Sábado, Julho 31, 2021

Autárquicas à Vista

Inicia-se um período que se repete de 4 em 4 anos, o período pré-autárquicas. Um período onde aparecem candidatos, e onde presidentes em exercício advogam ser má altura para anunciar candidaturas, de modo a não manchar a reta final de mandato com campanha autárquica, utilizando os recursos de que gozam enquanto executivo. E 2021 não será exceção.

Já se assiste com toda a pompa e circunstância à apresentação de sucessivos projetos, de grandes planos, grandes apresentações de milhares de milhões, e aos aparelhos partidários a ecoar todas essas propostas nos mais diversos fóruns afim de convencer. Dizem não se tratar de qualquer tipo de estratégia eleitoral, e que são  planos como os que apresentam que vão dar à terra deles a evolução que não tiveram em décadas.

Para os mais desconfiados, como é o meu caso, identifico nestas ações verdadeiras task force de publicidade aos executivos. Reconheço a intenção de passar a ideia de que apenas com a continuidade do executivo em funções esses planos podem avançar. Não o considero ilegítimo, pelo contrário, toda a ação do político está revestida de estratégia comunicacional, mais planeada ou não. Mas o que é importante na atuação de um político é que as suas mensagens estejam revestidas de realismo, de propostas concretas e exequíveis. E como dizia, para os mais desconfiados, estes planos mais que parecem projetos escolares, onde é mais avaliada a ambição dos alunos que a verdadeira possibilidade de colocar em prática aquilo a que se propõem.

Se assim não fosse, estes planos eram complementados com informação de execução temporal, eram apresentados com metas, prazos e indicadores credíveis, eram revelados aos munícipes de forma mais transparente e realista. Posso dar o exemplo do caso da megacidade, como saiu para as redações, que irá nascer em Almada, onde é prometido criar 17.000 postos de emprego. Dou este exemplo pois na zona onde está planeada a criação do denominado innovation district, existem problemas sociais que não foram prioridade nem para o executivo da CDU que liderou o concelho durante 41 anos, nem para o executivo do PS que liderou nos últimos 4.
No lugar onde se promete criar o innovation district “enquanto espaço de inovação, atrativo para empresas e pessoas, contribuindo para promover o desenvolvimento da Área Metropolitana de Lisboa e alavancando o seu potencial de internacionalização”, existem jovens sem acesso à internet e/ou computadores. Dificuldades essas que tornaram o acesso a aulas online um verdadeiro desafio para famílias e estudantes. No lugar onde se promete criar um lugar para `live-work-play´ existem hoje autênticos bairros de lata a uma margem de distância do museu MAAT.

Importa também questionar que condições serão proporcionadas ao tecido empresarial em Portugal para que sejam fixados 17.000 empregos. Convém saber se é mantendo a linha de país da zona euro que mais tributa empresas que teremos impulso empresarial para criação de riqueza. Importa saber se é com tributações recorde sobre os salários, onde o estado fica com a fatia de leão de aumento salariais, cabendo ao trabalhador uma palmadinha nas costas pelo contributo para um sistema de pensões desequilibrado e falido ou pela contribuição para os cofres do estado que são geridos com rigor merceeiro.Há que saber se é no país onde, segundo o Eurostat, os ganhos médios mensais se situam nos míseros 933€, onde criar um negócio próprio é um desafio burocrático e fiscal, onde a constituição de família não é minimamente incentivada. Temos de saber se é neste país que vai emergir uma megacidade de ambições totalmente desenquadradas com o panorama fiscal e social de Portugal.

Importa questionar tudo isso, porque não é com planos avulsos que as empresas se fixam e produzem riqueza, não é com apresentações pomposas a escassos meses de eleições que a motivação dos empresários portugueses aumenta. São reformas estruturais que fazem falta a Portugal. Falta o estabelecimento de uma visão de crescimento, de verdadeiro crescimento sustentado e não à boleia de contextos internacionais.

A apresentação deste projeto, que a ser concretizado me parece uma peça-chave para atenuar as diferenças entre a margem norte e a margem sul e contribuir ativamente para uma verdadeira homogeneização das margens, não pode nem deve ser mais um momento de campanha do PS governo e executivo camarário. Os almadenses merecem mais que grandes planos quadrienais, como é o caso do já crónico projeto “cidade da água”, que certamente já terá merecido mais destaques jornalísticos que avanços consideráveis na sua execução.

Os portugueses precisam de mais que planos avulsos para as cidades e precisam de mais que folhetins de campanha que mais parecem livros de quadradinhos para crianças. Pedem mais que estrangeirismos para embelezar projetos, pedem mais que promessas de futuro. Os governantes têm que restabelecer a confiança com os portugueses.
Neste sentido, é estranho que um governo que não se esforçou em nada por manter a Autoeuropa, que representa 1,4% do PIB e 5000 empregos na margem sul do tejo, colocando em causa, na altura, a continuidade da mesma em Palmela, seja agora através do seu braço armado em Almada o amante do mundo empresarial.

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