
Às Vezes o Amor: 30 anos de Resistência, um amor sem idade, no Coliseu dos Recreios, ontem à noite.
No passado dia 14 de Fevereiro, por razão do festival “Montepio às vezes o amor”, no Coliseu da Capital do País, brilharam os inesgotáveis Resistência, trazendo a palco o alinhamento de celebração dos seus 30 anos, através de 23 canções, de entre os temas mais emblemáticos a novas introduções, pelas vozes de Miguel Ângelo, Fernando Cunha, Olavo Bilac e Tim .
A primeira parte coube ao projecto “O’Gajo”, que brindou o público que ia enchendo o Coliseu com um alinhamento, todo ele na base instrumental. Confesso, que foi uma agradável surpresa, qualidade musical Q.B e interações com o público a cada música, com toque humorístico, quebrando o gelo e dinamizando.
Mas… os Reis, Resistentes, Ilustres, Senhores da noite, foram os Resistência.
Que me perdoem, os leitores, mas salvo melhor opinião, poucos concertos fariam mais sentido no dia dos Amores que este. Falar dos Resistência é falar de Amor à Música em Português, ou como se apregoa agora, é “Música Portuguesa a gostar dela própria”, e de facto, se há coisa que este concerto me confirmou é que se gostarmos da música, ela não se esgota, passa de geração em geração e fica na eternidade, pela voz de cada um dos seus intérpretes e sem dúvidas… enquanto houver estrada para andar? É para continuar.
Abriram a sua actuação com um vídeo intrudutório, durante a entrada em palco, relembrando momentos marcantes deste percurso musical.
Abriram as “hostes” a nível musical com o tema “Fado” dos Heróis do Mar, interpretado por todos os elementos, uma interpretação digníssima, que embalou e abriu da melhor forma a atuação, embalados pel’ “as coisas do mundo, que não sei descrever”, avança Miguel Ângelo com a interpretação do tema “Sete Naves”, original dos GNR, do célebre Rui Reininho.
Após a força de “sete naves”, avança o “romântico” Olavo Bilac com a “Cantiga de Amor”, dos Rádio Macau, um clássico, sempre tão bom e com a afinação na rouquidão que tanto nos habituou. Embalados, no espírito de São Valentim, seguiu-se a interpretação do tema dos Quinta do Bill, por Fernando Cunha. Depois, depois, meus senhores, há vozes que são Portugal e uma dessas vozes é o Tim, que interpretou a letra, recentemente incluída no repertório, “Vai sem medos”, dos Madredeus.
Durante o concerto, foram comentando as fotos que surgiram no ecrã, nomeadamente do mítico concerto na Aula Magna, que serviu de introdução à música “Traz outro amigo também”, do saudoso Zeca Afonso, seguindo-se o tema “Liberdade”, de Pedro Ayres Magalhães, um dos fundadores dos Resistência, numa fase do alinhamento mais enquadrada no “cante de resistência” tão característico do período cultural antes do 25 de Abril de 74, seguindo para o tema “Aquele Inverno”, dos Delfins, por Olavo Bilac.
Embargados numa primeira parte, um tanto quanto mais “morna” eis que surge o tema “TIMOR”, de Pedro Ayres Magalhães, que remexeu o coliseu e deu o “mote” para a segunda parte do concerto, marcado por um registo mais electrizante e puxando “de todos os trunfos”, sacando da cartola, temas como “Circo de Feras”, dos Xutos e Pontapés, pela voz de Tim, “Um lugar ao Sol”, dos Delfins, pela voz de Miguel Ângelo e Olavo Bilac, talvez um dos temas mais aclamados e cantados com emoção pelo público, umas das letras mais bonitas da música Portuguesa. Passando, depois, pelo “Não voltarei a ser Fiel”, dos Santos e Pecadores, um tema contrastante com o dia da actuação, pelas vozes, de Tim, Miguel Ângelo e Olavo Bilac.
Avançando a notas largas e compassadas para o final desta actuação monstruosa e intemporal, brindaram o público com mais uma mão cheia de sucessos, estes cantados todos eles em uníssono pelo público presente no coliseu, nomeadamente “ À noite”, original dos Sitiados e o “ Não sou o Único” dos Xutos e Pontapés, mais propriamente, do inesquecível Zé Pedro.
Por fim, já após abandonarem o palco ao som de “Não sou o único”, após insistência do público, que se fez ouvir exigindo mais, voltaram ao palco lisboeta encerrando com “Amanhã é sempre longe demais” dos Rádio Macau e a mítica “Marcha dos desalinhados” dos Delfins, e por fim, empunhando a Bandeira Portuguesa debruada, despediram-se do Coliseu com o inigualável “Nasce Selvagem”, que arrebatou o público e deixou nitidamente a sensação de que a música quando é boa… “ é como o vinho do Porto”.
Instrumentalmente, só há uma palavra para descrever este concerto… um regalo, um equilíbrio entre cordas e percussão muitíssimo bem conseguido e sobretudo, um respeito brutal dos instrumentos pelas vozes , conseguido pelos Músicos Alexandre Frazão na Bateria, José Salgueiro na percussão, Fernando Júdice no baixo, Mário Delgado, incrível, na guitarra e Pedro Jóia na guitarra Clássica, complementados por Tim e Fernando Cunha, ambos na guitarra clássica.
Após estes dois anos de pandemia, este concerto marcou a minha retoma a estes espectáculos, a proximidade e a multidão ainda nos são estranhas nesta nova realidade, mas vale tanto a pena, pelas palmas, pela cultura, pelo Povo… a reação do público ao ver as Quinas as esvoaçar em palco… somos um povo de românticos, cheios de um amor sem idade, mas com notas e letras.
