Nick Cave no NOS Alive: uma missa selvagem entre a fé, a perda e o amor

Nick Cave no NOS Alive: uma missa selvagem entre a fé, a perda e o amor, num momento profundamente intenso no festival.

Fotografia: NOS Alive – Matilde Fieschi

Nick Cave entrou no palco do NOS Alive com a intensidade de quem continua a viver cada concerto como uma experiência irrepetível, mesmo depois de décadas de carreira e de milhares de atuações em todo o mundo.

Na noite de quinta-feira, 9 de julho, o Passeio Marítimo de Algés recebeu um espetáculo onde a música nunca apareceu separada da emoção, da dúvida ou da procura de sentido. Nick Cave & The Bad Seeds construíram uma viagem que passou pela escuridão, pela esperança, pela fé e pela fragilidade humana, sem nunca cair numa sucessão mecânica de canções.

Ao longo de mais de duas horas, percebeu-se novamente porque tantos fãs descrevem os concertos de Nick Cave como uma espécie de missa. Não se trata apenas dos braços levantados, dos coros ou da forma como o músico toca nas mãos da primeira fila.

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Existe uma ideia de comunhão que atravessa todo o espetáculo, uma relação quase física entre o palco e o público e uma espiritualidade que não exige certezas absolutas. É uma fé construída com dúvidas, perdas, perguntas e uma vontade persistente de continuar a acreditar em alguma coisa.

Antes de “Get Ready For Love”, Cave deixou o aviso que acabaria por definir grande parte da noite.

“Preparem-se para o amor.”

Uma relação com o público que vai muito além da encenação

Desde os primeiros minutos, Nick Cave recusou qualquer distância confortável em relação às milhares de pessoas que estavam diante dele.

Aproximou-se constantemente das primeiras filas, percorreu a barreira, tocou nas mãos que lhe eram estendidas e entregou o microfone a uma fã completamente rendida ao momento. Tudo isso poderia ser entendido como parte de uma encenação bem conhecida, mas a verdade é que há demasiado envolvimento naquele contacto para o reduzir a um simples gesto de palco.

Nick Cave parece procurar o público com a mesma intensidade com que o público o procura a ele. Essa troca acontece de forma permanente, seja durante os momentos mais violentos ou nos temas de maior fragilidade.

“Fucking Lisbon. Obrigado”, repetiu várias vezes ao longo da noite.

“From Her to Eternity” e “Train Long-Suffering” levaram o concerto para terrenos mais densos, com Cave numa entrega física impressionante e os Bad Seeds a aumentarem progressivamente a tensão.

Mesmo quando o espetáculo se tornava mais pesado, a proximidade não desaparecia. Pelo contrário, parecia tornar-se ainda mais necessária.

Uma fé onde a dúvida nunca deixou de existir

A relação de Nick Cave com a religião sempre foi demasiado complexa para caber numa narrativa simples de conversão ou redenção.

As imagens bíblicas, a culpa, o pecado, a procura espiritual e a figura de Cristo atravessam a sua obra há décadas, muito antes das tragédias pessoais que marcaram profundamente a sua vida.

Contudo, Nick Cave nunca apresentou a fé como uma resposta definitiva para todos os problemas. A sua relação com o cristianismo vive precisamente dessa tensão entre acreditar e duvidar, entre procurar Deus e admitir que nem sempre é possível encontrá-lo.

É uma visão profundamente contemporânea da espiritualidade, mais próxima da procura do que da certeza e mais interessada na experiência humana do que na doutrina.

Nesse contexto, Wild God ganha uma importância especial. O disco mantém a memória da dor, mas procura também o êxtase, a alegria e uma espécie de reconciliação com o mundo.

Essa dimensão esteve muito presente em Algés.

“Wild God” levou o concerto para uma dimensão quase religiosa

“Vocês são lindos”, disse Nick Cave em português, repetindo a frase diante de uma multidão já completamente envolvida.

Quando “Wild God” começou a crescer, com os Bad Seeds em plena força e as vozes do coro a elevarem a canção, tornou-se difícil ignorar a dimensão quase religiosa do momento.

Havia braços levantados, pessoas de olhos fechados e milhares de vozes a cantar em conjunto, criando uma imagem que ajudava a perceber porque os concertos de Nick Cave são tantas vezes descritos como missas.

A comparação, contudo, não nasce de uma tentativa de transformar o músico num líder religioso. Cave não pede obediência nem oferece respostas fechadas.

O que cria é um espaço comum onde a dúvida, a fragilidade e a esperança podem coexistir durante o tempo de uma canção.

Naquele momento, pouco importava saber quem acreditava em Deus e quem não acreditava em nada. A comunhão estava na música e na forma como milhares de desconhecidos pareciam partilhar a mesma emoção.

Warren Ellis, a inquietação e a beleza

Warren Ellis voltou a ser uma figura central em tudo aquilo que aconteceu no palco do NOS Alive.

A sua presença vai muito além do papel de acompanhante de Nick Cave. Ellis é uma força própria dentro dos Bad Seeds, alguém capaz de transformar uma canção através do violino, do ruído ou da forma quase imprevisível como se movimenta.

Em “Children”, essa importância tornou-se especialmente evidente.

Nick Cave pediu a participação do público e chegou a ensinar o refrão, apesar de grande parte do recinto o conhecer de cor. A canção foi crescendo lentamente até Warren Ellis assumir um protagonismo que prendeu completamente a atenção do público.

Num festival desta dimensão, conquistar silêncio é sempre um feito raro.

Há conversas, deslocações, copos, encontros e milhares de distrações possíveis. Ainda assim, durante aqueles minutos, o recinto ouviu.

Talvez porque algumas canções conseguem obrigar-nos a estar verdadeiramente presentes, mesmo quando tudo à volta nos convida à distração.

A dor continua presente, mas já não ocupa todo o espaço

Falar da obra recente de Nick Cave implica inevitavelmente falar da perda, embora seja injusto reduzir tudo aquilo que ele faz ao sofrimento.

A morte do filho Arthur, em 2015, aos 15 anos, alterou profundamente a vida do músico e a forma como passou a olhar para a fé, a música e a relação com o público. Mais tarde, em 2022, morreria também Jethro.

Essas perdas atravessaram discos, entrevistas e reflexões públicas, mas o percurso de Nick Cave não ficou parado nesse lugar.

Wild God representa precisamente a vontade de continuar, não através do esquecimento, mas da procura de outra forma de viver com aquilo que não pode ser mudado.

“Joy” foi um dos momentos em que essa ideia ganhou maior força.

A alegria de que fala a canção não é a alegria de quem desconhece o sofrimento. É uma alegria mais difícil, quase conquistada, que surge depois da dor e não antes dela.

No final, quando a música recuou e a voz de Cave ficou exposta, o silêncio do recinto tornou o momento ainda mais intenso.

Canções que mudam quando a vida também mudou

“Esta próxima música é muito bonita”, anunciou Nick Cave antes de “Carnage”.

A apresentação foi simples, mas a canção abriu um dos momentos mais delicados da noite.

Há músicas que ouvimos durante anos sem perceber completamente aquilo que têm para nos dizer. Conhecemos a letra, reconhecemos a melodia e até gostamos delas, mas continuam a existir ligeiramente fora da nossa vida.

Depois alguma coisa muda. Perde-se alguém, termina uma relação, nasce um amor, desaparece uma certeza ou simplesmente começamos a olhar para o mundo de outra forma.

Quando voltamos à mesma canção, já não é a mesma. Nick Cave tem muitas músicas assim porque escreve sobre temas que raramente se fecham: perda, desejo, ausência, medo, fé, culpa e amor.

Talvez seja essa a razão pela qual as suas canções antigas continuam a encontrar novas pessoas e as mais recentes conseguem conviver naturalmente com temas de várias décadas.

Chorar sem entregar a vida inteira à tristeza

Antes de “The Weeping Song”, Nick Cave apresentou a canção com uma frase onde o humor e a melancolia voltaram a encontrar-se.

“É uma canção para chorar enquanto rockamos até adormecer. É uma canção para chorar, mas não choraremos durante muito tempo.”

Há muito da obra atual de Cave nessa ideia. A dor pode ser reconhecida e partilhada, sem precisar de ser escondida ou transformada numa vergonha. Contudo, não tem de ocupar todo o espaço para sempre.

Nick Cave nunca transforma essa possibilidade numa mensagem fácil de superação, nem promete que tudo acaba por correr bem.

A sua música é muito mais honesta do que isso. O que existe é a ideia de caminho, de continuação e da possibilidade de encontrar alguma coisa depois da perda, mesmo quando aquilo que se perdeu nunca deixa verdadeiramente de acompanhar quem ficou.

Talvez seja também por isso que o público confia tanto nele.

Os clássicos chegaram sem transformar o concerto numa viagem ao passado

A reta final trouxe alguns dos temas mais esperados do alinhamento, mas o concerto nunca se transformou num exercício de nostalgia.

“The Mercy Seat” manteve toda a violência e tensão que a acompanham há décadas, enquanto “Papa Won’t Leave You, Henry” recuperou o lado mais inquietante da escrita de Nick Cave.

“Henry Lee” trouxe uma atmosfera diferente antes da chegada de “Red Right Hand”, recebida como um verdadeiro hino coletivo.

Para alguns, a canção pertence a uma relação de décadas com Nick Cave. Para outros, ficou eternamente ligada à série Peaky Blinders.

Essa diferença desapareceu rapidamente quando milhares de pessoas começaram a cantar em conjunto.

“Jubilee Street” voltou a crescer até atingir uma intensidade quase física, enquanto “Hollywood” devolveu o concerto aos grandes temas da obra mais recente.

A morte, a ausência e a tentativa de encontrar sentido continuavam presentes, mas nunca como os únicos lugares possíveis.

Nem tudo o que termina deixa de ter sido verdadeiro

A música de Nick Cave regressa muitas vezes a uma das questões mais difíceis da vida: a necessidade de aceitar que nem tudo aquilo que é verdadeiro permanece para sempre.

Há relações que acabam, amizades que desaparecem, pessoas que escolhem caminhos diferentes e histórias que terminam longe daquilo que foi imaginado.

Nada disso significa necessariamente que tudo tenha sido mentira. Por vezes, alguma coisa foi profundamente verdadeira enquanto existiu e, mesmo assim, não conseguiu continuar.

Nick Cave canta muitas vezes a partir desse território onde a perda não apaga o amor e onde a ausência não elimina aquilo que foi vivido.

Talvez seja por isso que tantas pessoas encontram partes da própria história dentro das suas canções. Não se trata apenas de tristeza ou melancolia.

Há reconhecimento, memória e a aceitação de que algumas pessoas continuam connosco de maneiras que nem sempre conseguimos explicar.

“Into My Arms” e uma despedida feita por milhares de vozes

No encore, Nick Cave regressou ao palco com “City of Refuge” e “Wide Lovely Eyes”, prolongando a noite antes daquele momento que grande parte do público esperava.

Depois aproximou-se do piano.

“Seria maravilhoso se pudessem cantar comigo.”

“Into My Arms” começou e milhares de pessoas responderam imediatamente.

A canção criou uma intimidade quase improvável num espaço daquela dimensão, reduzindo por momentos toda a grandiosidade do festival a um homem, um piano e milhares de vozes. Há em “Into My Arms” muitas das contradições que ajudam a compreender Nick Cave.

É uma canção sobre amor e proteção que começa na dúvida religiosa, escrita por alguém que fala frequentemente de Deus sem fingir ter todas as respostas.

Talvez por isso se tenha transformado numa espécie de hino espiritual para tanta gente.

Nick Cave fala do amor sem garantir que ele salva sempre e fala da fé sem eliminar a dúvida. Essa honestidade talvez seja mais poderosa do que qualquer certeza.

Uma missa para quem acredita e para quem continua a procurar

A ideia de missa acompanha os concertos de Nick Cave há muito tempo porque existe neles algo que ultrapassa a simples relação entre artista e público.

Há ritual, participação coletiva, silêncio, cânticos e uma vontade de partilhar aquilo que normalmente é vivido de forma solitária.

Contudo, a missa de Nick Cave não exige que todos acreditem na mesma coisa.

Há espaço para a fé, para a dúvida, para a perda, para a esperança e até para a descrença.

Durante mais de duas horas, o Passeio Marítimo de Algés recebeu essa comunidade temporária, formada por milhares de pessoas que chegaram por razões diferentes e acabaram unidas pelas mesmas canções.

No início da noite, Nick Cave tinha pedido ao público que se preparasse para o amor.

No final, depois de uma viagem pela escuridão, pela fé, pela dor e pela esperança, encontrou milhares de vozes dispostas a cantar com ele.

“Obrigado, Lisboa. Vejo-vos novamente um dia. Obrigado por serem tão lindos.”

A despedida aconteceu entre aplausos.

Talvez ninguém esteja verdadeiramente preparado para o amor, para a perda ou para todas as mudanças que a vida pode impor sem aviso.

Ainda assim, continuar disponível para sentir, para confiar e para acreditar em alguma coisa continua a ser, talvez, uma das formas mais humanas de fé.

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