Miguel Moura já é um artista: A Moita que o diga

Miguel Moura já é um artista: A Moita que o diga, após mais duas atuações repletas de classe do jovem alentejano.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

Escrevo-o sem qualquer hesitação: Miguel Moura tornou-se um artista.

Não apenas um bom cavaleiro. Não apenas alguém que atravessa uma fase feliz. Um artista, com uma forma própria de sentir o toureio e de o fazer chegar às bancadas. Na Moita, na primeira corrida da Feira Taurina, apresentou duas lides de enorme nível. A primeira foi superior, mas ambas confirmaram que há nele uma transformação que já não pode ser tratada como promessa.

Miguel toureia a cavalo como se estivesse a tourear a pé. Não estou a falar de imitação, porque isso seria absurdo. Falo da maneira como cita, espera, embarca o touro e prolonga cada momento. Há corpo, cintura e intenção. Os cavalos não são apenas o meio para chegar à cravagem. Fazem parte da frase.

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O primeiro touro de António Charrua, com 610 quilos, permitiu-lhe construir a grande atuação da noite. Depois do comprido em sorte de gaiola, Miguel foi levantando a lide sem atropelos. Cada cavalo acrescentou qualquer coisa e a série de curtos colocou a praça a ferver.

A penúltima bandarilha foi extraordinária. A brega ladeada, templada, com o touro a acompanhar o cavalo sem lhe tocar, valeu tanto como a própria cravagem. Depois veio a reunião e um remate à altura de tudo o que tinha sido preparado. Não foi apenas acertar no momento. Foi criá-lo.

Terminou com um palmito e deu volta sob forte reconhecimento do público.

Miguel Moura pinta enquanto toureia

No segundo António Charrua, de 550 quilos, voltou a aparecer o mesmo toureiro. Talvez sem atingir a dimensão da primeira lide, mas com idêntica personalidade. Miguel não despeja sortes sobre os touros. Trabalha cada uma delas.

Foi por isso que me ocorreu Johannes Vermeer. Não pela vontade de tornar a tauromaquia mais erudita à força, mas pela atenção ao pormenor, à luz e à composição. Em Miguel, a preparação de uma bandarilha pode ter tanta importância como a cravagem. Há sempre qualquer coisa antes e depois do ferro. Um movimento, uma espera, um remate. Nada parece estar ali por acaso.

Cada lide começa a assemelhar-se menos a uma sucessão de sortes e mais a uma coleção de quadros.

Muito se tem falado da sua timidez. Continuo a acreditar que, no dia em que a perder, Miguel Moura poderá emocionar o público de duas formas: pelo toureio e por aquilo que sente, mas ainda não consegue dizer. Dentro da arena, porém, já fala com absoluta clareza.

Na Moita, disse muito.

Talavante obrigou o touro a dar o que não tinha

Alejandro Talavante apresentou-se com um belíssimo traje verde-pistácio e ouro, enriquecido com pormenores de azabache. Até a forma como caminhava tinha toureio.

No primeiro touro foi artista desde o capote. Houve verónicas e chicuelinas com gosto, sem pressa de as despachar para chegar à muleta. Depois tomou conta da faena.

O Calejo Pires, com 490 quilos, teve maior disponibilidade pelo lado esquerdo e Talavante aproveitou-a em séries de naturais longas, profundas e comandadas desde o primeiro passe. Pelo direito, onde o touro não tinha a mesma entrega, o extremeño não se conformou e toureou em redondo com autoridade.

Foi Talavante quem fez o touro parecer melhor. Puxou por ele, obrigou-o a investir e acabou por retirar dali coisas que não estavam à vista. Mandou na faena sem cair no erro de a tornar pesada. Foi uma enorme atuação, com música e volta.

No segundo, tentou tudo o que havia para tentar. Insistiu, mudou terrenos, procurou uma resposta que nunca apareceu. O touro era um poço seco. Não tinha investida, transmissão ou matéria que permitisse construir fosse o que fosse.

Talavante porfiou até perceber que continuar já não seria insistência, mas fingimento. Abreviou. A volta não foi autorizada, embora o público tenha percebido perfeitamente quem tinha falhado. E não tinha sido o toureiro.

Tomás Bastos fechou a corrida de joelhos em terra

Tomás Bastos esteve positivo no primeiro touro do seu lote, embora sem conseguir romper. Teve bons momentos, sobretudo nas séries iniciais, mostrou segurança e ouviu música, mas a atuação ficou num plano correto. Não comprometeu, também não marcou a noite.

No último touro tudo ganhou outra dimensão.

De branco e prata, recebeu de capote e brindou ao público uma faena que começou de joelhos em terra, com passes cambiados pelas costas. A praça acordou, mas Tomás não viveu apenas desse impacto inicial. Levantou-se e continuou a mandar.

Correu a mão pelos dois lados, ligou as séries e deu sentido ao conjunto da faena. Houve estética, profundidade e, principalmente, vontade de fazer as coisas bem. Tomás esteve digno diante de um cartaz que não lhe permitia distrações.

Pedro Paulino “China” saudou de montera em mão depois do tércio de bandarilhas. Tomás Bastos deu volta.

Já depois da corrida foi anunciado o fim do apoderamento de Cristina Sánchez. A notícia coloca um ponto final numa etapa, precisamente numa noite em que o jovem mostrou argumentos para continuar a construir o seu caminho. Agora terá de escolher quem o acompanha.

O Grupo de Forcados Amadores da Moita pegou os dois touros de António Charrua. João Pombinho concretizou a primeira pega ao segundo intento e David Solo resolveu a segunda à primeira.

A Praça Daniel do Nascimento registou cerca de dois terços de entrada para a abertura da Feira Taurina, integrada nas Festas em Honra de Nossa Senhora da Boa Viagem.

Foi uma noite com Talavante a mostrar por que razão continua a ser Talavante, Tomás Bastos a sair com dignidade de uma etapa que terminou e Miguel Moura a deixar de caber na palavra promessa.

É artista. E ontem, na Moita, toureou como tal.

Nota: Aquando do primeiro touro lidado por Tomás Bastos, alguém na bancada gritou que ele deveria bandarilhar para honrar José Júlio. Convém o público ter alguma noção. Tomás é livre de bandarilhar ou não. Além disso, não é por bandarilhar que honrará mais ou menos o seu familiar – que infelizmente – já não se encontra entre nós.

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