Domingo, Agosto 1, 2021

‘A Anomalia’, de Hervé Le Tellier: Entrevista à tradutora Tânia Ganho

@Jurgen Ritte

Tânia Ganho é a tradutora da versão portuguesa do livro ‘A Anomalia’, de Hervé Le Tellier.

A tradutora concedeu uma entrevista ao Infocul, na qual abordou a responsabilidade e honra de traduzir uma obra que venceu o conceituado Prémio Goncourt.

O Prémio Goncourt é um dos mais prestigiantes prémios da literatura em França, tendo este livro já vendido mais de um milhão de exemplares. É um romance e, simultaneamente, é um thriller, partindo de um acontecimento que altera a vida de todos os passageiros de um voo entre Paris e Nova Iorque. Um page-turner que explora as vidas secretas que os personagens pensam ter e, afinal, estão longe de imaginar até onde isso pode ser verdade.

Entre os personagens encontramos Blake – pai de família e assassino a soldo, Slimboy – popstar cansado de viver na mentira, Joanna – advogada de topo apanhada nos seus erros, ou Victor Miesel – escritor quase desconhecido transformado em autor de culto. Press release em anexo.

Como é traduzir um livro que já vendeu mais de 1 milhão de exemplares?
Uma aventura inesquecível, que começou com o convite inesperado para traduzir o livro e culminou no encontro com o autor, numa residência de tradução literária em Arles. É gratificante saber que A Anomalia está nos tops de vendas e a conquistar leitores a cada dia que passa. Estando o sector editorial europeu a lutar com tantas dificuldades há vários anos, o sucesso de A Anomalia enche-me de esperança.

Quando surgiu esta possibilidade e o que mais a estimulou?
Surgiu quando a editora Tânia Raposo me convidou para traduzir o livro e bastou-me ler a sinopse do romance e saber que o autor pertence ao Oulipo (oficina de escrita potencial) para ficar entusiasmada com o projecto. Foi uma tradução estimulante a todos os níveis, pelo desafio dos trocadilhos linguísticos, as referências literárias, o estilo que varia de capítulo para capítulo e, acima de tudo, pela estreita colaboração que existiu entre Hervé Le Tellier e os seus tradutores europeus. Trabalhámos em conjunto, houve um diálogo constante entre o autor e os seus “intérpretes”.

Tendo o livro ganho o Prémio Goncourt, isso pesa na responsabilidade quando se faz uma tradução da obra?
Sinto sempre o peso da responsabilidade quando traduzo, quer se trate de um livro premiado, quer não. O facto de A Anomalia ter recebido o Goncourt deixa-me muito contente, mas não influenciou a minha abordagem ao texto. Sou perfeccionista por natureza, traduzo sempre com uma espécie de “espírito de missão”. E uma certa angústia de falhar.

Na óptica da tradutora, o que mais destaca neste livro?
A escrita de Hervé Le Tellier, que é muito literária e cuidada, e está repleta de jogos linguísticos e de referências do mundo da literatura, umas delas óbvias, outras mais subtis. Sente-se no texto o prazer que o autor tem em brincar com as palavras e em subverter as expectativas dos leitores. Há um pendor lúdico muito forte em A Anomalia, o que é típico dos oulipianos e torna o trabalho de tradução mais exigente.

E na óptica do leitor, o que acha que mais se pode destacar ou marcar quem o lê?
O que mais me marcou, como leitora – e creio que muitas pessoas sentirão o mesmo ao lerem A Anomalia –, foi a premissa do livro: viveremos nós numa simulação? O ponto de partida do livro é inteligente e está muito bem desenvolvido, através de onze personagens que acabam por representar a diversidade humana e encarnar as dúvidas existenciais e os dramas que advêm do confronto de cada uma delas com o seu duplo. Facilmente conseguimos identificar-nos a nível emocional com pelo menos um dos intervenientes do livro. Outra coisa que me marcou foi o humor, que pontua o livro do princípio ao fim. Hervé Le Tellier consegue abordar temas pesados e sérios e, ao mesmo tempo, criar momentos muito divertidos, que me fizeram rir. A personagem de Victor Miesel arrancou-me umas gargalhadas, especialmente quando fala de tradução.

Muitas das vezes não temos a verdadeira noção do trabalho de uma tradutora. Num livro com alguns termos específicos, há uma pressão extra no sentido de não alterar qualquer sentido de determinada parte da escrita?
Há sempre pressão no sentido de não adulterar o texto. No caso deste livro, havia a pressão acrescida de ter me de adaptar às diferentes vozes de cada personagem: os capítulos de Blake têm uma escrita acelerada, um ritmo muito dinâmico, quase de metralhadora, adequado a um assassino a soldo; os capítulos da pequena Sophia têm uma doçura e uma ingenuidade próprias de uma menina de sete anos; o estilo de Victor Miesel é empolado e, ao mesmo tempo, muito auto-irónico. E para traduzir toda a linguagem que se prendia com aviões e pilotagem, pedi ajuda a um colega escritor e comandante da TAP, o José Correia Guedes, que me esclareceu uma série de dúvidas.

Quando aceita a tradução de um livro, por norma comunica com o autor?
Sim, sempre que posso – e que se justifique, claro –, entro em contacto com os autores que traduzo. É um privilégio poder tirar dúvidas directamente com o autor do texto e estabelecer um diálogo. Aprende-se muito.

Neste caso, como foi todo o processo?
O processo de tradução foi incrivelmente enriquecedor, porque o autor criou um GoogleDoc que partilhou com os tradutores e pudemos tirar dúvidas em tempo real directamente com ele e entre nós. No início, éramos cerca de dez tradutores no grupo e criámos um espaço dinâmico de troca de dúvidas e sugestões. E, depois, viajámos até Arles e estivemos durante uma semana no Collège International des Traducteurs Littéraires a trabalhar no texto com o próprio Hervé Le Tellier. A minha tradução já tinha sido publicada nessa altura, mas foi uma experiência única discutir diferentes problemas linguísticos e perceber as dificuldades que eram comuns a várias línguas e outras que só surgiam numa ou duas.

Ao lermos este livro podemos fazer ponte com a realidade? Ou pelo menos, parte dela?
Podemos, sim, até porque o livro nos remete – com muito sentido de humor – para a realidade, trazendo para as suas páginas figuras públicas como Emmanuel Macron ou Donald Trump, embora Trump nunca seja nomeado, mas percebemos perfeitamente que é dele que se trata. E é fácil revermo-nos nas personagens, que são muito credíveis e humanas, portanto saímos do livro com muitas das dúvidas existenciais delas: que mundo é este em que vivemos? Existe Deus? Eu identifiquei-me em especial com a torrente de dilemas de Meredith.

A crítica foi muito elogiosa para com este livro em termos internacionais. O que espera da crítica em Portugal?
Creio que a crítica em Portugal é sensível à qualidade literária de A Anomalia e às raízes oulipianas do autor e, ao mesmo tempo, tem noção de que esta é uma história com potencial para cativar um público muito abrangente e variado. Num país onde se lê pouco (e mal), um livro como A Anomalia representa uma oportunidade de cativar novos leitores e de o fazer com Literatura e não com produtos meramente comerciais.

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