Diego Ventura fez o Montijo arder: São Pedro teve praça cheia, queda, génio e uma noite à Linkin Park, nesta sexta-feira.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora
O Montijo não foi uma noite bonita. Foi melhor do que isso. Na semana em que culturalmente se falou bastante da vinda dos Linkin Park a Portugal, no passado domingo, esta corrida de touros fez jus ao ritmo da banda.
Foi uma noite viva. Suja de emoção, no bom sentido. Cheia de altos e baixos. Daquelas que não entram em fila, não pedem licença e não se deixam explicar só com prémios, pesos e voltas.

A Praça Amadeu Augusto dos Santos encheu. Praça cheia, mesmo. E quando o Montijo enche numa Corrida de São Pedro, há qualquer coisa que muda no ar. A tradição deixa de ser palavra de cartaz. Passa a ser corpo. Passa a ser barulho. Passa a ser aquela vibração que não se fotografa bem, mas fica.
Na arena estiveram Rui Fernandes, João Ribeiro Telles e Diego Ventura. Pegaram a Tertúlia Tauromáquica do Montijo e o Aposento da Moita. Lidaram-se toiros de David Ribeiro Telles. A direção coube a Ricardo Dias, delegado técnico tauromáquico, assessorado pelo médico veterinário José Luís Cruz.

Depois vieram os prémios.
Melhor lide para Diego Ventura, frente ao quinto toiro. Melhor pega para António Lopes Cardoso, do Aposento da Moita, diante do sexto.
O júri teve Vasco Ribeiro, Nuno Santana e Abel Correia.
Mas, honestamente, In The End, a noite não cabe só aí.
Primeiro, a queda. Depois, o murro
Diego Ventura começou por apanhar um toiro que não lhe entregou a noite de bandeja.
O segundo da ordem, com 590 quilos, vinha feio de córnea e com forças escassas. Não era um toiro para abrir autoestradas. Era mais uma parede. E Ventura, que tantas vezes vive de rasgar impossíveis, teve de aceitar a conversa curta do oponente.

Só que há artistas que não sabem ficar em modo Faint.
Nos compridos, cumpriu. Nos primeiros curtos, começou a puxar a lide para outro sítio. Depois chegou Quitasueños. E a praça mudou de respiração.

O quiebro foi tão ajustado que pareceu erro e milagre ao mesmo tempo. Veio a colhida. O ginete foi ao chão.
Ali houve um segundo de vazio.
Um segundo Lost.

Aqueles instantes em que a praça parece suspensa por um fio. Mas Diego Ventura levantou-se. Não ficou Numb. Não aceitou que a noite lhe fugisse dali.
Voltou ao mesmo cavalo. Voltou à mesma ferida. Voltou ao sítio onde o medo costuma fazer morada.
E cravou um ferro extraordinário, de sonho mesmo.

Não foi apenas um ferro. Foi uma declaração. Um What I’ve Done em versão tauromáquica, sem pedir absolvição a ninguém.
Depois fechou com palmitos em sorte de violino. Como quem tropeça no abismo, olha para ele e ainda lhe deixa assinatura e caminha rumo ao apogeu.
O quinto toiro foi a explosão
Mais tarde, veio o quinto.
E aí acabou a conversa mansa.

O toiro tinha 500 quilos e mais gás. Não era perfeito, nem precisava. Tinha o suficiente para que Diego Ventura pegasse na noite e lhe chegasse fogo.
A brega a duas pistas, no início das curtas, foi daquelas que fazem a praça perceber que algo está a subir. Não devagar. Não arrumadinho. A subir como rastilho.
Depois entrou Lio.

E com Lio veio o ferro com o mesmo poder vocal com que Emily Armstrong agarra nas músicas que outrora foram eternizadas por Chester Bennington.
Entrada forte ao piton contrário. Reunião quente. Daquelas que fazem o público reagir antes de pensar. O Montijo explodiu porque aquilo não foi só técnica. Foi ataque. Foi risco. Foi One Step Closer do limite.
Ventura não estava ali para decorar a noite. Estava ali para a partir ao meio.

Com Bronce, sem cabeçada, deixou ainda um par de bandarilhas que pôs a lide num lugar já sem retorno. O Montijo estava dentro daquilo. Não a ver de fora. Dentro.
Era Burn It Down.
Mas sem cinza. Só fogo. A melhor lide da corrida ficou entregue a Diego Ventura. O júri assim o decidiu, o público aplaudiu.

Rui Fernandes abriu a noite sem pedir aplauso emprestado
Antes de Ventura incendiar tudo, Rui Fernandes já tinha deixado lume na arena.
Abriu a corrida de casaca preta, veludo e ouro. Há imagens que ajudam a compor uma noite. Esta ajudou. Mas Rui Fernandes não vive de moldura. Vive do que faz quando o toiro aparece. E vive também do permanente fogo que impõe às suas atuações, aliando isso a uma estética, que o torna num artista singular.

O primeiro pesava 580 quilos. Não trazia emoção a rodos. Faltava-lhe aquela faísca animal que põe uma praça em estado de alerta. Ainda assim, Rui percebeu cedo que teria de ser ele a acrescentar batimento à lide.
Nos compridos esteve bem. Em bandarilhas, melhor.

Com H-Quiebro, bregou a duas pistas, com várias combiadas em terrenos de dentro, manteve ligação ao oponente e começou a fabricar emoção onde ela não vinha oferecida. Depois surgiu Mistral. E os remates em piruetas ajustadas fizeram o público subir com ele.
Foi uma abertura com classe e nervo. Sem excesso postiço. Apenas toureio.
No quarto toiro, com 550 quilos, a noite ficou menos dócil. O toiro foi o menos agradável até aí. Não queria dar. Não queria ajudar. Não queria colaborar com a narrativa.
Rui Fernandes teve de porfiar. Teve de insistir.

Teve de lhe tirar lide quase à força, mas sem perder compostura. A música abrilhantou a atuação, e a ferragem ficou com valor. Não foi uma página fácil. Foi uma página arrancada.
Aqui houve Breaking the Habit. O hábito de só chamar grande ao que nasce fácil.

Rui Fernandes deu volta nas duas atuações. E mereceu-as por caminhos diferentes.
João Ribeiro Telles trouxe memória. E a memória também corta
João Ribeiro Telles não foi ao Montijo ocupar espaço no cartel. Foi deixar marca.
E está provavelmente num dos melhores momentos da sua carreira mais recente.

No terceiro toiro, de 595 quilos, encontrou o animal mais móvel e vivo até esse momento da corrida. E quando há mobilidade, Telles sabe entrar pela porta certa.
Esteve bem durante a lide. Porém, foi em bandarilhas que a atuação respirou mais alto. Houve reuniões corretas, conceito, gosto e cadência. Houve também essa forma antiga, mas nunca velha, de rematar as sortes com sentido.

E depois veio o gesto. Violino e palmo na mesma sequência.
Um momento do seu repertório. Uma identidade.
Foi aí que a praça sentiu Somewhere I Belong. Não como frase bonita. Como verdade de arena. João Ribeiro Telles estava no lugar dele. Dentro da noite. Dentro da história.

No sexto, com 530 quilos, fechou a parte equestre. O toiro alternou reserva e surpresa. Não foi linear. Não foi generoso. Telles leu, ajustou e aproveitou.
Fez uma prestação correta, em crescendo, com boas abordagens e reuniões. E voltou a colocar alta a temperatura emocional de quem ali esteve.

Deu volta nas duas lides.

Os forcados não foram intervalo. Foram coluna vertebral
Há quem fale dos forcados como se fossem capítulo à parte. Não são.
São o sítio onde a noite deixa de ter distância.
Diogo Oliveira, da Tertúlia Tauromáquica do Montijo, abriu as pegas e fechou ao primeiro intento. Foi entrada segura, de casa a responder dentro da própria casa.


Luís Canto Moniz, do Aposento da Moita, brindou a Diego Ventura e pegou o segundo toiro à primeira. Sem complicar. Sem teatralizar. Cara limpa.


Pedro Tavares, da Tertúlia Tauromáquica do Montijo, ficou com a terceira pega. Também à primeira tentativa. E ali a praça voltou a sentir pertença. Montijo dentro do Montijo.

André Silva, pelo Aposento da Moita, concretizou a quarta pega ao segundo intento. Wilson Gomes, da Tertúlia Tauromáquica do Montijo, resolveu a quinta também à segunda.


Depois veio António Lopes Cardoso.
O sexto toiro não lhe deu prémio fácil. Tentou duas vezes, vestindo a jaqueta do Aposento da Moita. Foi à cara. Voltou. Aguentou. Fechou. E ficou com o prémio de melhor pega.
Não foi Given Up. Foi precisamente o contrário.


A noite teve uma New Divide
Houve uma divisão clara na corrida. Antes e depois do quinto toiro de Diego Ventura.
Antes, a noite já tinha coisas boas. Rui Fernandes tinha dado estrutura. João Ribeiro Telles tinha deixado escola. Os forcados tinham sustentado a temperatura.
Depois, a praça entrou noutro estado.
Com Ventura, o Montijo deixou de estar apenas cheio. Ficou incandescente. A queda no primeiro toiro deu-lhe drama. O ferro com a mesma montada deu-lhe épica. O quinto deu-lhe consagração.
Era quase uma Hybrid Theory da tauromaquia: técnica e excesso, controlo e descontrolo, beleza e perigo, luz e pancada.
A corrida não foi perfeita. Ainda bem. Mas foi vibrante.

As noites perfeitas são muitas vezes estéreis. Bonitas, limpas, esquecíveis.
Esta não. Esta teve coisas a morder.
Teve toiros que não deram tudo. Teve artistas a irem buscar o que faltava. Teve uma praça cheia a responder. Teve São Pedro a parecer São Pedro, felizmente com uma noite espetacular na temperatura meteorológica. Teve um prémio que encontrou o seu dono. Teve outro que nasceu do corpo contra o corpo.

E teve Linkin Park, mesmo sem música na arena, porque houve ali qualquer coisa de rasgo, queda, ferida e ressurgimento.
No fundo, foi isso. Cair. Levantar. Tourear. Arder.
E deixar o Montijo a falar da noite muito depois da última volta.

