Cristiano Ronaldo no Euro 2016 volta a gerar debate: António Simões critica e Fernando Santos sai em defesa do capitão, no dia de ontem.
A final do Euro 2016 voltou a abrir discussão, quase dez anos depois da noite em que Portugal conquistou o título europeu frente à França. Desta vez, o foco esteve na postura de Cristiano Ronaldo junto ao banco de suplentes, depois de ter saído lesionado ainda numa fase inicial do jogo.
António Simões criticou duramente o comportamento do capitão da Seleção Nacional nos minutos decisivos da partida. Já Fernando Santos, selecionador que conduziu Portugal ao título, fez questão de contextualizar o momento e defender o papel do jogador.
António Simões aponta excesso de protagonismo
A análise de António Simões partiu de uma comparação direta com Eusébio. Para o antigo internacional português, Cristiano Ronaldo continuou a procurar protagonismo mesmo depois de já não poder ajudar dentro de campo.
“Ele continuou a pensar que era a figura do jogo, mas já estava fora do jogo”, afirmou.
Logo depois, António Simões endureceu o tom e levou a crítica para uma ideia mais ampla sobre a forma como, na sua opinião, Ronaldo vive o jogo.
“Então hoje ele joga não é para ganhar, ele joga para ser a figura. Pois. O que é o contrário do Sr. Eusébio?”
A observação reacendeu uma discussão antiga em torno da imagem pública de Cristiano Ronaldo. No entanto, neste caso, o centro do debate foi aquele momento específico da final de Saint-Denis.
“Não tem nada que se mostrar para a televisão”
António Simões fez questão de sublinhar que a sua crítica não partia de qualquer questão pessoal com o avançado. Ainda assim, considerou que Ronaldo foi longe demais na zona técnica.
“Vamos dizer as coisas como são, eu não tenho nada contra, era o que faltava”, começou por dizer.
Depois, foi direto ao ponto.
“O Sr. Cristiano Ronaldo, nesse jogo, não tem nada que se pendurar no treinador. Não tem nada que o fazer. Não tem nada que se mostrar para a televisão”.
Para o antigo jogador do Benfica, a vitória portuguesa mudou a leitura pública desse episódio. Caso Portugal tivesse perdido a final, defendeu, a narrativa teria sido completamente diferente.
“Mas se por acaso tivéssemos perdido, sabe o que é que iam dizer? Sabe o que é que iam escrever? A infelicidade do Cristiano Ronaldo se ter magoado”, concluiu.
Fernando Santos recorda a tensão da final
Perante as críticas, Fernando Santos procurou retirar dramatismo ao episódio. O antigo selecionador nacional descreveu a atitude de Cristiano Ronaldo como parte da emoção de uma final europeia.
“Mas eu, em relação a essa questão do Cristiano, eu acho que foi um momento bonito. Vamos também situar as coisas”, pediu.
O treinador explicou ainda que, naquela fase do jogo, já tinha dificuldade em fazer chegar as indicações aos jogadores. Segundo Fernando Santos, Ronaldo acabou por funcionar como uma extensão da sua voz.
“Eu já estava muito cansado de falar, e o jogador já me ouvia mal, e portanto eu dizia-lhe uma coisa e ele era caixa de ressonância. E ele gritava mais alto ainda”, revelou.
Essa explicação ajuda a perceber a leitura do antigo selecionador. Para Fernando Santos, o capitão não estava a invadir o seu espaço. Estava, antes, a tentar ajudar num momento de enorme desgaste.
Os empurrões e a reorganização da equipa
Um dos momentos mais recordados dessa final envolve os empurrões de Cristiano Ronaldo a Fernando Santos na zona técnica. O treinador, porém, não lhes deu importância negativa.
“Eu achei um momento bonito, sinceramente, de me ter empurrado. Não fez diferença nenhuma. Para já, quando me empurrava sozinho, às vezes já ganhámos, já ganhámos. Não estava a fazer grande diferença”, admitiu.
Fernando Santos explicou também que a intervenção de Ronaldo teve utilidade prática. Após a lesão de Raphael Guerreiro, Portugal precisou de reorganizar a equipa e adaptar João Mário à lateral esquerda.
Foi nesse momento, segundo o técnico, que a presença do capitão junto à linha ganhou relevância.
“A minha voz não chegava. E então ele foi a correr lá até ao banco da França, para lhes dizer a eles aquilo que eu estava a querer dizer”, partilhou.
Eusébio, Ronaldo e o peso da memória
A discussão acabou por tocar num ponto sensível do futebol português: a comparação entre Eusébio e Cristiano Ronaldo. Fernando Santos preferiu afastar qualquer tentativa de diminuir uma figura para valorizar a outra.
Para o antigo selecionador, os dois nomes pertencem a lugares maiores da história do futebol nacional e mundial.
“Eu acho que são duas figuras ímpares do futebol português. Eu já disse o enorme respeito e mais respeito que tenho pelo senhor Eusébio da Silva Ferreira. Mas todos nós temos que respeitar também aquilo que é crescer o normal do mundo. E todos temos que ter esse respeito e compreender que estamos a falar de dois dos melhores jogadores do mundo de sempre”.
Assim, a final do Euro 2016 voltou ao debate público por um detalhe que nunca passou despercebido. Para António Simões, Ronaldo procurou um palco que já não lhe pertencia. Para Fernando Santos, foi apenas a expressão intensa de um capitão impedido de jogar, mas ainda preso ao destino da equipa.
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