10 de Junho: Um país que se esquece de pensar, de encarar opiniões diferentes e de ser verdadeiramente livre no pensamento.
Neste 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, importa mais do que nunca refletir sobre o que somos, onde estamos e para onde caminhamos. Esta é, ou deveria ser, uma data de afirmação da identidade portuguesa, da cultura, da língua e da liberdade que tantos disseram defender. No entanto, o que hoje se observa é uma preocupante erosão desses valores, substituídos por polarizações simplistas e discursos cada vez mais intolerantes.
Portugal orgulha-se da sua história, dos Descobrimentos, da resistência à ditadura e da construção de uma democracia. Mas que democracia é esta se, em 2025, pensar diferente se tornou quase crime? O espaço para o debate livre tem vindo a encolher. As redes sociais, em vez de promoverem diálogo, transformaram-se em campos de batalha onde impera o insulto, a desinformação e o culto da opinião absoluta. Já não se ouve para compreender. Ouve-se para reagir, com ódio, com certezas inquestionáveis e com uma arrogância intelectual assustadora.
Luís de Camões: Seria hoje entendido?
Vivemos tempos em que a moderação é vista como fraqueza e o extremismo, seja à esquerda ou à direita, se tornou sinónimo de coragem. Há cada vez menos espaço para a nuance, para a dúvida, para o pensamento crítico. Criticar um lado é imediatamente ser rotulado do outro. É um raciocínio binário, simplista, profundamente redutor. Luís de Camões, cuja memória hoje se evoca, escreveu numa época de perigos e desafios, mas também de criatividade e reflexão. Teria hoje espaço para publicar? Seria lido, ou cancelado à primeira metáfora mal interpretada?
Há ainda a regressão social evidente. Um país que se quer moderno e europeu, mas onde persistem desigualdades gritantes, salários indignos e serviços públicos em colapso. E perante isso, que fazemos? Em vez de exigirmos soluções, perdemo-nos em guerrilhas ideológicas estéreis. Discute-se mais sobre o que alguém disse no TikTok do que sobre o acesso à saúde ou à educação.
10: de Junho: Urge recuperar o espírito crítico
E quanto às comunidades portuguesas no estrangeiro, que fazem parte integrante desta celebração? Muitas vezes são lembradas apenas em discursos protocolares. Esquecemos que continuam a ser embaixadores da nossa cultura, enquanto enfrentam dificuldades reais nos países que escolheram para viver. São portugueses de corpo inteiro, mas raramente são ouvidos.
Assim, neste 10 de Junho, é urgente recuperar o espírito crítico, o respeito pelo contraditório e o compromisso com um Portugal que seja mais do que slogans e bandeiras nas janelas. É tempo de exigir mais — de nós, dos nossos líderes e da forma como nos relacionamos enquanto sociedade.
Por fim, não há futuro num país onde pensar diferente é um risco. Que este Dia de Portugal nos sirva, pelo menos, para parar e pensar. Porque celebrar Camões sem liberdade de pensamento é apenas fazer de conta.

