Adolfo Mesquita Nunes abandona o CDS-PP

Adolfo Mesquita Nunes abandona o CDS-PP

Adolfo Mesquita Nunes abandona o CDS-PP, tendo hoje anunciado que se desfiliava do partido.

Num texto publicado nas redes sociais, e que abaixo reproduzimos, Adolfo Mesquita Nunes revela não se identificar com aquilo em que o partido se transformou:

“O partido em que me filiei deixou de existir
Nunca pensei pedir a desfiliação do partido em que milito há 25 anos, a quem tanto devo e a quem entreguei boa parte da minha vida, do meu empenho e do meu entusiasmo.
E se o faço hoje, no que provavelmente é o mais difícil acto político da minha vida, é porque o partido em que me filiei, o CDS das liberdades, deixou de existir.
Não fundamento esta desfiliação nas profundas discordâncias com o rumo seguido pela direcção eleita nem na avaliação que esta publicamente faz da minha honra e da minha militância.
Todas as direcções são conjunturais e a militância não deixa de fazer sentido se estivermos em desacordo com o discurso, ética e estratégia da direcção do momento.
Fundamento esta desfiliação na convicção de que o CDS é hoje, estruturalmente, um partido distinto daquele em que me filiei, um partido que quer afastar-se do modelo de partido que servi como dirigente.
Quando, em 2011, me sentei na bancada parlamentar do CDS, senti orgulho e sentido de dever. Ali estava, ao meu lado, do mesmo lado, um espelho da direita das liberdades que o CDS se propôs representar no seu Programa.
Nas nossas diferenças, tínhamos e temos tanto em comum: o humanismo, o personalismo, o Homem como princípio e fim de toda a acção política, a liberdade individual e a igualdade perante a lei.
Espelhávamos a diversidade do eleitorado de direita, as contemporâneas formas de entender esses valores e de lutar por um
país de oportunidades, de liberdades, de justiça social.
Não nos passou pela cabeça eliminar as nossas diferenças, porque delas vinha a nossa força. Não nos passou pela cabeça relativizar o que tínhamos em comum, porque daí vinha a nossa convicção. Não nos passou pela cabeça desqualificar a nossa história, porque nenhum de nós se sentia intérprete único do partido.
Os tempos são outros, agora.
Essa diversidade é vista como fraqueza, perda de identidade, como se só houvesse uma única e legítima forma de ser do CDS.
A contemporaneidade é vista como uma ameaça, como se as novas gerações e as suas preocupações fossem a degenerescência de uma ordem moral ideal.
A liberdade é vista como algo de relativo, que deve sucumbir em nome de uma messiânica ideia do que é ser do CDS.
Nunca me imaginei em discussões sobre se alguém do CDS pode não gostar de touradas, se pode ser vegetariano, se pode divorciar-se, se pode amar quem quiser, se pode não ser crente. Mas essas discussões vieram para ficar e dão bem conta das novas prioridades do partido.
Discute-se, sem pejo, que há uns que são e outros que não são do verdadeiro CDS.
Abre-se a porta, sem pudor, a quem se atreve a divergir, a quem ousa dizer coisas que qualquer partido de direita europeu encara com naturalidade.
Diz-se, com convicção, que há muitos de nós que não devemos estar aqui, que temos de ir embora.
Acusa-se, com todas as letras, quem diverge de ter interesses clientelares ou políticos obscuros.
E sempre, em tudo isto, um dedo acusador, moralista, de quem acha que no CDS só pode estar quem confirme uma suposta pureza cristã.
Essa visão de partido não vem de agora, note-se. Sempre houve quem a quisesse implantar, sempre houve quem lidasse muito mal com a contemporaneidade e com a liberdade.
O que se passa é que é essa a tendência maioritária, e dela resulta uma estratégia clara, com respaldo em sucessivos Conselhos Nacionais, de afunilamento e reposicionamento do partido.
Em janeiro deste ano, em vão, fiz o que a minha consciência mandava e alertei para tudo isto propondo uma mudança de rumo.
O Conselho Nacional de ontem, em que o CDS desistiu, enquanto partido, de discutir e decidir em Congresso com que liderança e com que estratégia deve enfrentar as próximas eleições legislativas é apenas a confirmação de que o partido deixou de existir, com pensamento e estratégia autónoma, aceitando com entusiasmo o caminho para a nossa irrelevância, dependendo da bondade e caridade de terceiros.
Como é possível que o CDS aceite que uma direcção retire aos militantes o direito de escolher o seu líder e a sua estratégia; e que o faça num Conselho Nacional ilegalmente convocado e ignorando as decisões do órgão jurisdicional do partido; e ainda para mais para manter uma direcção cujo mandato termina em Janeiro?
Este não foi o partido em que me filiei.
O CDS transformou-se noutra coisa. É legítimo que o faça. Assim como é legítimo que eu escolha desfiliar-me agora que essa transformação se cristalizou. Até ao último dia acreditei que era possível inverter este rumo. Vejo hoje que este se tornou irreversível.
Deixo o CDS sem uma gota de arrependimento pelo percurso que nele fiz durante 25 anos. Foi uma honra ter servido e representado o CDS e é com orgulho que olho para o que, com erros e acertos, fomos capazes de fazer em nome da direita das liberdades. Nunca fiz esse caminho sozinho.
Quero deixar uma palavra de enorme amizade e agradecimento e apreço a todos aqueles que partilharam desse caminho, que me fizeram sentir, a todo o momento, o enorme orgulho de fazer parte de um partido fundador da Democracia. Em especial, ao CDS da Covilhã e a todos os que acreditaram e deram cara pelos projectos que vos propus, quero deixar um emotivo abraço: nos últimos meses, foi o vosso empenho e dedicação que me fez ficar.
O meu valor primeiro é o da liberdade. Nunca o comprometi ao ser do CDS. E é em nome da liberdade que me desfilio
“.

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