Éder revisita o Euro 2016, a infância e a paternidade: «Todas as minhas vivências fazem-me agora ser melhor pai», afirmou.
Dez anos depois da noite que mudou a história do futebol português, Éder continua a arrepiar-se quando alguém lhe fala daquele golo.
A final do Euro 2016 permanece ligada ao seu nome, mas a entrevista ao «Alta Definição», conduzida por Daniel Oliveira, mostrou um percurso muito mais longo do que os minutos vividos no Stade de France.
O antigo internacional português falou da infância numa instituição, das oito operações, da contestação que enfrentou, da fama repentina e do regresso difícil a França.
Pelo meio, abriu também espaço para a família, a paternidade e algumas desilusões com pessoas que passaram pela sua vida.
Aos 38 anos, Éder fez um balanço marcado pela serenidade. O golo continua presente, mas já não é a única história que tem para contar.
O golo que continua a arrepiar Éder
A 10 de julho de 2016, Éder marcou o golo que deu a Portugal o primeiro título europeu da sua história.
Uma década depois, as memórias continuam vivas.
“Todas as lembranças, as emoções, ainda consigo vivê-las. Continuo a arrepiar-me cada vez que as pessoas falam daquele momento. Cada vez que as pessoas partilham histórias comigo, tudo isso ainda está muito presente“, confessou.
O antigo avançado considera o rótulo de homem do golo “uma bênção, sem dúvida“.
Quando fecha os olhos e regressa mentalmente àquele momento, a sensação continua a ser difícil de explicar.
“A memória que eu tenho, especialmente quando eu fecho os olhos, é como se a minha alma tivesse ido do corpo, como se eu tivesse a ver um filme com um final feliz“.
Esse final feliz, porém, chegou depois de muitos anos de dificuldades.
Uma infância onde «tinhas de ser forte»
Éder tinha cinco anos quando foi para um colégio interno em Braga, numa decisão relacionada com as dificuldades económicas da família.
A experiência marcou a sua personalidade e ajuda a explicar a forma como encara hoje a palavra resiliência.
Quando Daniel Oliveira perguntou se a frase «os outros podem desistir de mim, mas eu não» ainda o definia, a resposta foi imediata.
“Sim, sem dúvida. Sobretudo pelo meu passado. Porque quando se fala em resiliência, agora falamos em patinho feio, se calhar eu era o patinho feio desde a minha infância, porque passei por várias situações“.
O ambiente da instituição obrigou-o, segundo contou, a aprender cedo a esconder algumas fragilidades.
“Quando se fala em resiliência, agora falamos em patinho feio, se calhar era o patinho feio desde a minha infância […]. Na instituição tens de ser forte. Mesmo em momentos que é impensável tu chores à frente de toda a gente, não tens hipótese. Pelo menos para mim era assim, não podes chorar“.
Essa resistência acompanhou-o mais tarde no futebol.
Durante a carreira profissional, Éder foi operado oito vezes. As sucessivas lesões afetaram o rendimento e criaram dúvidas sobre aquilo que o corpo ainda lhe permitiria fazer.
“Fui operado 8 vezes durante a minha carreira. Não foi fácil e fazer parte deste acontecimento para mim de facto deu muita paz e tranquilidade também“.
A luva branca tinha um significado escondido
Durante muito tempo, a luva branca fez parte das celebrações de Éder.
No «Alta Definição», o antigo avançado revelou o significado que lhe atribuía. Mais do que um acessório, representava uma resposta a tudo aquilo que tinha atravessado.
“Tudo isso fez com que eu pudesse usar a luva branca. Foi com esse significado que festejei com a luva branca, que era dar uma chapada em todas as adversidades que passei e que me fazem ser o homem de hoje“.
Antes do Europeu, o jogador era alvo frequente de críticas e dúvidas.
Ainda assim, garante que nunca guardou ressentimento dos adeptos. Na altura, o próprio Éder sentia frustração perante aquilo que não estava a conseguir produzir dentro do campo.
“A crítica é normal e eu entendi a crítica. Até porque eu sentia-me inconformado com aquilo que estava a fazer comigo mesmo. Lesionei-me várias vezes, fui operado várias vezes. E sentir que o meu corpo não respondia da forma como eu queria […] faz com que crie dúvida“.
O que aconteceu depois acabou por alterar completamente a sua relação com o público.
Para Éder, porém, o mais importante não foi apenas a mudança na forma como passou a ser visto.
“O facto de poder ter contribuído para um momento que encheu o coração de muita gente, acho que é isso que fica“.
A viagem de regresso que pareceu não ter fim
Depois da vitória diante de França, a seleção portuguesa regressou a Lisboa para uma receção que Éder acredita dificilmente voltar a viver.
Ainda dentro do avião, os jogadores já recebiam informações sobre as multidões que estavam a juntar-se nas ruas.
“A viagem de avião de França até Lisboa parecia uma eternidade. Estávamos mesmo ansiosos por chegar a Portugal porque já havia ruídos de que as pessoas se estavam a juntar e que íamos ser recebidos de forma apoteótica“.
A receção começou ainda no ar.
“Quando ainda estamos no avião lá em cima, somos recebidos pelos caças. Para nós aquilo já tinha sido incrível. E depois quando aterrámos, o aeroporto, fantástico. Cachecóis, camisolas, e depois estar no autocarro, as pessoas pela estrada a celebrarem. Acho que dificilmente vou viver algo assim“.
Durante a festa, Éder tornou-se também protagonista de um momento que ainda hoje é recordado.
No palco, tentou evitar o microfone. Cristiano Ronaldo acabou por não permitir que se escondesse.
“Estávamos no palco, o Ronaldo e o Fernando Santos falaram, eu tentava-me esconder lá atrás, não queria falar, não sabia o que havia de dizer. E o Ronaldo do nada chama-me e dá-me um microfone“.
A intervenção acabou por sair de forma espontânea.
“Eu dei umas palavrinhas e depois senti que podia soltar aquilo, podia dizer daquela forma. Saiu e acho que saiu bem. Hoje em dia as pessoas até acham piada, continuam-me a dizer ‘Ainda não é feriado’, mas acho que foi um momento engraçado“.
De herói em Portugal a alvo de assobios em França
A receção em Portugal contrastou com aquilo que Éder encontrou no regresso a França.
O avançado tinha chegado ao Lille cerca de seis meses antes, por empréstimo, numa tentativa de recuperar tempo de jogo e chegar ao Europeu.
Depois do título, voltou ao país cuja seleção tinha derrotado na final.
“No início foi uma receção muito boa, mas depois, claro, por estar em França, nas ruas as pessoas não eram assim tão simpáticas. Perguntavam: ‘Porquê que marcaste à França?’. É algo difícil de explicar. Tu defendes o teu país“.
A reação passou das ruas para os estádios.
“Nos estádios, em todos os estádios onde eu jogava, no meu até também chegou a acontecer, estádios cheios a assobiarem, a insultarem. Portanto, não foi uma receção tão calorosa“.
Ao mesmo tempo, Éder tentava adaptar-se à fama repentina.
O jogador que tinha saído para o Europeu como alvo de contestação regressou como uma das figuras mais reconhecidas de Portugal.
“Foi uma confusão, porque é como se fosse do dia para a noite. Não estava de facto preparado para aquilo, porque lidar com a fama daquela forma não foi fácil“.
A vida quotidiana tornou-se mais difícil.
“Não conseguia ir a um restaurante descansado na altura. E é incrível, as pessoas reconheciam-me, estivesse eu de que forma estivesse, com capuz… não sei se reconheciam o meu andar. Era complicado“.
A paternidade trouxe uma nova missão
Dois anos depois do título europeu, Éder tornou-se pai pela primeira vez.
A paternidade surgiu como uma transformação profunda num homem cuja infância tinha sido marcada pela distância da família.
“Acho que todas as minhas vivências me fazem agora ser melhor pai, sentir que tenho algo para passar aos meus filhos. Não tenho nenhum manual, mas tenho uma série de apontamentos aqui dentro que me fazem querer ser melhor a cada dia“.
O antigo jogador assume que a sua própria história está muito presente na forma como educa os filhos.
Por isso, procura explicar-lhes a diferença entre aquilo que eles têm e a realidade em que ele próprio cresceu.
“Vou contando também algumas coisas sobre o que eu tive, o que não tive, o que eles podem ter, o que eles têm agora, que na altura não era possível para mim. […] Os meus pais não tiveram oportunidade, penso eu. Independentemente do que aconteceu, não tiveram tanta oportunidade de o fazer. Mas eu tenho a noção que tenho que ser presente, tenho que estar lá“.
Na relação com os filhos, Éder procura conciliar regras e liberdade. Em casa, há espaço para puzzles, xadrez e até futebol no tapete da sala.
Ao olhar para o filho mais novo, reconhece características que gostaria de ter desenvolvido mais cedo.
“O mais novo tem algo que eu achava que podia ter se crescesse de outra forma. Ou seja, tem uma semente que está a florescer de algo que eu se calhar queria ter quando era mais novo e ele tem. Portanto, ficou ali aquela semente que em mim não cresceu tanto à pressa, mas nele cresce“.
As fugas do centro de estágio para ajudar em casa
Durante a passagem pela Rússia, a pandemia complicou ainda mais a rotina familiar.
Com o bebé a sofrer de cólicas e a mulher privada de sono, Éder encontrou uma forma pouco convencional de estar presente.
“Eu tinha muitas vezes que sair do centro de estágio a escondidas à noite para vir a casa e ficar com os meus, para ela poder dormir. Tinha um portão que abria, então saía à noite no meu quarto e depois chegava de manhã bem cedo“.
O antigo avançado reconhece que a escolha teve consequências no rendimento desportivo.
Ainda assim, não se arrepende.
“Fiz noites, especialmente a seguir aos jogos ficava eu com os meninos. […] O rendimento não foi o melhor, confesso, mas aquela ajuda foi mesmo muito importante“.
A presença é, para Éder, uma escolha consciente.
A infância mostrou-lhe aquilo que lhe faltou. A paternidade tornou-se uma oportunidade para fazer diferente.
A relação com o pai e a ausência de mágoa
A história familiar de Éder foi várias vezes exposta publicamente.
No entanto, o antigo futebolista garante não carregar ressentimentos. Hoje, o pai convive com os netos e essa relação é vista com tranquilidade.
“Não há mágoas. Não, nenhuma. Nenhuma. Até porque, olhando bem, e não é por mim, há orgulho. Cada um faz o que pode, com o que pode, da forma que sabe, com os meios que tem“.
A resposta encaixa numa forma de olhar para o passado sem negar o que aconteceu, mas também sem permanecer preso a essas feridas.
Essa mesma serenidade não impede Éder de reconhecer outras desilusões.
«Receberam muito mais do que mereciam»
O sucesso e a exposição trouxeram também relações difíceis.
Ao longo da carreira, Éder sentiu que algumas pessoas receberam dele mais do que aquilo que mereciam.
“Durante o meu percurso eu aprendi que tu deves partilhar, que tu deves ajudar. […] Eu sinto que dei, sempre tentei ajudar. Mas agora fico com a sensação que receberam mais, muito mais, imensamente mais do que mereciam“.
Apesar disso, não espera necessariamente pedidos de desculpas.
Questionado sobre essa possibilidade, apontou primeiro para si próprio e para a abertura que concedeu aos outros.
“Talvez eu a mim mesmo, por tê-lo feito. […] Quando fazem mal a alguém, tu acabas por ser o responsável, porque tu é que dás abertura”.
Hoje, a resposta às desilusões passa pelo afastamento.
“Numa primeira fase desligo, porque sei que tenho que seguir em frente“.
É talvez essa a linha que atravessa toda a história de Éder.
Seguir em frente quando a infância obriga a crescer depressa. Seguir em frente depois das lesões. Seguir quando as críticas aumentam e o corpo não responde.
Depois, marcar um golo numa final europeia e descobrir que a vida pode mudar num instante.
Dez anos mais tarde, Éder continua a ser o homem do golo de Paris. Mas, na conversa com Daniel Oliveira, mostrou que a história começou muito antes e continuou muito depois daquela bola entrar na baliza de Hugo Lloris.
