Faenas à Hollywood: Lisboa torna-se Los Angeles com Roca Rey, ontem, 5 de agosto de 2025, no Campo Pequeno.
Texto: André Nunes e Rui Lavrador
Fotografia: Carlos Pedroso
Risco e ousadia: o prólogo de um filme épico taurino
Lisboa despediu-se ontem da temporada taurina no Campo Pequeno como quem fecha um filme em grande estilo: com luzes, emoção, suspense e um elenco de luxo. A noite de 5 de setembro transformou a capital portuguesa numa verdadeira Los Angeles taurina, onde o toureio foi argumento, a arena serviu de ecrã, e Roca Rey encarnou o papel de protagonista absoluto.
Depois de protagonizar “Tardes de Soledad” (2024), documentário realizado por Albert Serra onde o matador é filmado como herói trágico e ícone contemporâneo, a sua presença em Lisboa pareceu a continuação natural desse guião.
Podem passar a fanfarra da Twenthieth Century Fox! Que a noite prometia mesmo ser de cinema!
Entre touros e câmaras: o Campo Pequeno vestiu-se de Hollywood
O cartel era digno de estreia mundial. No prólogo, a ousadia e risco de Francisco Palha a cavalo, em contraste com a destreza hereditária de Guillermo de Mendoza, o rejoneador espanhol que trouxe o perfume da escola ibérica do seu pai.
Pelo meio, a valentia coletiva ganhou forma nos grupos de forcados: os Amadores de Alcochete e o Aposento da Moita, dois emblemas da tauromaquia nacional que, como duplos de ação, assumiram os riscos mais duros da noite, agarrando com alma e corpo o perigo que se chama toiro.
Mas tudo convergia para o clímax. Quando Roca Rey pisou o ruedo, Lisboa parou. Não era apenas o matador peruano: era a estrela global que transformou a arena num estúdio de Hollywood, onde cada passe parecia coreografado entre o drama e a beleza, entre a violência e a arte.
As suas faenas, carregadas de intensidade e domínio, fizeram do Campo Pequeno um palco maior do que a própria cidade — uma Los Angeles efémera, onde os refletores eram olhos cativos e o aplauso soava como banda sonora de triunfo.
[Best_Wordpress_Gallery id=”8345″ gal_title=”campopequeno-5setembro-2025″]Francisco Palha: O herói que desafia o toiro e encanta Lisboa
Finalmente apareceu Francisco Palha ao seu melhor nível nesta temporada. Lide de grande nível a abrir a ultima corrida da temporada no Campo Pequeno. Muito inteligente na forma rápida como entendeu o touro e escolheu os terrenos, melhor ainda no desenho das sortes e nas reuniões. Duas passagens em falso não apagam a emoção que impôs na lide e conseguiu ir buscar ao público. É uma lide de muito, muito valor de Francisco Palha.
Francisco Palha, como já nos tem habituado, insistiu no seu estilo de aposta na verdade do toureio a cavalo, sem excessos mas com muitos, muitos riscos. Gosta de se ligar ao toiro com frontalidade, privilegiando a emoção natural e a pureza das sortes.
Palha em grande close-up a cada passo: emoção e risco sem filtros
Demonstrou, nesta insistência, o magnetismo falível de um Viggo Mortensen, ofereceu ao público uma interpretação de verdade, quase um drama clássico montado a cavalo. Como Viggo a interpretar Aragorn em “O Senhor dos Anéis”: cavalga com naturalidade, transmite verdade e deixa a sua marca pela presença.
É no risco que Campo Pequeno viu detalhes de Harrison Ford, ao combinar coragem e técnica com presença marcante. Acima de tudo, manteve um lado aventureiro e surpreendente que encanta o público, dando à sua faena uma dimensão cinematográfica heroica.
Na segunda lide, voltou a mostrar quem verdadeiramente é Palha, com momentos de reunião eficazes e com cadência cinematográfica. E projetou nos céus de Lisboa o que realmente é tourear com risco, em grandes holofotes.
Guillermo Hermoso de Mendoza: thriller a cavalo
Guillermo Hermoso de Mendoza teve a infelicidade do seu primeiro touro se lesionar, após sair à arena. Assim lidou aquele que seria o segundo do seu lote, e na segunda lide toureou o seu sobrero.
Magistral esteve o rejoneador navarro, destacando-se por uma brega estética e cuidado. Ora com ladeios a duas pistas, ora com hermosinas. As suas montadas foram como muletas. Guillermo teve dois curtos, os primeiros, de grande valor, sabendo depois manter um belo nível exibicional. Fez relembrar uma bonita noite de touros no ano passado, na última noite de Pablo na catedral portuguesa.
Foi nas hermosinas e após o segundo curto que começou a rebentar nas bancadas, com ovações de admiração. E encerrou esta primeira lide com um palmito e apeando-se do cavalo, perante ovação do povo.
Entre hermosinas e palmitos: o guião das lides de Mendonza
Na segunda lide, com um curto de alta nota e risco, que até teve direito a dar uma leve festa no oponente após cravagem, num momento de irreverência e vontade de ter carreira de triunfo.
Terminou com um segundo par de ferros de palmo (por insistência após um dos ferros do primeiro palmo ter caído) e mais hermosinas num momento thriller e de ação, fintando o touro com maestria futebolística, que explodiu nas bancadas.
Elegante como um Ralph Fiennes, encarnou o papel do ator cerebral, que domina cada gesto como se fosse falado em voz off.
Chegamos então à figura mundial e estrela pop da tauromaquia. Destaca-se pela serenidade diante do perigo, a firmeza dos terrenos e a capacidade de transmitir emoção em cada muletazo.
[Best_Wordpress_Gallery id=”8346″ gal_title=”campopequeno-5setembro-2025-1″]Roca Rey: O protagonista absoluto da superprodução lisboeta
É um toureiro que conjuga arte e espetáculo, razão pela qual atrai multidões como poucos. Tal como o icónico pirata Jack Sparrow, de Johnny Depp, Roca Rey combina audácia, imprevisibilidade e charme magnético. E com a “espada” na mão, dominou os seus oponentes, com alta relevância para o primeiro.
Tal como Al Pacino nos seus grandes papéis, Roca Rey domina a arena com intensidade, magnetismo e pura força dramática no seu monólogo taurino frente ao publico a um membro específico, o toiro. Como Tom Cruise, não precisa de duplos: ele próprio assume o risco, e é isso que faz dele ícone.
Roca entrou no ruedo como quem pisa a passadeira vermelha de Los Angeles. Sereno diante da câmara invisível da praça, transformou cada muletazo num travelling lento, cada silêncio num close-up carregado de tensão, cada aplauso numa banda sonora épica.
A faena de Rey que incendiou Lisboa e ficará na memória
Andres Roca Rey enfrentou um touro de Herdeiros Garcia Jimenez, bem-apresentado, nobre e ao qual o matador peruano soube dar uma lide de domínio total e absoluto para gáudio do público que esgotou a lotação do Campo Pequeno. Em capote destacou-se por diversificar os lances.
Na muleta esteve na sua melhor versão, dominando por completo o touro, aproveitando a sua classe e construindo várias tandas por ambos os lados. Culminou uma faena de muito valor por naturales.
No segundo, o poder não foi tão claro como no primeiro touro, sendo este segundo de Garcigrande. Público de pé e rendido a Andres Roca Rey nas duas lides.
Pegas de emoção ao primeiro take: verdade sem margem para cortes
Se Lisboa era Hollywood por uma noite, os forcados foram os autênticos “stuntmen” do espetáculo. Sem duplos, sem truques de câmara, apenas corpo, coragem e alma, conquistaram o público ao consumarem todas as pegas à primeira.
Pelo Aposento da Moita, André Silva abriu a cortina como um ator seguro de si, a agarrar o perigo logo ao primeiro take. Luís Canto Moniz seguiu-lhe o exemplo com igual determinação: pega valente, certeira, quase como uma sequência coreografada sem margem para repetição.
Pelos Amadores de Alcochete, Vítor Marques protagonizou uma cena que bem podia ter saído de “Top Gun”: o touro investiu como um caça rasgando os ares, mas o forcado resistiu com uma persistência assinalável. Miguel Direito fechou o elenco de Alcochete com a mesma firmeza: entrada franca e pega sólida.
[Best_Wordpress_Gallery id=”8347″ gal_title=”campopequeno-5setembro-2025-1-2″]Homenagens: memória e glória no palco da arena
A noite teve ainda espaço para a memória e para a gratidão. Foi evocada a figura maior de Manuel dos Santos, referência maior da tauromaquia em Portugal e além-fronteiras, lembrado como um mito cultural, ao nível de Amália ou Eusébio.
O Aposento da Moita, que celebra cinquenta anos de história, foi homenageado na pessoa do seu cabo, símbolo de um coletivo que soube atravessar gerações com bravura e identidade.
E, por fim: a homenagem a Roca Rey, que regressou a Lisboa já com dez anos de alternativa. O público agradeceu-lhe o feito e, sobretudo, o facto de ter erguido o Campo Pequeno e arrebitado um verão tauromáquico que vinha morno “como tudo”! Roca Rey transformou a despedida da temporada numa noite de gala.
Cada touro, uma história de cinema
Os touros também tiveram papel de protagonistas, cada um com a sua personalidade de filme. Os de toureiro a cavalo (da ganadaria de António Raul Brito Paes) lembraram Shane, o herói solitário do clássico de 1953: nobres e frontais.
Já os dois touros para Roca Rey (de García Jiménez e Garcigrande) surgiram como verdadeiros Angel Eyes, à imagem de Lee Van Cleef em “The Good, the Bad and the Ugly”: astutos e calculistas, mas com uma investida que cria fãs! Obrigaram o toureiro a mostrar toda a sua inteligência e técnica para sair. E dominou por completo os oponentes, com leveza e suavidade.
Arena ou ecrã? Lisboa brilhou como capital do cinema taurino
A temporada encerrou em Lisboa, mas fê-lo em modo “superprodução”. Lisboa não foi apenas Lisboa: foi um set cinematográfico onde se cruzaram tradição e espetáculo, verdade e arte. E, se Hollywood tem as suas estrelas na calçada da fama, o Campo Pequeno volta a ter um nome gravado no coração da sua afición: Roca Rey, a estrela que fez da tauromaquia um filme memorável.
Lisboa não foi apenas Lisboa: foi Hollywood em noite de estreia, onde se cruzaram a verdade do toiro, a ficção do cinema e a magia irrepetível de uma estrela que brilha em qualquer ecrã.
Todos foram um Daniel Day-Lewis, pela entrega total ao papel, intensidade e profundidade. Todos se envolveram com público e deram o melhor de si, frente a touros de grande valor.
Lisboa transformou-se em Los Angeles com letras de Hollywood
No final, a temporada não terminou: encerrou como uma superprodução. Com créditos a passar no aplauso, Lisboa deixou de ser apenas Lisboa e tornou-se um estúdio de sonhos, onde o touro foi argumento, a arena foi ecrã, e Roca Rey assinou a cena final com o carisma imortal de uma verdadeira estrela de cinema.
A noite teve tanto de filme clássico como de produção moderna. Se no imaginário soavam trompetes de Ennio Morricone, também caberia ali a poesia agreste mas alegre de Zach Bryan. O tema “Open the Gate” poderia ter ecoado no Campo Pequeno como banda sonora perfeita: uma viagem entre o íntimo e o épico, entre a solidão e a intensidade, como as próprias faenas de Roca Rey. Uma música energética, mas melancólica, que acabamos de ouvir com alegria e nos lembra as saudades que teremos desta noite. E no próximo ano, abram as portas dos curros e deixem a arte acontecer novamente.

