Sérgio Godinho celebrou o amor no Campo Pequeno com um concerto que foi memória, risco e presente, na noite de ontem.
Fotografias: Carlos Pedroso
Ontem à noite, Sérgio Godinho subiu ao palco como quem entra em casa. Sem pressa. Sem necessidade de provar nada. Apenas para cantar.

O concerto integrou o festival Montepio Às Vezes o Amor, mas foi muito mais do que uma data num cartaz. Foi uma viagem consciente pelas suas canções de amor — e pelo amor às canções.
Um espectáculo pensado como conceito, não como nostalgia
Não se tratou de um alinhamento óbvio nem de uma colectânea previsível. O que Sérgio Godinho apresentou foi um conceito assumido: reunir, pela primeira vez em palco, as suas chamadas “canções de amor”.

Não apenas o amor romântico. Também o amor pela vida, pelas lutas, pelas dúvidas. Aquele amor que atravessa décadas sem envelhecer.
Coincidentemente — ou talvez não — o espectáculo partilha o nome com “Às Vezes o Amor”, canção destacada do álbum Ligação Directa (2006).

Canções que mudam sem deixar de ser as mesmas
Ao longo da noite, percebeu-se essa ideia repetida vezes sem conta por Sérgio Godinho: as canções vivem. Transformam-se. Ganham novos sentidos. E, ainda assim, permanecem intactas.
Há nelas algo de orgânico. Como uma árvore antiga que continua a dar frutos iguais e diferentes ao mesmo tempo.

Talvez por isso, ouvir temas nunca antes apresentados ao vivo teve um peso especial. Não soaram a curiosidade de arquivo. Soaram a presente absoluto.
Um alinhamento que atravessa décadas com coerência
O concerto abriu com “Aprendi a Amar” e seguiu sem pressas por um percurso que tocou várias fases da carreira. De “Romance de um Dia na Estrada” a “Tudo no Amor”, passando por momentos como “A Barca dos Amantes”, “Correio Azul” ou “Bomba-Relógio”.

O público ouviu, cantou, sorriu. Houve silêncio quando era preciso. Houve cumplicidade quando surgia.
No encore, “As Horas Extraordinárias”, “Tudo no Amor” e “O Primeiro Dia” fecharam a noite com a sensação clara de ciclo completo.

Uma banda à altura da delicadeza
Este não foi um espectáculo solitário. Sérgio Godinho rodeou-se de músicos que conhecem o seu universo por dentro — e outros que o reinventam a partir de fora.
Da velha guarda, Nuno Rafael, também na supervisão artística, e Sérgio Nascimento, mestre do ritmo. Do lado mais recente, Margarida Campelo e Inês Sousa, presenças luminosas e versáteis. A somar, o saxofonista Tomás Marques, o mais novo do grupo, mas plenamente integrado.

A direcção musical ficou a cargo de António Quintino, contrabaixista de formação e multi-instrumentista por escolha, responsável por encontrar a temperatura certa para canções que fazem parte da história da música portuguesa.
Encontrou-a.
Aos 80 anos, o risco continua a ser motor
Talvez o mais impressionante não seja o percurso. É a inquietação. Aos 80 anos, Sérgio Godinho não se limita a revisitar o passado. Arrisca. Reorganiza. Reinterpreta.
Leva para palco canções que nunca ali tinham estado. Não para provar que pode. Mas porque sente que faz sentido agora.
E isso sente-se na sala.

Um concerto que não foi apenas sobre amor
Foi sobre tempo. Sobre coerência. Sobre continuar a cantar quando se tem algo a dizer.
Ontem, no Campo Pequeno, Sérgio Godinho não apresentou apenas um espectáculo. Partilhou um estado. E saiu como entrou: inteiro.

