Regresso épico de Marcos Bastinhas completou o Universo Tauromáquico Português, ontem dia 6 de junho em Santarém, na Monumental Celestino Graça. O cartel foi composto pelos cavaleiros João Moura Caetano, no ano que comemora 20 anos de alternativa, e Francisco Palha. Tiveram pela frente um Concurso de Ganadarias, onde também pegaram em solitário os Amadores de Santarém face a touros de Oliveira Irmãos, Dr. António Silva, Manuel Veiga, Santa Maria, Canas Vigouroux e Mata-o-Demo.
Prólogo: O portal abriu-se em Santarém
É dia 6 de junho e chegam as 17h. As tão esperadas 17h. Todo o ambiente encaixa num filme dos “Vingadores” quando um herói desaparecido regressa no momento decisivo. Não é apenas mais um elemento do cartel. A sua presença altera a atmosfera da praça porque o público já conhece toda a história anterior. Não está apenas a assistir a uma lide; está a acompanhar um artista cujo percurso acompanha há anos.
Santarém não recebeu apenas um cavaleiro. Recebeu um elemento central do universo taurino português. Como nos grandes filmes de super-heróis, o impacto não estava apenas no que Marcos Bastinhas fez em praça, mas em tudo o que o público recordava quando o viu atravessar a praça nas cortesias: as vitórias, as ausências e a promessa de um novo capítulo. Afinal, os regressos mais celebrados são sempre aqueles que fazem sentir que o herói voltou à história quando a história mais precisava dele.
Numa casa com dois terços de lotação preenchida, logo nas cortesias notava-se o ambiente instalado! Ambiente que ansiava o regresso de Marcos e ver os dois cavaleiros do cartel e suas lides até porque estamos em pleno festejo dos 20 anos de alternativa de João Moura Caetano, e o mesmo não está a deixar ninguém indiferente em praça nesta temporada especial.
Nas cortesias, Bastinhas entrou a cavalo com passo espanhol e a ovação foi estrondosa tal fogo de artifício.
Team-up de autênticos super-heróis taurinos
Como se de um filme da Marvel se tratasse, Santarém recebeu um autêntico team-up de super-heróis da tauromaquia portuguesa.
Vindos de universos narrativos distintos, os protagonistas encontraram-se na mesma arena para um espetáculo que ultrapassou a simples soma das suas atuações. João Moura Caetano chegou envolto na cinematografia do temple, da elegância e da ligação permanente ao público. Foi o Capitão América da tarde: firme, disciplinado, senhor dos tempos e dos espaços, construindo cada lide com a serenidade de quem conhece o peso da responsabilidade mesmo que os touros em sorte não o tenham feito desenvolver o seu toureio superior.
Francisco Palha assumiu o papel do Wolverine deste universo taurino. Intenso, veloz, emocional e imprevisível, protagonizou momentos de risco e emoção que aceleraram o pulso das bancadas. Cada reunião transportava a energia de quem vive a arena no limite e faz dessa entrega a sua principal marca.
Os Vingadores da arte de tourear
Mas o centro da narrativa pertencia inevitavelmente a Marcos Bastinhas.
O seu regresso era o acontecimento que mobilizava Santarém muito antes do início da corrida. Havia expectativa, emoção e uma ansiedade coletiva que atravessava o concelho. Como um herói desaparecido que regressa no capítulo decisivo da saga, Bastinhas voltou a ocupar o lugar que parecia estar à sua espera.
E quando entrou em praça, a sensação era a de assistir ao reaparecimento de Homem de Ferro após uma longa ausência. Não precisou de efeitos especiais, portais ou batalhas intergalácticas. Bastou-lhe a presença. Bastou-lhe montar a cavalo. Bastou-lhe enfrentar novamente o touro.
Se Tony Stark declarou “I am Iron Man”, Marcos Bastinhas pareceu responder à sua maneira na forma como toureou: “Eu sou o Marcos”. E foi precisamente essa afirmação que marcou a tarde. Não a de um homem que regressa para recordar o passado, mas a de um cavaleiro que regressa para escrever novos capítulos.
No final, os três cavaleiros formaram uma verdadeira equipa de Vingadores da arte de tourear. Moura Caetano com a autoridade do líder, Palha com a intensidade do guerreiro e Bastinhas com a força simbólica do herói regressado. Juntos ofereceram uma corrida que, por momentos, pareceu sair diretamente de um argumento de cinema.
João Moura Caetano foi o Capitão América: o líder do temple e o escudo da elegância
João Moura Caetano tourou na sua primeira lide um oponente diferente de apresentação, da ganadaria Torre Onofre, com grande ênfase na reação do público devido à sua pelagem. Contudo, logo se demonstrou distraído e com pouca bravura face ao cavaleiro e montada. Mesmo assim, Caetano conseguiu as cravagens compridas “a ferros” assim que interiorizou melhor a personalidade, ou falta dela, do oponente. Para conseguir tirar melhor partido ainda toureou com o capote e retirou melhor locomoção da lide e concentração do adversário, mas o touro não transcendeu o esperado para a praça e para o cavaleiro de renome.
Os ferros foram sempre eficazes, sem espetáculo de maior a que o cavaleiro nos habituou, devido à falta de matéria prima. Mesmo assim, não se retira a verdade de tourear a esta lide, ladeando rente ao touro sempre que permitiu e entregando ferros aplicados de frente com maestria.
A arte da leitura
Na segunda lide, com um touro com pouca portabilidade da ganadaria Dr. António Silva, Moura Caetano teve de se render à arte de bem analisar estrategicamente um inimigo. Foi uma lide bélica do ponto de vista da mente do cavaleiro contra o animal, de estudo. Defendeu nesta lide toda a sua arte e chegou a ferros maiores, chegando a algumas partes das bancadas.
Aqui reinou a maestria da escola da equitação face à imprevisibilidade de movimento de um touro que se diz bravo, mas que dificultou a lide por falta dessa qualidade, sendo essa a única falha. E por isso o mesmo decidiu encurtar a lide, após ter moldado o fraco barro enquanto pode. E é caso para dizer, “e muito fez ele”.
Marcos Bastinhas foi o Homem de Ferro num regresso de herói
Antes da primeira lide, Marcos Bastinhas agradeceu ao público em redor e atira o tricórnio para o centro da arena.
E estávamos apenas a começar uma tarde de arrombo!
Recebeu o touro de Oliveira Irmãos à porta gaiola, praticamente dentro dos curros e dando a traseiro da montada. Tudo reunido para depois seguir para as sortes de ferros compridos em alta cilindrada e de ligação empática com o público.
De facto, a ausência da sua irreverência já era sentida no panorama cultural e hoje esteve o Marcos de sempre numa das suas melhores tardes.
O cavaleiro citou o oponente em três diferentes setores, em diferentes ferros, quando lhe faltou a portabilidade do inimigo e cravou de frente com honestidade artística clássica. Mostrando que domina os géneros todos.
Antes dos ferros de palmo também citou de praça a praça, num confronto de traços visuais epopeicos e que terminou em duas reuniões de alto nível.
Para mais, destaca-se ainda a falta de peões de brega em praça e que em determinada altura até Marcos recusou diretamente. Seguiram-se dois ferros de palmo consecutivos onde até fez vénia com o cavalo face ao touro e ainda o sentou completamente, em sinal de desafio e intrepidez.
No fim, um par de bandarilhas de sucesso e de enorme aplauso como não se viu este ano ainda. Antes de sair… um beijo para o céu de agradecimento.
Voltar a casa e inspiração para tudo superarmos
Com análise inicial do touro da ganadaria Mata-o-Demo, diferente do que lhe calhou em sorte na primeira lide, Marcos acabou por deslizar nesta análise do touro e deslizou na cara. Uma queda com impacto na audiência e com diversos intervenientes em praça. Mas depressa se tornou apenas uma nota de rodapé neste regresso. Mesmo com mantê-las como se de uma batalha com um vilão tivesse saído, foi para o pátio de quadrilha e. Voltou a montar mesmo parecendo lesionado de uma perna.
Seja nos compridos ou nos curtos manteve a sua linha da tarde: a verdade do toureio e remix entre clássico e irreverente. Foi com estes ferros de verdade que prendeu o público, o mesmo público que admitiu ter sentido a sua falta e a própria tauromaquia também.
Toureou o touro com o cavalo como capote, com piruetas sobre si mesmo face ao touro e ajustadíssimas. E assim, continuou com as piruetas e uma levada antes de um ferro curto aplicado com ênfase e sentido, o mais estridente nas bancadas deste ano. E deixou o público a salivar por mais nesta temporada!
Francisco Palha: Wolverine de adrenalina e risco
Francisco Palha, também ele irreverente, calhou com um touro de apresentação clássica na primeira lide, de Canas Vigouroux. Com três compridos de qualidade e de eficácia, um deles a meia praça de distância do touro logo na sua saída, e de batida ao piton contrário, foi assumindo cada vez mais o risco que o caracteriza. Desta forma, tentou chegar a mais sobre o touro que tinha à sua frente.
Com sangue a ferver, sentiu o público de Santarém e passou para curtos que ficaram enraizados na memória deste dia, até porque também ele recusou peões de brega em praça algumas vezes.
Criando o deslizo estético do touro diversas vezes, como quadro pintado, conseguiu implementar o seu estilo no oponente e trazendo o melhor dele, por vezes com adrenalina ao máximo, com milímetros de separação.
Neste desenho que criou com emoção à flor da pele, características do próprio, conseguiu ainda uma soma de lide que arrebatou as bancadas ao ter cravado em pleno salto de investida do touro.
Resiliência e intensidade
O seu segundo touro, de Santa Maria, apresentou apenas algumas condições de desenhar uma investida melhor, mas este touro perdeu velocidade e empenho. Palha começou com compridos de frente cingidos.
Nos curtos, começou com batidas ao piton contrário, delineando sempre o risco e emoção das sortes.
Assim, bebeu da emoção do público, que nesta corrida nunca falhou fazer-se ouvir, e completou uma lide de qualidade com ferros e cites templados, além de também ter ladeado a metade da praça, dando a barriga da montada ao oponente.
Amadores de Santarém: Unidos pela pega
Se os cavaleiros eram os Vingadores, os forcados eram os X-Men.
Não havia um único protagonista. Havia uma equipa. O cabo assumia o papel do líder que orienta e prepara a missão. O forcado da cara lançava-se para o combate, movido pela coragem e pela capacidade de enfrentar o impossível. Os ajudas funcionavam imprescindíveis, cada um com a sua função específica, sabendo que o sucesso só existe quando todos atuam em perfeita sintonia.
Tal como nos X-Men, a força não está num herói isolado, mas na confiança absoluta entre companheiros. Cada pega é uma batalha coletiva em que o talento individual vale pouco sem a entrega do grupo.
O Grupo de Forcados Amadores de Santarém iniciou a sua atuação com uma primeira pega segura, pelo cabo da formação, Francisco Graciosa, consumada ao primeiro intento. Seguiu-se Salvador Ribeiro de Almeida, que deu continuidade à prestação do grupo e concretizou o segundo toiro também à primeira tentativa, mantendo a eficácia da equipa. Na terceira intervenção, João Faro resolveu o seu toiro à segunda tentativa.
A quarta pega ficou marcada por um momento de entendimento coletivo, com Manuel Ribeiro de Almeida e Francisco Paulos a consumarem o toiro em cernelha, demonstrando coesão e leitura conjunta da investida, apesar de demoradas.
Já na quinta pega, Francisco Cabaço voltou a repor a eficácia inicial, fechando o seu momento à primeira tentativa e prolongando a consistência da formação. Por fim, Joaquim Grave encerrou a atuação do grupo na sexta pega da tarde, dedicando a intervenção ao presidente da Câmara de Santarém, João Teixeira Leite, e consumando igualmente ao primeiro intento, fechando a prestação dos Amadores de Santarém com autoridade e solidez.
E foi isso que Santarém viu: enquanto os cavaleiros construíam o seu próprio universo de super-heróis, os forcados mostravam que continuam a ser parte importante tauromaquia portuguesa, unidos por uma missão comum e pela certeza de que ninguém vence sozinho.
Sem antagonistas não há heróis e artistas precisam de matéria prima
E como em qualquer grande filme heróis, também esta história precisava do seu vilão Thanos ou Loki. Os touros assumiram esse papel. Não como vilões de uma narrativa simplista, mas como a força inevitável que dá sentido à existência dos heróis.
Cada um exigiu uma leitura própria, uma estratégia diferente e uma resposta ajustada às suas características. De forma geral, notou-se em alguns exemplares alguns quilos a mais, condicionando a mobilidade e a emoção que o espetáculo reclama. Ainda assim, houve toiros que trouxeram dificuldades acrescidas e obrigaram os cavaleiros e forcados a sair da sua zona de conforto. E houve um extraordinário touro de Oliveira Irmãos.
Foram esses os verdadeiros Thanos da noite: os adversários que complicaram a missão e elevaram a jornada do herói, porque, tal como no cinema, sem uma ameaça à altura não há o épico, não há superação e não há história para contar.
Estes Thanos estavam a disputar o prémio do Concurso de Ganadarias, num júri com elementos da Associação Sector 9, e foi Oliveira Irmãos quem levou a vitória para casa. O seu exemplar foi toureado por Marcos Bastinhas, na sua primeira lide.
Epílogo: O crossover que Santarém nunca esquecerá
Depois do regresso de Bastinhas, da liderança de Moura Caetano e da intensidade de Palha, Santarém não assistiu apenas a uma corrida. Assistiu ao crossover que os aficionados esperavam há meses, um autêntico blockbuster se falarmos em termos cinematográficos.
Um daqueles eventos raros em que diferentes universos se encontram na mesma arena para recordar porque continuam a ser protagonistas da grande saga da tauromaquia portuguesa. E entramos assim n uma espécie de era MARVEL da tauromaquia, com muito ainda por ver, rever e esperar nesta temporada!

