Tolentino Mendonça sobre o luto: “Uma dor que também é importante não mascararmos”

Na reflexão de Tolentino Mendonça sobre o luto, a fé não apaga as lágrimas nem a falta de quem morreu. Numa homilia partilhada na página de Facebook”, o cardeal reconhece o sofrimento da ausência e deixa uma mensagem de confiança.

A propósito das celebrações de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos, José Tolentino Mendonça começa por recordar as palavras de São Paulo aos Coríntios. A reflexão aborda o envelhecimento e a forma como a perda de capacidades físicas pode coexistir com um fortalecimento interior.

“Nós sentimos, à medida que crescemos e envelhecemos, que há uma espécie de destruição do nosso corpo, da nossa forma. Temos menos forças, menos capacidades. Mas, ao mesmo tempo, sentimos que isso não é o fim. Por quê? Como diz São Paulo, há ‘o homem interior’, que vai sendo reforçado dentro de nós”, afirma.

Para o cardeal, esse percurso pode ser entendido como um nascimento alimentado pela fé: “E a vida não é uma morte, a vida é um parto, a vida é um nascimento. As dores que sentimos são também as dores de parto, não são as dores do braço que não vai funcionar mais como já funcionou, dos olhos que já não vão ver como um dia viram. Mas é a dor de um outro nascimento que tem de acontecer dentro de nós e que nós alimentamos na fé.”

A esta ideia associa a ligação espiritual a quem já partiu. “E esta confiança de que estamos com Ele é também a certeza da comunhão dos santos, a certeza de que estamos com todos os que estão Nele”, acrescenta.

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“Um pai é um pai, uma mãe é uma mãe”

Ao falar da perda de pessoas próximas, Tolentino Mendonça reconhece que a confiança religiosa não elimina o sofrimento nem substitui cada relação.

“É claro que as nossas lágrimas continuam a ser derramadas e que a ausência daqueles que amamos continua a nos fazer falta, continua a nos doer, porque um pai é um pai, uma mãe é uma mãe, um esposo(a) é um esposo(a), um amigo é um amigo…”, refere.

O cardeal sublinha também a importância de reconhecer essa dor, sem a esconder: “E continuamos, até o fim, como testemunhas dessa ausência, e isso provoca em nós uma dor que também é importante não mascararmos.”

É nesse reconhecimento do sofrimento que introduz uma mensagem de esperança, recorrendo novamente a São Paulo.

“Mas, nesta exposição da nossa dor, é importante a palavra de confiança que Paulo nos diz: nós não colocamos o nosso olhar apenas nas coisas visíveis, colocamos nas coisas invisíveis”, explica.

A fé como lugar de conforto

Na parte final da reflexão, Tolentino Mendonça evoca o convite de Jesus aos que procuram alívio: “Vinde a mim todos vocês que andam enlutados e fatigados, porque eu os aliviarei. Eu serei reconforto para as suas almas, porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve.”

O cardeal conclui relacionando esse conforto com a entrega da própria história a Deus: “A transformação do nosso peso, da dor agressiva que tantas vezes nos marca, em leveza e em suavidade é uma coisa que, para nós, cristãos, só acontece na medida em que colocamos a nossa história de vida nas mãos do próprio Deus.”

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