Tolentino Mendonça fala sobre santidade numa reflexão que aproxima a fé das fragilidades e das imperfeições de cada pessoa. Numa publicação na sua página de Facebook, alusiva à Festa de Todos os Santos, o cardeal apresenta-a como um dom presente na vida quotidiana.
O texto começa por recordar a vocação comum dos cristãos, com uma referência à constituição dogmática “Lumen Gentium”.
“Queridos irmãos e irmãs, celebramos hoje a Festa de Todos os Santos. ‘A santidade é a vocação comum de todos os cristãos’ (Lumen Gentium, 5). Então, cada um de nós é chamado à santidade. Ora, a visão cristã é de que a santidade é para todos. Não é para alguns no interior da Igreja. A santidade é a vocação comum de todos os cristãos.”
José Tolentino Mendonça prossegue com uma ideia de proximidade, afastando a santidade de uma condição reservada a figuras excecionais.
“Os santos não são apenas os modelos, os heróis. Os santos são aqueles que estão ao nosso lado, que caminham connosco. Os santos somos nós.”
“A santidade é o nosso ponto de partida”
Uma das passagens centrais da reflexão surge também em destaque na imagem que acompanha a publicação.
“É preciso perceber a santidade não como um mérito pessoal, mas como um dom. A santidade está em cada um de nós. A santidade não é uma medalha que colocamos ao peito; a santidade é o nosso ponto de partida. Sem termos feito nada para isso, Deus nos deu a sua santidade, derramou o dom da sua santidade em nós.”
A partir das Bem-aventuranças, o cardeal relaciona a mensagem do Evangelho com experiências humanas como o sofrimento, a humildade e a procura da paz.
“Hoje, no Evangelho, ouvimos a página das Bem-aventuranças. E Ele diz: ‘Vós, os pobres em espírito; vós, os humildes; vós, os que chorais; vós, os que tendes fome e sede; vós, os que usais de misericórdia; vós, os que vos esforçais por ser puros de coração; vós, os que promoveis a paz’.”
Nesse sentido, sublinha que a fé se relaciona com aquilo que cada pessoa vive, incluindo os seus momentos de maior fragilidade.
“Jesus tem um discurso humano. Isto é, é a vida, é o que nós vivemos, a experiência da nossa fragilidade, as nossas lágrimas, a nossa pequenez, o nosso esforço por construir a paz. No fundo, não se trata de uma vida devota sobreposta a esta vida concreta, histórica, que nós temos. Jesus fala da vida vivida, da vida concreta, da vida de todos os dias. A questão é: o que é que fazemos com isto?”
Uma reflexão sobre a imperfeição
Na parte final do texto, Tolentino Mendonça convida a reconhecer a singularidade de cada pessoa e a agradecer a forma como a santidade se manifesta.
“Queridos irmãos, vamos dar graças pela santidade de Deus em nós e pela forma maravilhosa como ela se revela em cada um de nós. Porque cada um de nós tem um modo próprio de ser. E é isso, também, que vamos colocar sobre o altar e agradecer.”
O cardeal termina com uma mensagem que acolhe o caráter inacabado da vida e a possibilidade de transformação através da fé.
“Não é tudo perfeito, não é tudo já acabado, não nos vão lavar os pés e colocar no altar. Mas também a ideia não é essa. A ideia é: com o inacabado que somos, com esta coisa meio a caminho carregada de imperfeições, que é a nossa vida, colocarmos isso nas mãos do Cordeiro. E acreditarmos que Ele é capaz de fazer da nossa vida aquilo que ela verdadeiramente é.”
