Biografia oficial de Diogo Jota revela dimensão mundial do jogador: “Era uma espécie de cola no balneário”

Biografia oficial de Diogo Jota revela dimensão mundial do jogador: “Era uma espécie de cola no balneário”, foi referido.

A biografia oficial de Diogo Jota nasceu no lugar mais difícil: o da perda.

José Manuel Delgado, jornalista e escritor, esteve no “Conta Lá”, em entrevista conduzida por Júlio Magalhães, para falar da obra dedicada ao internacional português e ao irmão, André Silva, que perderam a vida a 3 de julho de 2025.

O livro reúne testemunhos da família, de amigos, de antigos colegas, de treinadores e de elementos ligados ao Liverpool. Mas, segundo o autor, não é apenas uma biografia desportiva. É, sobretudo, o retrato humano de Diogo Jota e do impacto deixado por dois irmãos cuja morte abalou o país e o futebol internacional.

Um livro escrito para a memória dos filhos

A obra começou a ganhar forma ainda nos dias do adeus.

José Manuel Delgado revelou que Pedro Proença lhe lançou o desafio na véspera do funeral. Depois, a ideia foi discutida com a família e pessoas próximas de Diogo Jota, incluindo os pais, Joaquim e Isabel, a mulher, Rute, Jorge Mendes e Armando Valque.

O autor explicou: “A cronologia foi a seguinte, na véspera do funeral, o Pedro Proença perguntou-me se eu queria escrever a biografia do Diogo Jota. Logo. Eu disse-lhe que sim, e tivemos algumas reuniões na federação, e depois tivemos no dia 2 de setembro, no dia em que foi a homenagem ao Diogo Jota e ao Jorge Costa, em que foram colocadas as camisolas em bronze na cidade do futebol, tivemos uma reunião mais alargada em que esteve presente o Pedro Proença, estiveram presentes os pais, o Joaquim e a Isabel, a mulher, a Rute, o Jorge Mendes, o Armando Valque que era o amigo dele que tratava dos e-sports, e aí falamos pela primeira vez sobre, eu apresentei-lhes a minha ideia para o livro, que passava por um início em que se contava a parte mais dolorosa, mais difícil, se calhar mais crua, e depois o segundo capítulo iria começar com o dia em que os pais se conheceram”.

Desde o início, houve um propósito claro: deixar um registo para os filhos de Diogo Jota.

José Manuel Delgado contou: “Eu, em conversas com a mulher, com a Rute, dissemos várias vezes, não, isto é uma coisa para os filhos verem, para o Dinis e para a Mafalda verem e saberem um bocadinho mais sobre o pai e sobre o tio“.

Liverpool ajudou a perceber o fenómeno Diogo Jota

A dimensão internacional de Diogo Jota tornou-se mais evidente para o autor durante a investigação feita em Liverpool.

José Manuel Delgado admitiu que só percebeu plenamente o alcance do jogador quando contactou com adeptos, jornalistas, jogadores e elementos do clube inglês.

O escritor afirmou: “Perguntas-me porque é que o Diogo tinha esta dimensão mundial. Eu só consegui perceber realmente o fenómeno do Diogo Jota quando fui a Liverpool. E através de inúmeros contactos, quer com adeptos, quer com jornalistas, quer com jogadores, quer com membros do staff da Liverpool, percebi a razão do amor que havia em Liverpool relativamente ao Diogo”.

A explicação desse amor passou também pelo modo como os adeptos do Liverpool se revêm nos jogadores.

José Manuel Delgado recordou uma conversa com o porta-voz do sindicato dos adeptos do clube: “Ele dizia o seguinte, o Liverpool passou por várias tragédias, passou pelo Heysel, passou por Hillsborough, e conseguiu sempre lutar contra as injustiças que se seguiram e aprendeu a sofrer. É formado por pessoas, aquelas que estão no The Kop, que é a bancada mítica do estádio de Anfield, que preferem não ir de férias para o estrangeiro, ou não ir jantar fora, ou não ir almoçar fora, para terem dinheiro para ir ao futebol, ver o Liverpool”.

Depois, explicou o que esses adeptos exigem a quem veste a camisola vermelha: “E a única coisa que exigem aos jogadores é dedicação máxima. E ele tem uma expressão muito feliz que é, se cada jogador, cada adepto do Liverpool tivesse talento para jogar futebol e pudesse jogar na equipa principal do Liverpool, teria de ser o Diogo Jota. Porque ele simbolizava aquilo que os adeptos gostavam de ver num jogador do Liverpool, um jogador que vestisse a camisola vermelha do Liverpool”.

O balneário, os aviões para o Porto e uma mobilização imediata

A resposta do Liverpool à tragédia impressionou o autor.

José Manuel Delgado destacou a forma como o clube organizou a deslocação ao funeral de Diogo Jota e André Silva, em Gondomar, envolvendo jogadores, ex-jogadores e elementos da estrutura.

O biógrafo afirmou: “É um clube absolutamente extraordinário. A perspetiva que eles têm histórica e a perspetiva da homenagem e a perspetiva do respeito são de facto fabulosos”.

Depois, detalhou a mobilização: “Eles organizaram-se para virem ao funeral do Diogo e do André, de uma forma rapidíssima, contactaram uns com os outros, criaram uma rede de contactos que começou no diretor de comunicação e passou por uma série deles com o Virgil van Dijk a servir de pivô e conseguiram vir praticamente todos os jogadores que estavam nos outros continentes, inclusive vieram jogadores que já não estavam a jogar no Liverpool e que imediatamente se mobilizaram para conseguirem apanhar a boleia nos dois aviões que o Liverpool trouxe ao Porto para o funeral em Gondomar. O caso do Milner que estava no Brighton e os casos do Henderson e do Kelleher que estavam no Brentford”.

No balneário, Diogo Jota era visto como alguém capaz de unir diferentes grupos.

José Manuel Delgado explicou: “Eram de facto um grupo bastante unido e depois o Diogo tinha outra vantagem que os colegas referem, o treinador, o Arne Slot também o disse, o Jurgen Klopp também o disse, o Diogo dava-se muito bem com os ingleses, falava inglês muito bem, dava-se muito bem com este grupo, repara tem o Kelleher que é irlandês, o Robertson que é escocês e depois dois ingleses, o Milner e o Henderson. Dava-se bem com eles, mas depois fazia a ponte com os que falavam português e com os que falavam espanhol, portanto com os da América do Sul e criava, acho que é o Arne Slot que diz, não, ele era uma espécie de cola que nós tínhamos no balneário e que nos unia, portanto ia para além da valência tremenda que tinha como jogador”.

A expressão “cola” ajuda a perceber por que razão o livro foge a uma simples contagem de golos.

“O Diogo nasceu em Gondomar mas para nós era como se estivesse nascido em Liverpool”

Dentro de campo, a marca de Diogo Jota também ficou ligada à capacidade de decidir jogos.

Segundo José Manuel Delgado, os adeptos comparavam o avançado português a Robbie Fowler, uma das figuras históricas do Liverpool.

O autor recordou: “E é curioso porque eles comparam-no, os adeptos, ao Robbie Fowler, porque o Diogo era um finalizador fantástico. E eles diziam, se as coisas estavam paradas, 5 minutos do fim, estávamos a ganhar 2-1 ou estávamos empatados e a bola ia para a área do adversário, todos queríamos que a bola caísse nos pés do Diogo porque ele era o melhor a finalizar e marcou inúmeros golos em situações desse género, assim como o Robbie Fowler. E eles também diziam, o Robbie Fowler nascido e criado em Liverpool, o Diogo nasceu em Gondomar mas para nós era como se estivesse nascido em Liverpool”.

A frase mostra a dimensão emocional da ligação. Não era apenas respeito por um jogador estrangeiro. Era pertença.

Testemunhos aceites por dever, não por vontade

José Manuel Delgado sublinhou que não recebeu recusas relevantes para a construção da biografia. Ainda assim, deixou claro que falar não foi fácil para ninguém.

O autor explicou: “Recusa não, há algumas pessoas, eu não consegui ouvir. Também caberiam aí, mas cabiam. Mas é curioso a questão que colocas porque realmente não tive nenhuma recusa. Mas não havia ninguém que quisesse falar. Ou seja, as pessoas falaram, a começar pela família, penso eu que por amor, por quererem que ficasse preto no branco, escrita a história do Diogo Jota e a história do André que tem um capítulo no livro. Mas não foi por gosto, foi quase que por obrigação. E depois nós tivemos muitos momentos em que nos rimos, em que contaram histórias, mas depois no fim nenhuma conversa foi fácil”.

A escrita teve, por isso, um peso emocional raro.

José Manuel Delgado assumiu: “Assim, em termos profissionais foi o trabalho mais difícil que fiz. E recordo que em Liverpool, tive um dia em que passei o dia na academia do Liverpool, no AXA, e o médico do Liverpool depois de falar comigo disse-me assim, olha, você tenha cuidado consigo porque isto que está a fazer é muito duro. Mas cada vez que eu tinha pena de mim pensava nos outros. E esse sim, não há comparação”.

Não é um livro apenas de futebol

A biografia inclui dados desportivos, mas José Manuel Delgado fez questão de afastar a ideia de que a obra seja apenas sobre futebol.

O autor explicou a estrutura: “E pronto, e depois a partir daí desenvolve-se, de uma forma quase cronológica, com a Rute a ter um grande protagonismo, a partir dos 15 anos do Diogo, ela começa a namorar o Diogo, ela com 16, ele com 15, ali com uma diferença de 5 meses entre um e outro, mas depois é seguida uma cronologia. Depois tem testemunhos de pessoas de várias origens, amigos, jogadores, treinadores, e é curioso, e se calhar este não é um livro de futebol. Este não é um livro de futebol, nem sobre futebol. E quem quiser o futebol, pois na parte final do livro tem as 300 e tal fichas de jogos, todos os jogos oficiais que o Diogo fez, mas durante o livro não se fala quase nada de futebol, não se fala de pessoas, e é muito curioso, era a maneira de ser do Diogo”.

A vida familiar, as amizades e a forma de estar surgem como matéria central.

Sobre o núcleo próximo de Diogo Jota, José Manuel Delgado referiu: “Os amigos dele, ele tinha um grupo, com ele eram 6, em Gondomar, que se conheceram com 8 anos nas escolas do Gondomar, e esse era o núcleo duro. E depois tinha mais um grupo, que conheceu, quando estava no Júnior e no primeiro ano de Sénior, no Paços de Ferreira, e se formos ver quem foram os padrinhos de casamento dele, foram esses, mais o irmão. Portanto, ele manteve as amizades, o sucesso não lhe subiu à cabeça, de maneira nenhuma, continuou a ser absolutamente genuíno, e eu creio que isso fica retratado no livro”.

O facto de não ter conhecido Diogo pessoalmente foi, para o autor, uma vantagem metodológica.

Disse-o assim: “Eu tive a vantagem de não conhecer o Diogo J. pessoalmente, portanto tive que perguntar tudo, de início, a toda a gente, para se conseguir, e eu penso que isso é conseguido, traçar-se um retrato fiel do Diogo J”.

A família reservou-se para o livro

A família de Diogo Jota manteve-se afastada de entrevistas públicas e aceitou participar nesta biografia como forma de deixar um registo.

José Manuel Delgado explicou: “Sim, sim, foi mesmo para ficar registado, e da parte da família mais próxima, foram atos de coragem, porque de facto não queriam, não tiveram gosto nenhum, obviamente, não quiseram protagonismo, melhor colocando a questão, não tinham vontade nenhuma em ter protagonismo, e o facto é que não deram entrevistas a nenhum meio, a nada, reservaram-se para o livro”.

O cuidado com a sensibilidade dos familiares foi uma preocupação constante.

O autor garantiu: “Procurei, e conversando com eles, especialmente com o Joaquim, com a Isabel e com a Rute, ver se havia algum ponto que ultrapassasse a sensibilidade deles, aliás, no primeiro dia, nesse encontro na cidade do futebol, a única coisa que eu lhes prometi é que não ia ser nada que os deixasse desconfortáveis. E isso manteve-se”.

Também André Silva recebeu espaço próprio na obra.

José Manuel Delgado assinalou: “O André tinha que ter um capítulo, não sendo a biografia do André, devia ter um capítulo que contasse a vida dele, o percurso desportivo, o percurso académico, a vida pessoal, como estavam as coisas, e isso creio que também é um ato de respeito com os pais”.

A parte visual do livro reforça essa dimensão íntima: “32 páginas só de fotos que foram oferecidas, disponibilizadas pelos amigos e pela família. Praticamente não há fotos da agência, são as fotos pessoais, as fotos dos amigos, dos companheiros de equipa, dos familiares, que fazem esse mosaico, são cerca de 100 fotografias, que compõem um mosaico também que ajuda a perceber quem foi o Diogo”.

O choque mundial e o cortejo até Gondomar

Na entrevista, Júlio Magalhães lembrou que a tragédia abalou não apenas Portugal, mas também o mundo.

José Manuel Delgado começou por situar a proximidade da perda: “Foi há menos tempo, foi no dia 3 de julho. 3 de julho, ainda não fez um ano, ainda está muito fresco.”

O autor falou ainda do impacto particular da morte de Diogo Jota, ocorrida poucos dias depois do casamento com Rute Cardoso.

A esse fenómeno chamou “efeito James Dean”.

José Manuel Delgado explicou: “Tudo isso potenciou o choque, e depois há uma coisa que é o efeito James Dean, que é morrer jovem no auge da vida e da carreira, em circunstâncias absolutamente trágicas. Esse efeito verificou-se, potenciado pelo facto de ter casado 10 dias antes, potenciado por todo o choque gerado, e há uma parte do livro que para mim é particularmente impressionante, que é quando regressam de Espanha para Gondomar, em Cortejo Fúnebre, quando passam em Espanha, em cima dos viadutos estão pessoas com lenços e com cachecóis, e depois em Portugal, já era noite, há pessoas com telemóveis com as lanternas dos telemóveis a acenar, à medida que o cortejo ia passando. Essa parte eu acho profundamente movente, porque deu-lhe a ideia da dimensão popular. Aquilo eram pessoas que não conheciam o Diogo, mas que sentiram aquela perda”.

A imagem das lanternas no caminho é uma das mais fortes do relato. Pessoas anónimas, sem intimidade com Diogo, mas com a sensação de terem perdido alguém próximo.

A família “tem que se reinventar”

No final da conversa, Júlio Magalhães quis perceber como a família sobrevive a uma perda desta dimensão.

José Manuel Delgado respondeu com uma frase que cruza dor, fé e continuidade.

O autor concluiu: “Sim, é assim, tem que se reinventar, tem que se reinventar, a Rute tem 3 crianças para educar, os pais do Diogo têm procurado homenagear sempre que possível a memória dos filhos, e o pai do Diogo tem uma frase muito significativa, disse-me muito recentemente, já depois do livro ter saído, que se Deus os levou e os deixou a eles ficar, por alguma razão foi, e provavelmente essa razão foi a de estarem cá para continuarem a homenagear os filhos”.

A biografia oficial de Diogo Jota surge, assim, como mais do que um livro sobre um jogador.

É um arquivo de afeto, um retrato de família, um testemunho de balneário e uma tentativa de guardar, em páginas, aquilo que a morte interrompeu cedo demais.

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