Luís Miguel Henrique defende regresso de Ronaldo à Seleção, mas considera indispensável uma conversa com Jorge Jesus e a aceitação das regras do grupo. Na estreia como cronista de A Bola, o advogado identifica seis razões favoráveis ao reencontro e um obstáculo: o orgulho.
O jurista inaugurou a coluna “Advogado do Diabo” com uma reflexão sobre o futuro do capitão português. Antes de desenvolver os argumentos, esclareceu a sua proximidade ao selecionador: “Relembro a relação pessoal e profissional que nos une, declaração de interesses que aqui sempre vigorará, quando se imponha.”
O nome do espaço remete para a antiga figura do “Promotor Fidei”, responsável por questionar processos de canonização. Luís Miguel Henrique recupera essa função para “impedir que a devoção substituísse o rigor e olhar para além do óbvio. É algo de que o futebol sempre precisa.”
Seis argumentos para voltar à Seleção
Na coluna, o advogado enquadra a possibilidade de regresso após a suspensão de 30 dias e a multa de 255 euros aplicadas a Ronaldo. Segundo o texto, a sanção pelo abandono do estágio na Dinamarca termina antes dos encontros de 14 e 17 de novembro.
A decisão dependerá, por isso, de um entendimento: “Se o treinador quiser, o jogador aceitar e ambos forem coerentes com o que assumiram: o interesse de Portugal acima de tudo.”
O primeiro argumento apresentado prende-se com a relação do jogador com os portugueses. “Seria a reabilitação mais rápida da sua imagem perante a nação”, escreve.
O segundo passa por encerrar a polémica: “Fecharia o ciclo disciplinar com humildade e respeito, em vez de prolongar uma polémica que extravasou em muito o episódio de ter aquecido e não entrado.” O terceiro seria uma “demonstração de liderança altruísta, com o coletivo acima do mal-estar pessoal”.
Luís Miguel Henrique considera também importante recuperar a ligação aos adeptos, “de quem se sente afastado e menos valorizado do que gostaria (e merece)”. Ao abordar a comparação com o reconhecimento de Lionel Messi na Argentina, deixa uma advertência: “O povo não se reconquista com comunicados: reconquista-se com presença, golos, esforço, generosidade e humildade.”
A possibilidade de alcançar novos recordes pela Seleção constitui outro argumento. Por último, o advogado sublinha o exemplo que o capitão pode transmitir: “A melhor resposta às críticas sobre compromisso é comparecer, ajudar dentro e fora de campo e ser exemplo para os mais novos.”
Uma conversa “sem intermediários”
Do lado contrário, o cronista identifica apenas “o orgulho. Por isso mesmo, deve ser dominado por ambos.”
Mesmo que a relação pessoal não regresse ao ponto anterior, Luís Miguel Henrique entende que Ronaldo e Jorge Jesus podem estabelecer uma relação profissional funcional. Para isso, defende “uma conversa franca, direta e brutalmente honesta: sem intermediários, sem fugas para a imprensa, sem mensagens cifradas.”
O advogado reconhece a dimensão do percurso do avançado e considera que “não se pede a um homem como ele que aceite ser mais um nome na lista”. Contudo, termina com um limite claro:
“O estatuto não é um cheque em branco: o coletivo está sempre acima do individual. Um capitão é respeitado não porque impõe condições, mas porque aceita as regras do grupo e eleva quem o rodeia.”
