Reggae Sun Fest estreou-se em Oeiras com Ponto de Equilíbrio, Patrice e Mo’Kalamity a marcar o primeiro dia do festival.
Texto: Diogo Nora
Fotografias: João Ramos Sousa / Diogo Nora
O Reggae Sun Fest arrancou nos Jardins do Marquês, em Oeiras, com um primeiro dia dominado pela música e por um cartaz internacional diversificado. Ponto de Equilíbrio encerraram a noite perante a maior enchente do dia, num programa que passou ainda por Mellow Mood, Mo’Kalamity e Patrice.*
O reggae chegou aos Jardins do Marquês, em Oeiras, com a estreia do Reggae Sun Fest. O primeiro dia apresentou uma programação extensa, atravessada por diferentes sonoridades e formas de viver a cultura reggae.

Apesar de o recinto não ter esgotado, a adesão foi significativa ao longo da tarde e da noite. Sobretudo nas horas finais, a afluência aumentou e atingiu o ponto máximo com a entrada em palco dos brasileiros Ponto de Equilíbrio.
Mais do que uma sucessão de concertos, a primeira jornada revelou um festival que procurou cruzar diferentes gerações e geografias. Portugal, Itália, Alemanha, Cabo Verde e Brasil estiveram representados numa programação que alternou entre o palco principal e o espaço dedicado à cultura soundsystem.
A cultura soundsystem abriu o festival
Antes dos grandes nomes subirem ao palco principal, foram os Atlantic Sound a assumir a abertura do festival no palco Soundsystem.
O projeto apresentou uma particularidade que não passou despercebida: o próprio soundsystem utilizado durante as atuações, naquele palco, foi construído pela equipa.

A programação prosseguiu depois com os Concrete Jungle Kids, acompanhados pelo Selecta Nagga Fire. A seleção musical percorreu diferentes referências da cultura reggae e incluiu também artistas portugueses.
Entre os nomes escolhidos estiveram Kussundolola e Nuno Chaparro, músico que morreu em 2018, num acidente ocorrido na Ponte Vasco da Gama.
A presença destas referências nacionais deu ao arranque do festival uma dimensão particular, ligando a programação internacional à história e à memória do reggae feito em Portugal.
Mellow Mood deram início aos concertos do palco principal
Às 16h, chegou o momento de abrir oficialmente o palco principal.
A responsabilidade ficou entregue aos Mellow Mood, projeto italiano formado pelos irmãos Lorenzo e Jacob, que apresentou um concerto com cerca de uma hora.

A atuação manteve o público envolvido e teve um dos seus momentos mais reconhecidos quando a banda interpretou “Inna Jamaica”.
O tema, lançado em 2014 e incluído no álbum “Twins”, conta com a participação do português Richie Campbell.

A escolha da música provocou naturalmente alguma expectativa na plateia. Por momentos, ficou no ar a possibilidade de uma aparição do artista português para interpretar o tema ao vivo, mas tal não se verificou.
Ainda assim, os Mellow Mood deixaram uma das primeiras impressões fortes da tarde e deram ao palco principal um arranque consistente.

Pow Pow Movement elevaram a temperatura no Soundsystem
A música não parou com o final do concerto dos italianos.
No palco Soundsystem, os alemães Pow Pow Movement assumiram o controlo e transformaram o espaço numa verdadeira celebração da cultura soundsystem.
A atuação ganhou particular intensidade com a interação do vocalista com o público. Num dos momentos mais espontâneos, o artista subiu para cima da mesa, provocando uma reação imediata da plateia.
Foi uma atuação com uma energia diferente daquela que se sentia no palco principal e que ajudou a manter o recinto em movimento.
A festa deixava, entretanto, caminho aberto para uma das vozes mais aguardadas da tarde.
Mo’Kalamity confirmou a força da sua voz
Monica Tavares, conhecida artisticamente como Mo’Kalamity, chegou ao palco com um currículo que dispensa grandes apresentações entre os apreciadores de reggae.
A artista franco-cabo-verdiana entregou um concerto seguro e expressivo, confirmando em Oeiras as razões pelas quais é considerada uma das vozes de destaque do género.

A sua atuação foi também um dos momentos em que a diversidade do cartaz se tornou mais evidente.
Entre artistas europeus, brasileiros e portugueses, o Reggae Sun Fest encontrou em Mo’Kalamity uma representação forte da ligação entre África, Cabo Verde e a cultura reggae internacional.

Patrice protagonizou um dos concertos da noite
À medida que a noite avançava, o palco principal recebeu Patrice.
O artista alemão foi responsável por um dos concertos mais participados do primeiro dia. Durante cerca de uma hora e quinze minutos, conseguiu manter uma ligação constante com a plateia.

Em vários momentos, o público acompanhou as suas músicas em uníssono.
A resposta da audiência acabou por transformar a atuação num dos pontos altos da noite, mostrando que o festival conseguia ir além da apresentação dos artistas e criar momentos de verdadeira comunhão entre palco e plateia.

Ponto de Equilíbrio fecharam com o recinto mais cheio
Se o primeiro dia foi construído de forma progressiva, o momento de maior concentração de público chegou no final.
Os brasileiros Ponto de Equilíbrio foram os responsáveis pelo encerramento e entraram em palco perante a maior enchente registada durante a jornada.

A banda brasileira trouxe consigo uma identidade musical marcada também pela intervenção social.
As suas letras abordam questões políticas e sociais, incluindo temas relacionados com a desflorestação da Amazónia, mantendo uma dimensão reivindicativa que faz parte da identidade do grupo.

Para esta atuação, os Ponto de Equilíbrio contaram ainda com a participação da convidada Negamanda.
O concerto encerrou uma noite em que o público teve contacto com diferentes vertentes do reggae e confirmou a aposta do festival num cartaz internacional.

As críticas que também marcaram o primeiro dia
Nem tudo foi música.
Ao longo do dia, algumas questões relacionadas com as condições do recinto foram alvo de críticas por parte dos festivaleiros.
A falta de mais zonas de sombra foi uma das reclamações mais ouvidas. Para quem permaneceu várias horas no espaço, a possibilidade de encontrar mais locais protegidos do sol teria melhorado a experiência.

Também a disponibilidade de água potável mereceu reparos. O público sentiu falta de pontos onde fosse possível encher as garrafas ou simplesmente beberem agua
Outro dos temas que gerou descontentamento esteve relacionado com o sistema de pagamentos através das pulseiras.

Para efetuar consumos era necessário carregar a pulseira, sendo ainda cobrado um custo de ativação de dois euros.
Foram estes alguns dos principais pontos negativos apontados por quem esteve no recinto durante a primeira jornada.
Uma estreia que encontrou na música o seu principal argumento
O primeiro dia do Reggae Sun Fest terminou com uma conclusão relativamente clara: a componente artística foi o grande trunfo da estreia.
O festival conseguiu apresentar um cartaz internacional diversificado, colocando no mesmo espaço diferentes gerações, nacionalidades e abordagens ao reggae.
Mellow Mood trouxeram a energia italiana, Mo’Kalamity confirmou a força da sua voz, Patrice protagonizou um dos concertos mais participados e Ponto de Equilíbrio fecharam a noite perante a maior concentração de público.
Paralelamente, o palco Soundsystem garantiu uma experiência diferente, mais próxima da cultura de rua e da tradição dos sistemas de som que estão na génese de muitas das expressões da música reggae.
Apesar de algumas questões relacionadas com o recinto e de uma primeira jornada sem lotação esgotada, o Reggae Sun Fest mostrou ter argumentos para crescer.
A música cumpriu. E, numa estreia, isso poderá ser o ponto de partida mais importante para um festival que pretende afirmar-se no calendário nacional dedicado ao reggae.
