Afonso Dubraz lança novo single e prepara afirmação nacional: “é uma música que vai ter uma vida muito própria e muito alegre”, disse.
A saudade do verão transformada em canção
Há músicas que nascem de um instante. Outras nascem de um sentimento coletivo. No caso de Afonso Dubraz, o ponto de partida foi aquele vazio típico do fim do verão — silencioso, mas comum a todos.
Eis “Verão“, singles recentemente lançado e gravado em dueto com Luís Trigacheiro.
“Surgiu no final do verão do ano passado e é aquela altura em que nós nos apercebemos que as noites quentes do verão estão a começar a acabar, os amigos e a família estão tudo a voltar para as suas cidades (…) e damos por nós a pensar agora temos de esperar 365 dias para que isto volte tudo a acontecer.”
A partir daí, o cantor e autor fez o que melhor sabe: transformou essa nostalgia numa ideia concreta. E, mais do que isso, numa estratégia emocional.
“Esse contexto, assim, saudosista (…) levou-me por este caminho para querer escrever uma música que, de alguma forma, antecipasse um bocadinho o calendário, que o verão chegasse mais cedo.”
Aliás, essa antecipação não é apenas criativa. Está no centro da forma como o tema está a ser apresentado ao público.
Simplicidade como identidade artística
Depois, há um detalhe que não é menor: a escolha pela simplicidade. Num mercado que tantas vezes procura o excesso, Dubraz faz o caminho inverso.
“Queria que fosse uma música simples e portuguesa para chegar ao maior número de pessoas possível.”
E explica porquê, com uma leitura quase poética do quotidiano:
“Esse tipo de noites entre amigos também não se diz grande coisa (…) essa simplicidade é bonita.”
Mais do que isso, deixa uma ideia que acaba por definir o próprio tema:
“A grandiosidade está mesmo nessa simplicidade dessas noites.”
Um dueto que junta estratégia, amizade e admiração
Se a música fala de partilha, fazia sentido que não fosse cantada a solo. A decisão de avançar para um dueto surgiu naturalmente.
“Essas noites e esses momentos nunca são vividos sozinhos (…) fez logo muito sentido ser em dueto.”
A escolha de Luís Trigacheiro, por sua vez, foi tudo menos aleatória.
“Houve parte de estratégia, houve parte de amizade e houve parte de fã.”
Por um lado, há um plano maior em curso: “Eu vou lançar mais duetos e eu queria que este fosse um dueto masculino.”
Por outro, há a relação pessoal: “O Luís é um grande amigo meu (…) é sempre muito bom quando podemos partilhar este tipo de projetos e palcos com amigos.”
E, claro, a admiração artística: “Sou muito fã da voz dele (…) quando lhe mandei a música e ele disse ‘gosto imenso, bora para o estúdio’, para mim foi uma vitória não só de carreira mas também uma vitória pessoal.”

Entre escrever para outros e dar voz às próprias canções
Nem sempre o público associa Afonso Dubraz à escrita. No entanto, essa foi a sua base. E continua a ser uma parte essencial do seu processo.
“Uma música que eu escrevo para outra pessoa (…) não a escrevo enquanto Afonso Dubraz.”
Isso implica um exercício quase interpretativo.
“Tenho de ser um ator, tenho de entrar na pele deles.”
Já quando canta aquilo que escreve, o cenário muda completamente.
“Quando são músicas minhas (…) são músicas que me acompanham para a vida.”
A metáfora que usa resume bem essa diferença:
“É um namoro muito curto (…) quando escrevo para outros. (…) Aqui são músicas que são um casamento de verão.”
Do quase anonimato aos palcos pelo país
O percurso não foi imediato. E o próprio não esconde que houve momentos de dúvida.
“Os dois primeiros anos eu tive um, dois concertos e eu só pensava ‘isto tem de dar’.”
Ainda assim, hoje olha para trás com outra perspetiva.
“Esse tempo de espera é bom porque ajuda-te a gerir essa ansiedade.”
Agora, o cenário começa a mudar — e com consistência.
“Acho que este ano já vamos ter uma tour engraçada (…) por vários pontos do país.”
Mais importante do que isso, sente que chegou o momento certo.
“Não me sinto em nada nervoso (…) estou super entusiasmado.”

A equipa por trás do crescimento
Nenhum percurso se faz sozinho. E Dubraz faz questão de destacar quem o acompanha, sobretudo na área do booking.
“É muito importante teres alguém (…) que vai à luta por ti.”
No caso de André Ferreira, há uma confiança clara e uma amizade além do campo profissional.
“Ele vende porque acredita realmente naquilo que está a vender.”
E há também espaço para celebrar cada passo.
“Essa também é uma das belezas da coisa inicial de uma carreira. Tu celebras tudo.”
Ambição, ansiedade e a montanha seguinte
Ao mesmo tempo, há uma característica que define o artista: a exigência constante.
“Eu nunca estou satisfeito com aquilo que tenho.”
Mais do que isso: “Sofro muito mais com as derrotas do que celebro as vitórias.”
Ainda assim, essa inquietação é também combustível.
“Estou a subir uma montanha (…) mas já sei que quando lá chegar acima vou olhar para o lado e há uma maior.”
Um público para todas as idades
Se há objetivo claro, é este: criar música que una gerações. E essa intenção não é recente.
“Eu ainda não sei que tipo de música é que vou fazer, mas é isto que eu quero. Uma música agregadora e intergeracional.”
Hoje, esse cenário já é visível nos concertos.
“Tenho desde miúdos (…) o pai ao lado a chorar (…) os avós (…) tudo a cantar.”
Novos temas, novos caminhos
O plano para os próximos meses está traçado — e passa por diversidade.
“Vamos ter duas canções assumidamente pop (…) e depois outras duas de estilos que eu nunca fiz.”
Além disso, há uma aposta clara em novos públicos.
“Vamos tentar furar numa Cidade FM, numa Mega Hits.”
E os duetos vão continuar. A próxima canção será com uma artista feminina.
“A próxima música (…) vai ser um dueto com uma pessoa um bocadinho mais longe que Beja mas um sítio igualmente quente.”
Música portuguesa: mais acessível, mais diversa
No olhar sobre o panorama nacional, Dubraz destaca uma mudança estrutural.
“Hoje em dia já não é preciso ter os milhares de euros (…) para fazer músicas com qualidade de estúdio.”
Isso trouxe mais oportunidades — e mais diversidade.
“Apanhas peixe bom (…) e apanhas também peixe que se calhar não é tanto para o meu gosto.”
Ainda assim, a leitura é positiva.
“Estamos sem dúvida numa fase de renovação geracional (…) está ótima e recomenda-se.”
2026: o verdadeiro ponto de partida
No fim de contas, há uma ideia que resume o momento atual.
“2026 é o ano zero porque é o ano em que já estamos a colher algumas coisas mas é o ano em que estamos a plantar o fruto que vou vender a sério.”
Entre novos lançamentos, mais concertos e uma estratégia definida, Afonso Dubraz prepara-se para sair definitivamente do plano da promessa.
E, curiosamente, fá-lo com algo tão simples — e tão poderoso — como a vontade de prolongar o verão.

