Moura Jr. desenhou uma actuação de bom nível, frente a um touro que rapidamente se parou, dificultando em muito o labor do ginete. Recebeu-o com uma sorte gaiola, que resultou larga, mas com remate muito emotivo, destacando-se ainda na cravagem do segundo e terceiro ferros curtos.
Manuel Cardoso, pelos Amadores de Arronches, concretizou a pega ao primeiro intento, com muita garra e emotividade. Bem o grupo a fechar-se rapidamente.
João Ribeiro Telles teve por diante um touro com maior mobilidade e a apresentar mais emoção. O ginete ribatejano desenhou uma lide com demasiado ritmo no desenho das sortes, porém a chegar muito ao público. Deverá ter em atenção o momento das reuniões, pois, ao melhorá-las, as actuações resultarão qualitativamente superiores. Nota para o quinto ferro curto, com a sorte bem desenhada e a reunião a sair cingida, no melhor momento (um grande momento!) da sua actuação.
António José Cardoso, pelos Amadores de Alcochete, concretizou a pega ao primeiro intento.
Francisco Maldonado Cortes lidou um novilho de Branco Núncio, ao invés de um da ganadaria Foro de Almeida como estava anunciado. Francisco é jovem e tem condições para se afirmar, parece-me óbvio. Porém, nesta corrida, esteve demasiado irregular, intercalando momentos muito bons, com outros que não foram assim tão bons. Dois ferros curtos de boa nota, perderam brilho com alguns toques na montada e com outros ferros com reuniões menos cingidas. Público efusivo com o toureiro da terra.
Afonso Álvarez (G.F.A. Alcochete), numa pega que contou com elementos dos dois grupos, pegou ao quarto intento, já com ajudas muito carregadas.
A arte tem o dom da subjetividade. Há quem aprecie e quem não aprecie. Num mundo vertiginoso e de ritmo alucinante, o ser humano tende a apreciar o que mais se adapta a esse andamento. Porém, o tempo é precioso e a arte essencial. A segunda lide de Moura Caetano teve estes dois elementos. Tempo porque tudo foi feito de forma que permitisse respirar cada momento, cada intenção e cada movimento executado pelo ginete e os seus cavalos. Arte porque Moura Caetano soube entender o touro que tinha por diante e aplicar a sua concepção artística. Brega de qualidade (não confundir com andar de um lado para o outro com o touro, sem qualquer objectivo efectivo de lide), sortes desenhadas com temple e as reuniões a resultarem maioritariamente em “su sítio”. A melhor actuação da noite e que merecia mais entusiasmo do conclave…
Luís Sarrato, pelos Amadores de Arronches, concretizou a pega ao primeiro intento.
João Moura Jr. incendiou as bancadas e deixou o público num verdadeiro delírio. Recebeu o touro com uma sorte gaiola, com a cravagem a resultar muito traseira. A sua lide desenrolou-se sempre com muita ligação com o público e a aproveitar a investida do touro para bregar e cravar a seu gosto. Pela positiva, destaque para um ferro cravado após desenhar a sorte Mourina, com reunião ajustada. O cavaleiro deixou um grande ambiente entre o público.
Afonso Matos Correia, pelos Amadores de Alcochete, concretizou a pega ao primeiro intento.
João Ribeiro Telles encerrou as actuações equestres com uma lide positiva e que terminou com o público em gáudio. O cavaleiro esteve muito laborioso, com algum excesso de velocidade em algumas sortes, porém rematando a lide com um ferro emotivo e que fez o público saltar das cadeiras. Actuação a valer pelo entusiasmo que criou no público. O mesmo público que deixou as bancadas muito despidas aquando da volta do cavaleiro à arena, após a actuação e a pega por parte do grupo de Arronches (e Telles merecia receber os aplausos calorosos).
Rodrigo Abreu, pelos Amadores de Arronches, concretizou a pega ao primeiro intento, conseguindo aguentar bem a investida do touro e com o grupo a fechar bem.
Corrida dirigida por Marco Gomes, assessorado por José Guerra. No cornetim, esteve Ricardo Fernandes.
Uma noite entretida e que deu para agradar a vários públicos. Do caviar à sardinha, passando pelas bifanas e os couratos, cada espectador ‘comeu’ o que quis e foi satisfeito no regresso a casa.
