Sérgio Conceição quebra silêncio sobre FC Porto, Benfica e futuro: “A minha saída não foi fácil”, afirmou o treinador.
Foto: Sérgio Conceição – Instagram
Sérgio Conceição voltou a falar com detalhe sobre a saída do FC Porto, dois anos depois de deixar o Dragão. Na entrevista concedida à TVI, CNN e Maisfutebol, o treinador abordou o fim do ciclo portista, os contactos ligados ao Benfica, as experiências no AC Milan e no Al Ittihad, e ainda o peso da família no seu percurso.
Sem clube neste momento, o técnico português deixou claro que o próximo passo deverá passar pelo estrangeiro. Ainda assim, não fechou portas de forma absoluta, nem mesmo quando foi confrontado com a possibilidade de treinar o Benfica.
Saída do FC Porto marcou fim de ciclo
Sérgio Conceição explicou que decidiu falar agora porque a saída do FC Porto teve um peso especial na sua carreira. O treinador recordou os sete anos no clube e a ligação a Jorge Nuno Pinto da Costa.
“Vários motivos, a minha saída do FC Porto não foi fácil, a todos os níveis. Ligação de 7 anos como treinador, o fim de um ciclo de alguém que marcou a minha carreira desportiva, o presidente Pinto da Costa. Era a altura que tinha de ser.”
Noutra passagem da entrevista, reforçou a mesma ideia.
“A minha saída não foi fácil a todos os níveis, ligação de sete anos, fim de um ciclo de alguém que me marcou muito, que foi Jorge Nuno Pinto da Costa.”
O treinador recordou também o período eleitoral no FC Porto, em 2024, e revelou que só foi chamado por Pinto da Costa a poucos dias das eleições.
“Estive sempre à parte até a dois ou três dias das eleições. Fui convidado pelo presidente Jorge Nuno Pinto da Costa para ir ao seu gabinete, onde estava o Pepe presente, que depois saiu, mas ele explicou-me que também faria a renovação do Pepe, caso fosse reeleito presidente do FC Porto, o Pepe continuaria com ele.”
Foi nesse contexto que aceitou renovar contrato até 2028, numa decisão ligada à relação pessoal com o antigo presidente.
“Abriu um bocadinho o coração dele, falou de uma forma muito emocionada da sua doença, explicou-me a estratégia que tinha para os próximos anos do FC Porto e eu, por amizade, respeito, e por gratidão, aceitei.”
Benfica esteve em cima da mesa, mas não passou de conversa
Durante a entrevista, Sérgio Conceição admitiu que houve uma conversa informal com Luís Filipe Vieira sobre a possibilidade de treinar o Benfica, caso o antigo presidente regressasse à liderança do clube.
“Muito difícil… Perante aquilo que é o meu passado aqui em Portugal era difícil [treinar o Benfica], mas não posso dizer nunca porque sou um profissional de futebol. Neste momento sinto que é difícil treinar outro clube em Portugal que não o FC Porto.”
Depois, explicou o alcance desse contacto.
“Acho que não fica bem estar a falar disso. Foi algo que não se concretizou, não deu em nada. Não vou desmentir que havia interesse do ex-presidente do Benfica que se fosse eleito seria eu a treinar o Benfica. Mas nunca se avançou para lá de um simples conversa informal.”
Mais tarde, voltou ao tema e assumiu que há barreiras difíceis de ultrapassar.
“Não fica bem estar a envolver outras pessoas e numa situação que, para mim, não se concretizou, não deu em nada.”
E acrescentou:
“Não vou desmentir que havia interesse do ex-presidente do Benfica, que se fosse eleito, havia uma possibilidade de falar comigo para ir treinar o Benfica, mas nunca se avançou para além de uma simples conversa informal. Porque meto barreiras.”
Ainda assim, não usou a palavra “nunca”.
“Muito difícil, perante aquilo que é o meu passado aqui em Portugal.”
E completou:
“Não posso dizer nunca, porque sou um profissional de futebol. Mas, neste momento, tendo em conta o meu passado, não me vejo a treinar outro clube em Portugal que não o F. C. Porto.”
Convites recusados e futuro fora de Portugal
Sérgio Conceição também falou sobre o futuro. O treinador revelou que teve convites recentes, incluindo de uma seleção que estará no Mundial.
“Tive a possibilidade de treinar bem recentemente uma seleção que vai estar no Mundial e não aceitei. Um convite quando o Tedesco saiu da Béligica, também dois clubes franceses há pouco tempo… A continuidade da minha carreira passará por fora de Portugal.”
Noutro momento, explicou que a Seleção Nacional não é um tema que queira alimentar publicamente.
“Seleção Nacional? Volto a dizer, eticamente não é correto dizer se estou preparado. Sou profissional, estou preparado para tudo. Ainda não sei o que vou fazer amanhã. Vou pensar no que poderá aparecer, num projeto que seja um bocadinho diferente, foram dois projetos difíceis. Neste momento sem clube e sem convites? Sim.”
Ainda assim, repetiu a ideia central.
“A minha carreira passará mais por fora de Portugal neste momento.”
Questionado sobre outros convites, voltou a detalhar.
“Tive a possibilidade de treinar uma seleção que vai estar no Mundial, e não aceitei. Tive um convite quando saiu o tedesco da Bélgica, fui convidado. Dois clubes franceses também há bem pouco tempo. A minha carreira passará mais por fora de Portugal neste momento.”
Arábia deixou marcas e Milan foi “interessante”
As duas últimas experiências também foram abordadas. Primeiro, Sérgio Conceição falou do Al Ittihad, onde encontrou uma realidade diferente daquela a que estava habituado.
“Cheguei depois de um ano positivo do clube. Ganharam campeonato e a King Cup, mas sabia-se de alguns problemas na estrutura. Saio com uma experiência muito diferente. Eles não estão habituados a treinar durante o dia. Se tivéssemos mais do que um treino por dia já era difícil para eles respeitar os horários.”
Mais tarde, descreveu a passagem pela Arábia como um desafio duro.
“Na Arábia foi muito difícil. Cheguei depois de um ano positivo do Al Ittihad. Ganharam o campeonato, a King Cup… Saio do Al Ittihad com uma experiência diferente. O querer é uma coisa, o fazer é diferente. Não estão habituados a treinar durante o dia. É uma realidade completamente diferente. Milan? Os seis meses foram bastante interessantes.”
Sobre Itália, foi mais breve.
“Os seis meses no Milan foram bastante interessantes.”
Ainda assim, admitiu que a passagem recente pelo Al Ittihad o fez viver momentos de dúvida.
“Já tive momentos de fraqueza desses. Num passado bem recente com esta experiência na Arábia. Foi muito difícil, verdadeiramente impactante na relação que tenho com jogadores, estrutura…”
Orgulho pela época do FC Porto
Sérgio Conceição foi também questionado sobre a época do FC Porto, que culminou com a conquista do 31.º título de campeão nacional. O antigo treinador dos dragões garantiu que ficou satisfeito.
“Por que está a fazer a pergunta se fiquei contente? Tive a particularidade de dar os parabéns aos jogadores todos que tive a oportunidade de treinar no FC Porto e a pessoas que fazem parte dos diferentes departamentos do FC Porto. E fiquei contente, sim, pela época que o FC Porto fez, por ganhar um título que foi merecido pelo que fez.”
A resposta mostrou que, apesar da saída difícil, a ligação ao clube e aos jogadores que orientou continua presente.
As perdas familiares e o valor do trabalho
A entrevista teve ainda um lado mais íntimo. Sérgio Conceição recordou o pai e a mãe, que perdeu cedo, e falou do impacto dessas ausências na sua vida.
Questionado sobre o que diria ao pai se tivesse cinco minutos com ele, respondeu com emoção.
“Abraçava e agradecia. Os sacrifícios dele foram muitos ao longo da nossa vida, tive a oportunidade de estar 16 anos com ele e recebi ensinamentos fantásticos. Mesmo nos silêncios dele, ele ensinava. Mesmo nos momentos em que era difícil alguma coisa depois de um dia de trabalho, ele ensinava. Sim, cheguei a trabalhar com ele nas férias da escola. Tenho 5 filhos, todos bem formados, o mais novo tem 11 anos, vai pelo mesmo caminho. Respeito, gratidão, humildade… valores intrínsecos, fazem parte de mim. Trajeto muito difícil. O meu queria que acabasse os estudos para trabalhar com ele. Apesar de me acompanhar nas camadas jovens da Académica, ele não me elogiava. Não me lembro de o meu pai dizer ‘gosto muito de ti’, mas mostrava de outras formas. Acho que estaria orgulhoso da minha carreira, a minha mãe também.”
Noutra resposta, voltou a sublinhar os ensinamentos deixados pelos pais.
“Os sacrifícios foram muitos ao longo da nossa vida. Tive a oportunidade de estar 16 anos com o meu pai, com a minha mãe 18. Foram ensinamentos fantásticos. Mesmo nos silêncios dele, ensinava. Cheguei a trabalhar com ele nas férias da escola. Os conselhos que demos… tenho cinco filhos. Todos bem formados, o primeiro tem 11 anos, mas vai pelo mesmo caminho. Foi um trajeto difícil. O meu pai queria que acabasse os estudos para ir trabalhar com ele. Não via futebol. Se me elogiava? Não. Também não me lembro de dizer ‘gosto de ti’. Mas demonstrava-o de outras formas.”
Depois, recordou que o pai não via o futebol como prioridade.
“O meu pai não ligava ao futebol. Hoje é quase ao contrário, os pais obrigam os filhos a ir ao futebol.”
E acrescentou:
“Queria que acabasse os estudos, para depois ir trabalhar com ele.”
Futebol como resposta ao sacrifício
Sérgio Conceição explicou ainda onde encontrou força para continuar. Quando chegou ao FC Porto, viveu no lar de Costa Cabral e ajudava a família sempre que podia.
“Cheguei ao FC Porto, fiquei no lar de Costa Cabral com alguns jogadores africanos e de outros países e de outras cidades de Portugal. A minha mãe estava doente na altura, ia a Coimbra levar algum dinheiro para ajudar. Não foi fácil. Olhei para o futebol como algo que me dava satisfação enorme. Eles podiam olhar para mim e ver que tudo o que foi o sacrifício deles valeu a pena. Lutei sempre com isso em mente. Sim, choro. Penso neles, no meu irmão, nas pessoas que me ajudaram e estão vivas.”
Também aqui, a ideia voltou a aparecer noutra resposta.
“Onde fui buscar a força? Cheguei ao FC Porto e fiquei no lar com alguns jogadores de outros países e cidades de Portugal. Num momento muito difícil, ia a Coimbra sempre que podia para levar algum dinheiro para ajudar. Mas não foi fácil esse percurso. Via o futebol como, não só algo que me podia dar uma satisfação enorme, e também poderem olhar para mim e verem que o sacrifício deles valeu a pena. Penso nisso todos os dias, em cada título. Quando choro penso nos meus pais e no meu irmão, nas pessoas que me ajudaram e estão presentes. Não valorizo o dinheiro, valorizo projetos e vitórias.”
Dinheiro não surge como prioridade
Na parte final, Sérgio Conceição deixou também uma reflexão sobre dinheiro, sucesso e escolha de projetos.
“Dinheiro tem importância, facilita a vida, ajuda a ter alguns dos prazeres da vida mundana, mas não é algo que valorizo muitíssimo. É importante, trabalhamos para isso, mas o prazer de ganhar títulos, de ter sucesso na vida. Houve cuidado na gestão do dinheiro, mas não é algo que dê prioridade. Se calhar por isso acontece de forma natural, estou tranquilo a esse nível agora. O que me mais preocupa é o próximo projeto, não o dinheiro.”
Assim, Sérgio Conceição reaparece publicamente num momento de balanço. Fala do FC Porto sem esconder feridas, admite conversas que ficaram pelo caminho e assume que o próximo capítulo deverá ser escrito fora de Portugal.

