Matias Jimenez venceu na Moita e dá sentido a uma novilhada onde o futuro se treinou diante do público

Matias Jimenez vence na Moita e dá sentido a uma novilhada onde o futuro se treinou diante do público, na tarde de ontem.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

𝗔 𝗠𝗼𝗶𝘁𝗮 𝗿𝗲𝗰𝗲𝗯𝗲𝘂 𝘂𝗺𝗮 𝗻𝗼𝘃𝗶𝗹𝗵𝗮𝗱𝗮 𝗰𝗼𝗺 𝗼 𝗳𝘂𝘁𝘂𝗿𝗼 𝗻𝗼 𝗰𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼

A Praça de Toiros Daniel do Nascimento, na Moita, recebeu ontem, sábado, 23 de Maio, uma novilhada popular integrada no Encontro Mundial de Escolas Taurinas 2026.

Foi, sobretudo, uma tarde pensada para aquilo que tantas vezes se esquece: dar praça aos mais novos, criar hábitos no público e permitir que os jovens se façam diante do touro – neste caso de novilhos – do silêncio, do erro e do aplauso.

A tauromaquia não nasce pronta. Aprende-se. E aprende-se também nestas tardes, onde o peso do triunfo deve caminhar ao lado da paciência, da observação e da exigência. E do fracasso, que também o houve.

Na Moita, houve público presente. Talvez não aquele mar humano que se deseja para todos os espectáculos taurinos, mas houve gente a ocupar o seu lugar. E isso é importante. Porque as novilhadas não podem ser vistas como espectáculos menores. São, muitas vezes, o lugar onde se percebe quem tem caminho, quem precisa de tempo e quem traz dentro de si uma fome diferente. E também quem deve procurar outros caminhos fora da tauromaquia.

Ontem, destacou-se pela positiva Matias Jimenez.

𝗠𝗮𝘁𝗶𝗮𝘀 𝗝𝗶𝗺𝗲𝗻𝗲𝘇 𝗹𝗲𝘃𝗼𝘂 𝗼 𝘁𝗿𝗼𝗳é𝘂 𝗱𝗲 𝘂𝗺 𝗲𝗻𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗰𝗼𝗺 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗮𝘀 𝗱𝗲 𝘃á𝗿𝗶𝗼𝘀 𝗽𝗮í𝘀𝗲𝘀

Matias Jimenez, representante espanhol do CITAR – Centro Internacional de Tauromaquia y Alto Rendimiento, venceu o Encontro Mundial de Escolas Taurinas.

A vitória ganha expressão por aquilo que o encontro representa. Em praça estiveram jovens oriundos de diferentes escolas e países, num cruzamento que dá à novilhada uma dimensão formativa e internacional.

Do lado do toureio a pé, o cartaz juntou Ivan Cob, da Escola Taurina de Palencia; Fran Perera, da Escola Taurina da Diputación de Badajoz; João Maria Rodrigues, da Escola de Toureio e Tauromaquia da Moita; Mosti, da Escola Taurina de Arles; Antonio Arias, da Escola Taurina de Málaga; e Matias Jimenez, do CITAR.

Este tipo de encontros tem um valor que vai além do resultado. A competição existe, naturalmente. Há um vencedor. Há uma classificação. Há um momento de consagração. Mas há também algo mais fundo: a aprendizagem em ambiente real.

A escola ensina. A praça confirma.

E Matias Jimenez saiu da Moita com o nome gravado no encontro, num daqueles passos que podem parecer pequenos para quem olha de fora, mas que são enormes para quem está a tentar construir uma carreira.

Porém, destaque ainda para João Maria Rodrigues, da Escola de Toureio da Moita, que se apresentou nesta praça e deixou perfume de bom toureio e classe na sua postura em praça.

𝗔 𝗶𝗺𝗽𝗼𝗿𝘁â𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗱𝗲 𝗱𝗮𝗿 𝗽𝗿𝗮ç𝗮 𝗮𝗼𝘀 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗻𝗼𝘃𝗼𝘀

Há uma ideia que deve ser dita sem rodeios: sem novilhadas, não há futuro.

Pode haver memória. Pode haver cartazes de figuras. Pode haver homenagens. Pode haver conversa de tertúlia. Mas futuro, verdadeiro futuro, só existe quando se dão oportunidades aos miúdos que querem aprender a estar em praça.

Uma escola taurina não é apenas um lugar onde se ensina técnica. É também um lugar onde se ensina carácter. O jovem que entra numa arena aprende a lidar com a pressão, com o medo, com a responsabilidade e com a exposição. E com o fracasso. Perdoem insistir no fracasso, mas ele faz parte, por muito que tentem ignorar.

Aprende também que o touro não perdoa vaidades. Obriga a verdade. Obriga a presença. Obriga a humildade.

Por isso, estas novilhadas são fundamentais. Não devem ser tratadas como apêndice da temporada. Devem ser assumidas como uma das suas bases.

Na Moita, a novilhada teve esse mérito. Colocou jovens de diferentes geografias numa praça com história, diante de um público que não foi apenas assistir a um espectáculo. Foi assistir a um processo.

E esse processo precisa de continuidade.

Ainda assim, falando de processo, também o público tem de evoluir. O público português é comodista e vive em modo monarquia falida. Mas com a educação muitas vezes de um bairro social de quinta categoria, nas bancadas. Não deve acontecer.

𝗢 𝗽ú𝗯𝗹𝗶𝗰𝗼 𝘁𝗮𝗺𝗯é𝗺 𝘁𝗲𝗺 𝗱𝗲 𝘀𝗲𝗿 𝗰𝗵𝗮𝗺𝗮𝗱𝗼 𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗲 𝗰𝗮𝗺𝗶𝗻𝗵𝗼

Também é preciso dizer isto: o público tem de ganhar o hábito de ir às novilhadas.

Não basta aparecer nas grandes corridas. Não basta aplaudir as figuras quando já estão feitas. Não basta pedir renovação e depois deixar os jovens a crescer diante de bancadas despidas.

A afición constrói-se também assim. Na presença. No acompanhamento. Na crítica justa. No aplauso ao que nasce. Na paciência perante o que ainda está por fazer.

Se queremos novos toureiros, temos de os ver antes de serem nomes grandes. Se queremos futuro, temos de estar presentes quando esse futuro ainda tropeça, aprende e procura forma.

A Moita, pela sua história taurina, tem aqui uma responsabilidade especial. E teve, ontem, uma tarde que deve ser lida nesse sentido: mais do que uma competição, foi um gesto de formação em público.

Porque a praça também educa. Educa quem está dentro e quem está fora.

𝗧𝗼𝘂𝗿𝗲𝗶𝗼 𝗮 𝗰𝗮𝘃𝗮𝗹𝗼, 𝗳𝗼𝗿𝗰𝗮𝗱𝗼𝘀 𝗲 𝘂𝗺 𝗰𝗮𝗿𝘁𝗮𝘇 𝗱𝗲 𝗯𝗮𝘀𝗲

A novilhada popular apresentou também toureio a cavalo, com Nelson Lavajo, cavaleiro amador, e Jorge D’Almeida Jr., cavaleiro praticante.

Em praça esteve ainda o Grupo de Forcados Amadores da Moita, presença natural num cartaz que levava consigo o nome da terra e o peso da sua tradição. Concretizou as duas pegas ao primeiro intento.

Foram lidados dois novilhos para toureio a cavalo de Adriano Ferreira e seis para toureio a pé de Falé Filipe.

A renovação não se faz apenas dentro da arena. Também se faz nas bancadas. E talvez a renoação não deva ser tanto geracional, mas educacional. Um bocadinho de mundo e cultura geral aos aficionados não fazia mal nenhum.

𝗨𝗺𝗮 𝘁𝗮𝗿𝗱𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗻ã𝗼 𝗱𝗲𝘃𝗲 𝘀𝗲𝗿 𝗹𝗶𝗱𝗮 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗺𝗲𝗻𝗼𝗿

Há, por vezes, uma tentação injusta de olhar para as novilhadas como se fossem uma versão reduzida da corrida. Não são.

São outro território. Têm outra respiração. Outro peso. Outra delicadeza. Aqui, o que está em causa não é apenas o triunfo imediato. É a construção de um toureiro.

E construir um toureiro demora.

Demora anos, erros, treino, escuta, quedas, tardes de brilho e tardes de dúvida. Demora professores, escolas, oportunidades e público. Demora uma comunidade taurina que perceba que o futuro não aparece por geração espontânea.

Matias Jimenez venceu na Moita. Esse é o dado objectivo da tarde.

Mas a novilhada vale também pelo conjunto. Pela presença de várias escolas. Pela afirmação da Moita como praça ligada à formação. Pela importância de colocar estes jovens num ambiente competitivo. E pela necessidade de lembrar que a tauromaquia só se defende verdadeiramente quando se prepara o amanhã.

𝗔 𝗠𝗼𝗶𝘁𝗮 𝗱𝗲𝘂 𝗽𝗿𝗮ç𝗮 𝗮𝗼 𝗮𝗺𝗮𝗻𝗵ã

No fim, fica uma ideia simples: a Moita deu praça ao amanhã.

E isso não é pouco.

Num tempo em que tantas discussões sobre a tauromaquia ficam presas ao ruído, há gestos que valem mais do que discursos. Abrir a arena a jovens de várias escolas é um desses gestos. Levar público a uma novilhada é outro. Criar um encontro mundial de escolas taurinas é mais um passo nessa direcção.

Matias Jimenez venceu. Mas a tarde, no seu sentido mais amplo, pertenceu também à própria ideia de continuidade.

Porque a tauromaquia precisa de figuras, sim. Precisa de grandes tardes, de grandes cartéis e de praças cheias. Mas precisa, antes disso, de miúdos com oportunidade para crescer.

Ontem, na Praça de Toiros Daniel do Nascimento, na Moita, houve uma novilhada popular. Houve escola. Houve público. Houve futuro.

E houve um nome a sair por cima: Matias Jimenez. E um outro merece ser visto mais vezes: João Maria Rodrigues.

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Rui Lavrador
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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