Especialista analisa desenhos de Inês Marques no contexto do processo que envolve Manuel Marques, ao site Dioguinho.
O caso que envolve Manuel Marques continua sob investigação do Ministério Público, após a acusação de violência doméstica apresentada pela filha, Inês Marques, em maio de 2025. Paralelamente ao processo judicial, a expressão artística da jovem tem gerado atenção e leitura especializada.
Arte analisada fora do contexto judicial
Nos últimos dias, os desenhos partilhados por Inês Marques nas redes sociais começaram a ser observados sob uma perspetiva psicológica. O tema ganhou maior visibilidade depois de António Machado, colaborador de Manuel Marques na rubrica “Portugalex”, da Antena 1, ter elogiado publicamente a obra da jovem.
“Elevada intensidade emocional” nos desenhos
Em declarações ao site Dioguinho, Maria João Cunha, mestre em Psicologia da Educação, Desenvolvimento e Aconselhamento, analisou os trabalhos artísticos partilhados por Inês Marques.
“Os desenhos revelam uma jovem com elevada intensidade emocional e forte autofocalização, traduzida na repetição insistente de autorretratos, na fragmentação e sobreposição de rostos e na ausência de uma imagem identitária unificada.”
Segundo a especialista, estes elementos visuais apontam para um processo interno complexo.
“Este padrão expressivo é compatível com um processo identitário em curso, marcado por auto-observação constante, questionamento do próprio ‘eu’ e dificuldade em integrar, de forma estável, diferentes dimensões da identidade.”
Olhar atento e contextos percecionados como inseguros
Além disso, a análise destacou a forma como certos detalhes se repetem nos desenhos, nomeadamente o foco nos olhos.
“A ênfase reiterada nos olhos sugere hipervigilância emocional e sensibilidade acentuada ao olhar e à avaliação do outro, traço frequentemente associado a contextos relacionais percebidos como inseguros.”
Neste enquadramento, a acusação feita à figura paterna surge como um elemento relevante para a leitura psicológica.
“A denúncia de violência por parte da figura paterna constitui um elemento clinicamente relevante, enquadrando estes indicadores como respostas adaptativas a um ambiente vivido como ameaçador ou imprevisível.”
Traço impulsivo e tensão psíquica
A forma como os desenhos são executados também foi analisada. Maria João Cunha apontou sinais de tensão emocional significativa.
“O traço gráfico rápido, impulsivo e reiterado, com múltiplas correções e escassa organização espacial, aponta para tensão psíquica significativa, pensamento emocionalmente carregado e necessidade de descarga interna.”
Segundo explicou, o desenho pode funcionar como mecanismo de autorregulação.
“As distorções sugerem um conflito”
A especialista abordou ainda possíveis leituras simbólicas associadas à autoimagem.
“As distorções faciais e corporais sugerem um conflito com a autoimagem e dificuldade em integrar emoções, corpo e identidade, frequentemente observáveis em jovens expostas a experiências de violência intrafamiliar.”
Apesar disso, Maria João Cunha deixou um esclarecimento importante.
“Globalmente, trata-se de uma produção expressiva coerente com uma personalidade sensível e criativa, em processo de elaboração de vivências traumáticas, sem que, por si só, permita estabelecer qualquer diagnóstico psicopatológico.”
A análise termina com referência a sentimentos de culpa expressos pela própria jovem.
“Antes revela um esforço ativo de simbolização e reorganização do mundo interno. E ainda com sentimentos de culpa quando ela diz que espera que não a vejam como narcisista.”
O processo judicial segue o seu curso, enquanto a expressão artística de Inês Marques continua a suscitar leituras e interpretações no espaço público.
