No Caixa Alfama, Raquel Tavares tomou Alfama: começou no meio do povo e acabou com o bairro a cantar na rua

No Caixa Alfama, Raquel Tavares tomou Alfama: começou no meio do povo e acabou com o bairro a cantar na rua, de forma extraordinária.

Texto: Rui Lavrador
Fotografia: Alfredo Matos

Raquel Tavares surgiu no fundo da plateia a cantar Reza por Mim, Lisboa. Foi atravessando o público, devagar, recebida de braços abertos, vozes e olhares de quem não a tratava como uma estranha. Até chegar ao Palco Caixa, já o concerto tinha começado muito para lá da música.

Foi assim que a fadista encerrou o primeiro dia da 14.ª edição do Caixa Alfama. Sem aparecer simplesmente diante das pessoas, mas vindo do meio delas. Uma entrada com força, carregada de significado e totalmente ligada à relação que construiu com aquele bairro.

Raquel não nasceu em Alfama. Adotou-a. E foi adotada por ela.

- Publicidade -

Não é um pormenor. É a explicação para a forma como entrou, cantou e saiu. Alfama não serviu apenas de cenário ao concerto. Esteve dentro dele.

Uma presença que não admite distrações

Era o regresso de Raquel Tavares ao Caixa Alfama, em nome próprio, depois de ter retomado a carreira musical há cerca de três anos. Antes disso, atravessou um período de afastamento da música no qual experimentou outros caminhos artísticos, da apresentação de programas à representação.

Pode ter saído dos palcos durante algum tempo. O fado, porém, não saiu dela.

No Palco Caixa, Raquel mostrou-se inteira. Segura na voz, certeira na interpretação e com um domínio absoluto sobre o espetáculo. Não é apenas uma fadista que chega, cumpre o alinhamento e agradece no final. Agarra a atenção do público, conduz os momentos, muda a temperatura da noite e sabe exatamente quando deve soltar a voz ou travá-la.

Há qualquer coisa de visceral na forma como Raquel canta. O corpo acompanha cada poema, o rosto denuncia-lhe as palavras e a voz tanto se levanta como se fecha sobre a dor. Nada parece indiferente. Nada é cantado apenas porque estava previsto.

É esse envolvimento que a separa de uma interpretação simplesmente correta. Raquel não passa pelos temas. Mete-se dentro deles.

E, mesmo nos momentos de maior intensidade, nunca perde o controlo. A emoção não lhe atropela a técnica. A técnica também não lhe esvazia a emoção. As duas encontram-se naquele lugar difícil a que poucos intérpretes conseguem chegar.

Fado com memória, sangue e personalidade

Acompanhada por Mike11, Pedro Viana, Bernardo Viana e Francisco Gaspar, que celebrou o aniversário durante aquela noite, Raquel apresentou um concerto de fado à antiga. Daquele que não precisa de subterfúgios, distrações ou modernidades colocadas à força. Voz, músicos, palavra e verdade. Chega, quando existe qualidade.

E ali existiu.

Zanguei-me com o Meu Amor, À Janela do Meu Peito, Não Passes com Ela à Minha Rua, Ai, se os Meus Olhos Falassem, Pontas Soltas e Fado da Ironia foram alguns dos temas interpretados ao longo de uma atuação que nunca perdeu tensão.

Raquel sabe que cada poema tem uma ferida diferente. Uns pedem contenção, outros exigem confronto. Uns dizem-se quase para dentro, outros precisam de sair com violência. A fadista percebe essas diferenças e não oferece ao público uma sucessão de temas cantados com a mesma intensidade e os mesmos gestos.

É uma intérprete com pelo na venta, daquelas que não se deixam engolir pelo palco. Enfrenta-o. Tem presença, personalidade e uma relação direta com quem está diante dela. Quando fala, aproxima-se. Quando canta, impõe-se. E quando aperta um verso, não o larga até o fazer chegar ao outro lado.

Esteja mais ou menos ativa, apareça muito ou pouco, Raquel continua a ocupar um lugar de destaque no fado. Não vive apenas do nome que construiu. Continua a justificar esse nome sempre que se apresenta com esta entrega.

O fado antigo continua vivo

A memória de algumas das grandes figuras da música portuguesa atravessou também o concerto. Beatriz da Conceição foi homenageada através de Meu Corpo, enquanto nomes como Lucília do Carmo, Carlos do Carmo e Anita Guerreiro foram igualmente recordados.

Raquel conhece esse património, respeita-o e sabe carregá-lo sem ficar curvada perante ele. Não tenta copiar as vozes que vieram antes, nem apresenta o passado como uma relíquia intocável. Pega nas canções, leva-as para dentro da sua identidade e devolve-as com a força de quem sabe o que está a cantar.

É isso o fado à antiga quando é verdadeiramente bem feito. Não é uma repetição pálida do que já existiu. É memória com pulso.

Depois da atuação extraordinária no Coliseu dos Recreios, em dezembro, Raquel voltou a mostrar-se num plano elevado. Mas Alfama dá-lhe outra coisa. Naquele bairro, a fadista não está apenas diante de uma plateia. Está rodeada por pessoas com quem criou uma ligação, por ruas que escolheu como suas e por uma comunidade que lhe responde sem cerimónias.

A “Tia Natália” e um bairro que conhece os seus

Um dos momentos mais intensos da noite surgiu com a homenagem à “Tia Natália”, conhecida figura de Alfama, falecida recentemente.

Aí, o espetáculo tornou-se mais íntimo. Raquel estava a falar para todos, mas havia palavras que pertenciam especialmente àqueles que conheciam a mulher, a figura e o lugar que ocupava no bairro. Sentiu-se na reação do público. Sentiu-se também na maneira como a fadista viveu o momento.

Raquel defende Alfama com unhas e dentes. Não porque tenha nascido ali, mas porque fez do bairro uma escolha de vida e de identidade. Adotou-o sem querer apropriar-se dele. Deu-se às pessoas, participou naquela comunidade e conquistou o direito de ser recebida como uma das suas.

Alfama retribui-lhe com colo, mimo e uma proteção quase familiar. Há uma cumplicidade que não se fabrica e também não se compra. Ou existe ou não existe.

Naquela noite, existiu do princípio ao fim.

Já não havia palco que chegasse

O encerramento foi apoteótico.

A marcha de Alfama subiu ao Palco Caixa, acompanhada pelo respetivo cavalinho, e juntou-se a Raquel Tavares. A festa cresceu, ganhou mais vozes e deixou de caber dentro do espaço onde o concerto estava a acontecer.

Depois, todos desceram.

Raquel voltou a atravessar o público, agora acompanhada pela marcha, e seguiu a cantar pelas ruas do bairro. A música saiu do palco e avançou por Alfama. Não houve um corte seco, um agradecimento protocolar ou uma saída discreta. Houve um concerto que se soltou das estruturas do festival e continuou no lugar ao qual pertencia.

A imagem foi poderosa: Raquel Tavares rodeada pelo povo, com a marcha a tocar e o bairro a receber de volta aquilo que lhe tinha dado durante toda a noite.

Se a entrada já tinha sido marcante, o final foi ainda maior. Raquel começou o espetáculo no meio das pessoas e terminou a desaparecer com elas pelas ruas. Entre os dois momentos, cantou com alma, domínio e uma intensidade que não permitiu indiferença.

Não nasceu em Alfama. Também já não precisa de nascer.

Raquel escolheu o bairro, o bairro escolheu Raquel e, durante aquela noite, os dois cantaram com a mesma voz. Noite muito luminosa por parte de Raquel Tavares.

- Publicidade -

Destaques

Gonçalo Salgueiro escolheu ser feliz e deu ao Caixa Alfama um concerto avassalador

Gonçalo Salgueiro escolheu ser feliz e deu ao Caixa...

Carolina Varela Ribeiro chegou ao Caixa Alfama com o fado no sangue, mas a voz é só dela

Carolina Varela Ribeiro chegou ao Caixa Alfama com o...

Caixa Alfama: Rodrigo mostrou que a obra continua viva e Fábio Ourique foi a voz que Lisboa não viu chegar

Caixa Alfama: Rodrigo mostrou que a obra continua viva...

The Weeknd tomou conta do Restelo com fogo, luz e uma sucessão de êxitos

The Weeknd tomou conta do Restelo com fogo, luz...

Gisela João, Josyara e Lucibela unem Portugal, Brasil e Cabo Verde no Festival Língua Terra

Gisela João, Josyara e Lucibela unem Portugal, Brasil e...
- Publicidade -

Reportagens

- Publicidade -

Artigos relacionados