Pedro Chagas Freitas vê no amor por Portugal o excesso que alimenta o sonho mundial, assinalou nas redes sociais.
Pedro Chagas Freitas recorreu às redes sociais para reflectir sobre a forma como Portugal vive o futebol, entre o drama de um empate e a euforia de uma goleada.
Num texto marcado por uma leitura emocional sobre a relação dos adeptos com a Seleção, o escritor partiu dos resultados frente ao Congo e ao Uzbequistão para falar de amor, exagero, lucidez e identidade colectiva.
Do pessimismo à euforia em poucos dias
Nas redes sociais, Pedro Chagas Freitas enquadrou a reacção dos portugueses como uma contradição própria de quem ama demasiado.
Assim, escreveu: “O amor é o excesso na medida certa. Somos todos esta deliciosa contradição.”
A partir daí, o autor apontou para a oscilação emocional que acompanha Portugal. Depois do empate com o Congo, surgiu o alarme. Depois da goleada ao Uzbequistão, apareceu a crença absoluta.
Por isso, Pedro Chagas Freitas resumiu esse movimento com ironia: “Empatámos com o Congo e o projecto nacional ficou em estado terminal; goleámos o Uzbequistão e vamos passear até ao título mundial. É ridículo, e é maravilhoso.”
O futebol como espelho de quem sente
Contudo, o texto não ficou preso ao resultado dos jogos. O escritor usou o futebol como ponto de partida para uma reflexão mais larga sobre o amor.
Nesse sentido, defendeu: “O amor e a lucidez são ofícios diferentes: a lucidez observa; o amor participa; a lucidez mede, descreve; o amor exagera, inventa.”
Mais à frente, Pedro Chagas Freitas foi ainda mais longe nessa ideia. Para o autor, amar implica também deformar a realidade.
Assim, escreveu: “Suspeito que o amor seja o contrário da verdade.”
Logo depois, acrescentou: “A verdade factual olha para um humano e vê um humano; o amor olha para o mesmo humano e vê um universo. Não sei qual dos dois está mais certo.”
“O amor é uma forma de mentira”
Apesar da dureza da frase, o escritor apresentou essa “mentira” como uma força vital. Não como engano vazio, mas como uma forma de suportar o mundo.
Por isso, afirmou: “O amor é uma forma de mentira.”
Ainda assim, Pedro Chagas Freitas explicou que essa mentira tem uma natureza particular: “É uma mentira estranha, que se combate a si mesma: o amor aproxima-nos mais da vida do que a própria verdade.”
Depois, usou exemplos familiares e afectivos para reforçar a ideia: “Uma mãe sabe que o filho não é perfeito; ama-o como se fosse. Um apaixonado sabe que a pessoa que ama tem defeitos; olha para ela como se fosse um milagre. E é.”
Para o autor, esse milagre não depende apenas do que acontece fora. Nas suas palavras: “O milagre não é algo que nos acontece; é algo que acontece em nós.”
O adepto, o drama e a folha de cálculo
Entretanto, Pedro Chagas Freitas regressou ao futebol para sublinhar a diferença entre a frieza da análise e a intensidade do adepto.
No texto, imaginou uma reacção sem emoção perante os jogos: “Empate? “Resultado aceitável.” Goleada? “Resultado satisfatório.” Julgo que reagir assim deve ser o mais próximo que a vida tem da morte.”
A partir daí, o escritor colocou o amor como aquilo que impede a vida de se tornar apenas cálculo.
Assim, escreveu: “O amor está entre nós e uma folha de cálculo. O amor acrescenta drama, desproporção, loucura, poesia.”
Para Pedro Chagas Freitas, o sofrimento do adepto nunca é apenas sobre futebol. É também sobre medo, pertença e fragilidade.
Nesse ponto, deixou uma das frases centrais da publicação: “O adepto que sofreu contra o Congo não estava a sofrer por futebol; estava a sofrer por si próprio.”
“Não foi o jogo. Fomos nós.”
Além disso, o autor defendeu que o futebol serve como linguagem para sentimentos maiores. O jogo torna-se pretexto para falar de limites, perda e desejo de permanência.
Por isso, escreveu: “O amor usa as coisas para falar de outras coisas: o amor faz-nos olhar para a nossa incapacidade de aceitar que somos finitos.”
E acrescentou: “É por isso que festejamos, que choramos. Não foi o jogo. Fomos nós.”
No final da publicação, Pedro Chagas Freitas deixou uma defesa do excesso como parte essencial da vida. Para o escritor, a maturidade não está em apagar essa intensidade, mas em percebê-la.
Assim, rematou: “A maturidade não consiste em eliminar o excesso. Consiste em compreendê-lo.”
Logo depois, deixou uma mensagem directa aos adeptos: “Não tenhas vergonha de compreender o teu.”
A publicação terminou com uma felicitação curta, mas carregada de sentido colectivo: “Parabéns, Portugal.”
