Wolf Alice no NOS Alive: intensidade, contraste e um concerto que ficou entre dois mundos no segundo dia de festival.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

Os Wolf Alice chegaram ao Palco NOS numa posição ingrata. Atuavam imediatamente antes dos Foo Fighters, num recinto já preparado para receber os grandes protagonistas da noite, mas isso não impediu a banda britânica de construir um espetáculo coeso, alternando explosão, melodia e momentos de maior contenção.
“Bloom Baby Bloom” abriu a atuação e encontrou um público atento, que rapidamente começou a acompanhar Ellie Rowsell. A vocalista assumiu desde cedo o centro do concerto, quer pela presença em palco, quer pela capacidade de mudar de registo sem perder consistência.

A receção foi calorosa quando se dirigiu aos festivaleiros em português.
“Olá, Lisboa.”
Pouco depois, acrescentou:
“É tão bom estar de volta à vossa linda cidade. Adoro estar aqui.”
O reencontro com o público português começava assim, sem discursos longos, mas com proximidade suficiente para criar ligação antes de “White Horses”.
Joel Amey e Joff Oddie deram profundidade ao concerto
Os Wolf Alice nunca dependeram apenas de Ellie Rowsell, embora seja inevitável que grande parte da atenção se concentre nela.
Em “White Horses”, Joel Amey assumiu a voz, trazendo outra tonalidade ao espetáculo e mostrando a amplitude de uma banda que gosta de alterar o centro de gravidade das canções.
Já “Formidable Cool” colocou a guitarra em primeiro plano e permitiu a Joff Oddie ganhar espaço, num dos primeiros momentos em que o concerto abandonou a contenção inicial e mostrou uma face mais agressiva.

Essa tensão entre delicadeza e ruído atravessou praticamente toda a atuação. Os Wolf Alice são mais fortes precisamente quando não escolhem apenas um desses lados, deixando que a melodia conviva com guitarras mais ásperas e mudanças súbitas de intensidade.
“Lisbon” teve, naturalmente, uma receção especial. O título bastava para criar uma ligação imediata ao local, mas a execução confirmou que não seria apenas uma escolha simbólica. Ellie Rowsell juntou-se à guitarra e o final ganhou uma carga instrumental particularmente forte, com Joff Oddie a empurrar o tema para um terreno mais caótico.
Em alguns momentos, a massa sonora acabou por ocupar demasiado espaço e a voz perdeu alguma nitidez. Ainda assim, a entrega manteve o público dentro do concerto.

A expectativa pelos Foo Fighters esteve sempre presente
A banda sabia perfeitamente qual era o ambiente do recinto e não ignorou a presença dos cabeças de cartaz.
“Como se estão a sentir? Quem está entusiasmado pelos Foo Fighters?”, perguntou Joff Oddie.
A resposta chegou através de uma explosão de gritos, revelando aquilo que já era evidente desde o início da tarde: uma grande parte do público tinha chegado ao Passeio Marítimo de Algés sobretudo para ver Dave Grohl e companhia.
Essa condição acabou por pesar na forma como o concerto dos Wolf Alice foi recebido. Havia atenção e participação, mas também um público em espera, já emocionalmente direcionado para aquilo que aconteceria mais tarde.

Mesmo assim, a banda não se limitou a cumprir calendário.
“How Can I Make It OK?” conseguiu envolver o recinto através de palmas marcadas, conduzidas a partir do palco, e criou um dos momentos de maior participação coletiva da atuação.
Ellie Rowsell mostrou diferentes faces ao longo do alinhamento
Antes de “The Sofa”, a vocalista voltou a dirigir-se ao público e encontrou espaço para uma referência bem portuguesa.
“É tão entusiasmante estar aqui. Diverti-me tanto em Lisboa. Amo os pastéis de nata.”
A frase arrancou sorrisos e abriu caminho para uma canção onde a voz ganhou maior protagonismo. “The Sofa” trouxe uma pausa no peso instrumental e permitiu a Ellie Rowsell explorar uma interpretação mais aberta, sem perder a força que tinha marcado os temas anteriores.
O concerto voltou depois a procurar uma relação mais direta com o público. Antes de “Bros”, a banda convidou quem tinha ido ao festival com o melhor amigo a abraçá-lo e a dizer-lhe que o amava.

O gesto poderia facilmente ter-se perdido num recinto daquela dimensão, mas encontrou resposta e ajudou a criar um dos momentos mais afetivos da noite.
“Bros” mantém um lugar particular na relação dos Wolf Alice com os fãs. A canção fala de amizade e cumplicidade sem cair em excessos, e em Algés funcionou precisamente pela simplicidade com que foi apresentada.
“Yuk Foo” levou o concerto ao ponto mais agressivo
A chegada de “Yuk Foo” foi anunciada por uma sirene estridente que apanhou parte do público de surpresa. Durante alguns segundos, houve quem procurasse perceber se se tratava de um elemento do espetáculo ou de algum alerta exterior.
A dúvida terminou quando Ellie Rowsell surgiu com um megafone.
A canção foi o momento mais explosivo da atuação, com a vocalista a transformar o palco num espaço de confronto e descontrolo calculado. O ambiente aproximou-se de uma manifestação sonora, sem perder o rigor da banda.

“Play the Greatest Hits” manteve a intensidade, enquanto “Smile” prolongou a componente mais física do concerto.
Depois de uma sequência tão carregada, “The Last Man on Earth” trouxe a pausa necessária. A balada permitiu ao espetáculo recuperar espaço e respiração, criando um contraste bem-vindo antes da despedida.
“Don’t Delete the Kisses” encerrou uma atuação competente
Os Wolf Alice fecharam o concerto com “Don’t Delete the Kisses”, o tema mais reconhecido do seu percurso e aquele que encontrou maior resposta entre quem conhecia verdadeiramente a banda.
Ellie Rowsell despediu-se desejando uma boa noite a quem permaneceria no recinto para ver os Foo Fighters, encerrando uma atuação segura e tecnicamente consistente.
O concerto teve bons momentos, apresentou várias faces da banda e confirmou a capacidade dos Wolf Alice para alternarem peso, melodia e vulnerabilidade. Ainda assim, a reação do público ficou aquém daquilo que o repertório poderia justificar.
A responsabilidade não esteve necessariamente no palco. Atuar antes de uma banda que mobilizou grande parte do público do segundo dia do NOS Alive colocou os Wolf Alice num lugar difícil, entre quem os queria ouvir e quem apenas aguardava pelo concerto seguinte.
Por isso, a atuação ficou numa zona intermédia: suficientemente forte para provar a qualidade do grupo, mas sem criar uma memória coletiva à dimensão de outros momentos da noite.

