Campo Pequeno: os coches trouxeram o passado e Miguel Moura tratou do futuro, bem ladeado por Moura Caetano e António Telles filho.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

A Corrida de Gala à Antiga Portuguesa encerrou a temporada lisboeta entre a despedida de Pedro Maria Gomes, o temple de João Moura Caetano, a afirmação de António Telles filho e uma direção de corrida que nem sempre soube ler a qualidade do toureio.
Os coches entraram na arena devagar, trazendo consigo o peso da história e aquela solenidade muito portuguesa que o Campo Pequeno recupera nas noites de gala. É bonito. Aliás, foi bonito. Só que uma corrida não se resolve na beleza das cortesias, da mesma forma que uma tradição não permanece viva apenas porque alguém decidiu vesti-la bem.

Na noite de 4 de setembro, a Praça de Touros do Campo Pequeno recebeu uma entrada próxima da casa cheia para o quarto e último festejo da temporada. Lidaram-se sete toiros de António Raúl Brito Paes, frente a um cartel composto por Ana Batista, João Moura Caetano, Duarte Pinto, Miguel Moura, Joaquim Brito Paes, António Telles filho e Tristão Ribeiro Telles. As pegas ficaram exclusivamente entregues ao Grupo de Forcados Amadores de Lisboa.

Antes de começar, cumpriu-se um minuto de silêncio em memória de Luís Campino e Frederico Cunha. Pedro Maria Gomes foi também homenageado naquela que seria a sua despedida das funções de cabo. A partir daí, a noite começou a fazer aquilo que prometia: cruzar tempos, juntar gerações e perceber o que permanece quando os coches abandonam a arena e chega o toiro.

Moura Caetano soube deixar respirar o toureio
Ana Batista abriu praça diante de um exemplar com 520 quilos que se deixou lidar e não levantou problemas de maior. A cavaleira de Salvaterra apresentou-se com a elegância habitual, embora a lide tenha conhecido algumas intermitências. Dois bons ferros curtos salvaram a atuação de uma excessiva linearidade.

Na primeira pega estiveram atuais e antigos elementos dos Amadores de Lisboa. Gonçalo Maria Gomes consumou ao primeiro intento e deu volta com o primeiro ajuda. Foi uma imagem com mais significado do que muitas frases feitas sobre tradição: homens de diferentes gerações unidos pela mesma jaqueta e pela mesma cara do toiro.

Depois veio João Moura Caetano e, com ele, o primeiro grande capítulo da corrida. No ano em que assinala duas décadas de alternativa, o cavaleiro encontrou no toiro de 515 quilos matéria para uma atuação cuidada, de bom gosto e com verdadeiro sentido de construção.

Quando saiu o cavalo Campo Pequeno, a lide ganhou outra espessura. João Moura Caetano e Campo Pequeno entenderam-se no temple, nas distâncias e no tempo das sortes. Foi um binómio em equilíbrio, sem correrias para fabricar emoção nem adornos colocados à pressa para acordar a bancada. Os ferros nasceram de boas reuniões e terminaram em remates cadenciados, com uma brega limpa e pensada.

Moura Caetano redondeou a lide porque soube deixar respirar o toureio. Deu tempo ao toiro, ao cavalo e a si próprio. Parece simples, mas não é. Numa época em que tantas atuações confundem velocidade com intensidade, o cavaleiro mostrou que o temple continua a ser uma das formas mais difíceis de mandar.

No penúltimo ferro curto sofreu uma queda aparatosa, felizmente sem consequências visíveis. O acidente assustou a praça, mas não apagou a qualidade do que já tinha sido feito. Autorizar volta ao ganadeiro é que me pareceu excessivo por parte do director de corrida.



A segunda pega ficou reservada a Pedro Maria Gomes. Brindou ao grupo e à família, fechou-se ao primeiro intento e deu a última volta à arena enquanto cabo acompanhado por todos os elementos dos Amadores de Lisboa. Não foi preciso puxar pela emoção. Ela estava lá. Pedro Maria Gomes saiu da função, mas ficou na história de um grupo que, como todos os grupos com memória, sabe que mudar não significa apagar.







A passagem de testemunho estava feita. Duarte Mira assumia a chefia e seria ele a pegar o terceiro toiro, ao segundo intento, depois de uma atuação correta de Duarte Pinto.
O cavaleiro manteve-se fiel ao seu conceito clássico, deixando a ferragem com regularidade diante de um exemplar com 510 quilos. Fez tudo dentro das normas do seu toureio, mas sem encontrar aquele ferro ou aquela sequência capazes de rasgar a noite. Foi uma atuação séria, ainda que sem dimensão de triunfo.



Miguel Moura falou pelo futuro
E então apareceu Miguel Moura.
O quarto toiro pesava 560 quilos. Miguel entrou em sorte de gaiola e cravou um excelente primeiro comprido, colocando imediatamente a fasquia noutro patamar. A partir daí, não foi apenas somando ferros. Foi escrevendo uma lide.

Miguel Moura fez, sem margem para grandes discussões, a atuação da corrida. Houve comando, sentido de medida e uma superioridade artística que não precisou de ser anunciada antes de cada sorte. Em vários momentos, a montada respondeu ao seu pulso como uma muleta na mão de um toureiro. Não por imitação do toureio apeado, mas pela precisão, pela continuidade e pela forma como cada movimento preparava o seguinte.

As bandarilhas foram soberbas. Os remates saíram por todo o alto e a lide foi crescendo sem cair na tentação de substituir conteúdo por aparato. Miguel Moura percebeu o toiro, deu-lhe as distâncias certas e soube levá-lo até onde pretendia. O cavalo não foi um veículo para chegar ao ferro. Foi parte inteira da criação.
Aquilo foi toureio a cavalo com letra grande. Técnica suficiente para sustentar a estética, poder sem brutalidade e uma ambição artística que se sentiu desde o primeiro comprido. Numa corrida construída à volta do passado, Miguel Moura foi quem melhor falou do futuro. Se ganhar uma expressividade maior com o público, tornar-se-á um artista mais completo.

Duarte Nascimento pegou o quarto toiro à segunda tentativa.

Durante o intervalo, João Moura Caetano foi homenageado pelos seus 20 anos de alternativa. O Padre Vítor Melícias recebeu igualmente uma homenagem, prolongando o ambiente cerimonial de uma corrida onde a memória esteve sempre presente.




Joaquim Brito Paes teve pela frente o quinto toiro, com 540 quilos. A sua primeira montada de curtos permitiu-lhe alcançar os melhores momentos, mas a atuação começou a perder consistência a partir daí. Algumas passagens em falso e alguma pouca ortodoxia quebraram o ritmo e aquilo que chegou a prometer mais terminou a menos. José Duarte Batista pegou ao segundo intento.




António Telles filho recusou ser apenas mais um
António Telles filho merece que se pare um pouco na sua atuação. Tentou fazer as coisas bem e isso, num tempo de tanto efeito fácil, não é um pormenor.
Começou com um bom ferro comprido em sorte de gaiola, suportando uma longa perseguição do toiro à montada. Não perdeu a compostura nem deixou que a lide se partisse. Depois, nos curtos, procurou executar as sortes com correção, reuniu bem e levou alegria à arena.

Não alcançou a profundidade de Moura Caetano nem a superioridade de Miguel Moura, mas a sua passagem pelo Campo Pequeno esteve longe de ser meramente protocolar. Houve intenção, entrega e respeito pelo toiro. António Telles filho procurou tourear, em vez de se limitar a passar diante do público, e essa diferença merece ser assinalada. Tem algumas particularidades no seu conceito que me agradam e que me deixam confiante de que tem tudo para subir de patamar.





Tiago Silva enfrentou a pega mais dura da corrida e conseguiu concretizá-la à quarta tentativa.
Tristão Ribeiro Telles fechou a noite diante de um toiro com 510 quilos. Entrou bem em sorte de gaiola, deixou bons ferros curtos e percebeu que, naquele momento, também lhe competia devolver animação a uma corrida já longa. Ligou-se à bancada, deu ritmo à atuação e encerrou de forma afirmativa a temporada lisboeta. Francisco Mira consumou ao primeiro intento a última pega da noite, com uma excelente execução.

Dar música também exige saber de toureio
Falta falar da direção da corrida. E não é um pormenor.
Rúben Fragoso, delegado técnico tauromáquico responsável pela direção do espetáculo, mostrou uma preocupante falta de coerência na atribuição da música. Houve momentos em que a banda acompanhou passagens de mérito discutível. Se na penúltima corrida nesta praça – esta temporada – elogiei o director de corrida. Hoje cabe-me criticar. O Campo Pequeno requer exigência. Não a teve nesta corrida.

Dirigir uma corrida não é apenas conhecer o regulamento, controlar os tempos ou decidir quando a banda começa e acaba. Para saber quando deve dar música, um diretor tem de entender de toureio qualitativo. Tem de distinguir uma reunião verdadeira de um ferro vendido pela velocidade, o temple da simples demora, a emoção construída do ruído provocado. Tem de perceber o que acontece na arena antes de reagir ao que se ouve na bancada.
Carregar num botão ou dar uma indicação à banda é fácil. Saber por que razão a música deve tocar é outra conversa.
Não se exige que o diretor tenha o mesmo gosto de toda a praça. Exige-se que apresente um critério reconhecível e que esse critério não mude de cavaleiro para cavaleiro ou de ferro para ferro. Quando a música surge sem uma leitura qualitativa do toureio, deixa de valorizar a lide e passa a funcionar como ambiente. E uma corrida não precisa de música para parecer melhor do que realmente é.

O futuro não se serve em lata
Os coches regressaram. As cortesias ficaram na memória. Pedro Maria Gomes entregou a chefia dos Amadores de Lisboa a Duarte Mira, João Moura Caetano celebrou 20 anos de alternativa e Miguel Moura mostrou que existe matéria para pensar o futuro.
Mas não vale a pena fingir que esse futuro está garantido apenas porque continuamos a repetir palavras como classe, tradição e glamour. A tauromaquia não pode permanecer presa a esses chavões enquanto, demasiadas vezes, serve dentro da arena comida enlatada como se fosse caviar e ainda a acompanhasse com Moët & Chandon para convencer o público de que está perante uma experiência de luxo.

A garrafa pode ser cara, o rótulo pode brilhar e as bolhas podem fazer efeito. O paladar, porém, acaba sempre por perceber a diferença.
Nesta noite houve caviar verdadeiro. Chamou-se Miguel Moura. Houve também o temple de João Moura Caetano, a seriedade de António Telles filho e uma mudança de cabo vivida com verdade pelos Amadores de Lisboa. E houve o resto, que não passa a ser extraordinário apenas porque entrou de coche ou porque alguém decidiu dar-lhe música.

Pode haver futuro, sim. Mas começa por chamar as coisas pelos nomes e por colocar a qualidade acima do embrulho. Caso contrário, os coches continuarão às voltas pela arena e haverá sempre alguém disposto a chamar-lhe caminho.


