Carlos Moedas recorda infância, mãe e doença do pai: “A família também fica doente”

Carlos Moedas recorda infância, mãe e doença do pai: “A família também fica doente”, assinalou o político.

Carlos Moedas abriu o coração no programa “Olhos nos Olhos”, da RTP1, numa conversa conduzida por Tânia Ribas de Oliveira. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa recordou a infância em Beja, a ligação aos pais e a forma como a doença do pai marcou a vida familiar.

A entrevista passou pela memória da mãe, pela dependência do álcool que afetou o progenitor e pelo percurso académico que o levou de Beja a Lisboa. Mais tarde, a experiência internacional em França viria também a moldar a sua forma de olhar o mundo.

A mãe como porto de abrigo

Durante a conversa, Carlos Moedas recordou a mãe, costureira e modista, que faleceu há cerca de um ano. O autarca descreveu-a como uma presença essencial nos momentos mais difíceis.

O presidente da Câmara de Lisboa afirmou: “A minha mãe era realmente uma mulher linda […] que me transmitiu sempre a serenidade e a calma. Nos momentos mais difíceis, ela esteve sempre presente, foi o meu maior pilar. E portanto, a recordação que eu tenho mesmo é do calor da minha mãe“.

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Além disso, Carlos Moedas admitiu que continua a recorrer diariamente às memórias e aos ensinamentos da mãe para enfrentar os desafios da vida pessoal e profissional.

A doença do pai e o impacto na família

O pai de Carlos Moedas foi uma figura importante do jornalismo regional no Alentejo e fundador do “Diário do Alentejo”. Na entrevista, o autarca recordou também a sua riqueza intelectual e o combate à opressão da PIDE.

No entanto, Carlos Moedas quis falar sem rodeios sobre a dependência do álcool que afetou o pai. Para o autarca, é importante tratar o alcoolismo como uma doença e combater o estigma que o envolve.

O presidente da Câmara de Lisboa explicou: “É importante falar para que as outras pessoas percebam que é uma doença. Porque o alcoolismo é de tal ordem dramático para a família, e eu costumo dizer, é uma doença que não é só o doente, a família também fica doente. Porque é tão duro. E criava naquela altura quase uma vergonha, não é? Um não assumir a doença por parte da família, ou fingir“.

Desta forma, Carlos Moedas transformou uma memória íntima numa reflexão pública sobre silêncio, vergonha e sofrimento familiar.

“Nunca fica igual para o resto da vida”

As consequências dessa vivência ficaram, segundo o próprio, inscritas na sua forma de estar. Carlos Moedas assumiu que crescer num ambiente marcado pela dependência do pai deixou marcas profundas.

O autarca confessou: “Alguém que é filho de um alcoólico nunca fica igual para o resto da vida. […] Uma das coisas que um filho de alguém que foi alcoólico [sente] é que fica sempre com um sono muito leve. […] Porque nós estamos sempre alertas. O que é que vai acontecer? Será que ele vai cair? Que vai ter um problema? E esse alerta que cria na família fica para o resto da vida“.

Apesar da dor associada ao tema, Carlos Moedas defendeu que falar sobre a doença pode ajudar outras famílias.

O presidente da Câmara de Lisboa sublinhou: “Foi uma doença que o meu pai teve, como poderia ter sido um cancro ou outra doença muito grave, mas é importante que as pessoas tenham essa consciência“.

De Beja a Lisboa: “Era Nova Iorque”

A entrevista passou também pela juventude e pela saída de Beja rumo a Lisboa. Para Carlos Moedas, esse momento representou uma mudança enorme, feita com grande esforço financeiro dos pais.

O autarca recordou: “Venho para Lisboa com um grande esforço dos meus pais, porque não havia dinheiro. Como eu costumo dizer, a passar o barco do Barreiro para Lisboa, chegar a Lisboa […] era Nova Iorque. Lisboa era chegar a Nova Iorque. Era uma coisa absolutamente incrível. O cheiro. As ruas, subir ao Parque Maior, tudo aquilo para mim era mágico“.

Carlos Moedas viveu num quarto alugado em Campo de Ourique por seis contos. As dificuldades económicas também condicionavam a vida académica, obrigando-o a concluir as cadeiras na primeira época de exames para evitar gastos extra no verão.

O sonho da medicina terminou com um desmaio

Antes da Engenharia Civil, Carlos Moedas chegou a pensar em Medicina. Porém, um episódio perto de casa acabou por mudar o rumo da sua vida.

O autarca contou, com humor: “Eu não fui para Medicina porque não podia ver sangue, porque um mês antes de me meter, de pôr para Medicina, houve um pequeno acidente lá ao pé de casa, estava um senhor com sangue, eu desmaiei e disse: ‘Bom, não posso ir para Médico, senão posso ver sangue.’ E então vou, então o que é que vou? Não sei, Engenharia Civil. Sabia lá eu o que era Engenharia Civil?“.

Assim, uma reação inesperada perante o sangue afastou-o do sonho inicial e abriu caminho a outra área. A Engenharia Civil tornou-se a escolha possível naquele momento.

Paris abriu-lhe o mundo

Mais tarde, no último ano da licenciatura, um projeto europeu levou Carlos Moedas à sua primeira viagem de avião, rumo a Toulouse. Depois, a vida profissional levou-o a Paris.

Essa experiência internacional mudou a sua relação com a diferença e com o mundo. O autarca descreveu a capital francesa como uma descoberta decisiva.

Carlos Moedas afirmou: “Paris era um mundo a abrir-se, era um filme […] sinto-me, de certa forma, esse sentimento de homem do mundo, não é? De gostar da diferença. Eu sempre amei a diferença. Pessoas de todos os países, de todas as religiões, a curiosidade que isso me trazia“.

No final, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa destacou a importância de viajar e de conviver com realidades diferentes.

O autarca concluiu: “Isso tornou-me uma pessoa muito mais tolerante. Eu acho que viajar torna-nos pessoas muito mais tolerantes e sobretudo amantes da diferença e não com medo da diferença. […] Para mim isso tornou-se parte da minha gasolina de vida. Era conhecer gente diferente“.

Entre a infância em Beja, a memória da mãe, a doença do pai e o percurso internacional, Carlos Moedas deixou uma entrevista marcada por fragilidade, gratidão e consciência do caminho feito.

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