Frei Betto regressa a Portugal após dez anos: “O cinema é um arquivo vivo da memória humana”, assinalou.
Fotografia: Luís Monteiro.
Três documentários, debates e encontros com leitores vão levar a Lisboa diferentes dimensões do percurso do escritor e teólogo brasileiro. Entre 19 e 22 de outubro, a Mostra Frei Betto de Cinema em Portugal passará por universidades, pelo Museu do Aljube e por espaços culturais da cidade, com a presença do homenageado ao longo da programação.
Promovida pela produtora brasileira Mirar Lejos, a iniciativa tem como tema “o cinema como resistência e preservação da memória”, segundo o comunicado de imprensa enviado à redação. Literatura, educação popular, democracia, direitos humanos e resistência aos regimes autoritários estarão entre os assuntos em discussão.
O encontro assinala também o regresso de Frei Betto a Portugal, onde, de acordo com a organização, não vinha há dez anos.
“Eu considero essa mostra de Cinema em Lisboa muito importante como um resgate da minha geração. O cinema é mais do que uma arte; é um arquivo vivo da memória humana. Ao iluminar o passado, a tela impede que o esquecimento se transforme em silêncio”, afirma o autor, citado no comunicado.
“Lembrar, muitas vezes, é a primeira forma de resistir”
Para Frei Betto, a capacidade do cinema de preservar testemunhos é inseparável da sua dimensão política e social.
“Por isso, filmar é um ato de resistência e o cinema dá voz aos que tiveram a sua história confiscada e desafia as versões oficiais dos acontecimentos. Diante de uma imagem, a memória deixa de ser apenas lembrança. Torna-se presença. E aquilo que permanece na tela pode atravessar gerações como testemunho e denúncia”, defende.
O escritor acrescenta: “Onde há cinema comprometido com a verdade, há também uma trincheira contra o esquecimento, e lembrar, muitas vezes, é a primeira forma de resistir.”
É essa relação entre memória e intervenção pública que atravessa uma programação dedicada tanto à sua obra literária como à experiência de prisão durante a ditadura militar brasileira e ao trabalho desenvolvido na educação popular.
Universidade Aberta recebe abertura e debate sobre literatura
A mostra começa na segunda-feira, 19 de outubro, às 16h00, na Universidade Aberta, na Rua da Escola Politécnica, 147.
A sessão de abertura contará com Frei Betto, membros da organização e representantes do Centro de Estudos Globais da universidade, com coordenação do professor José Eduardo Franco.
Entre as 16h30 e as 17h30 será exibido «Múltiplos – Os percursos literários de Frei Betto». Segundo o comunicado, o documentário percorre a sua trajetória como escritor e jornalista, abordando as diferentes vertentes da sua produção e o contributo para a literatura brasileira contemporânea.
Das 18h00 às 20h00, a mesa «A obra literária de Frei Betto» reunirá o autor, Mário Araújo, Fernando Paixão e António Nóvoa, da Universidade de Lisboa.
Museu do Aljube acolhe reflexão sobre resistência cristã às ditaduras
Na terça-feira, 20 de outubro, a agenda começa às 10h00 com uma visita a Pilar del Río na Fundação José Saramago, na Rua dos Bacalhoeiros, 10.
A programação prossegue às 16h00 no Museu do Aljube, na Rua Augusto Rosa, 42. A abertura terá a participação da direção do museu, de Frei Betto, de Maria Inácia Rezola, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, e da comissão organizadora.
Às 16h30 será apresentado «Fraternura», documentário que recupera memórias familiares, a adolescência em Belo Horizonte e as marcas do período em que Frei Betto esteve preso durante a ditadura militar.
Entre as 18h00 e as 20h00 decorrerá o debate «A resistência cristã aos regimes autoritários no Brasil e em Portugal». Ao escritor juntam-se João Miguel de Almeida, do Instituto de História Contemporânea, e Paula Borges, do IPRI, ambos da Universidade Nova de Lisboa.
Educação popular em destaque na Universidade Lusófona
A quarta-feira, 21 de outubro, começa às 10h00 com um encontro na Casa do Brasil de Lisboa, na Rua Luz Soriano, 42, aberto ao diálogo com a instituição, convidados e público.
Às 14h00, a Universidade Lusófona, no Campo Grande, 376, recebe a mostra com palavras de boas-vindas de António Costa Pinto, diretor da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração.
Das 14h30 às 15h30 será exibido «A Cabeça Pensa Onde os Pés Pisam – Frei Betto e a Educação Popular». O filme aborda a formação de jovens militantes e dirigentes sindicais a partir da metodologia de Paulo Freire, bem como o contributo de Frei Betto para a educação popular em Cuba.
Segue-se, entre as 16h00 e as 17h30, o debate «Educação Popular e democracia no Brasil e em Portugal – ontem e hoje», com Frei Betto, Libânia Xavier, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e António Teodoro e Paulo Mendes Pinto, da Universidade Lusófona.
A sessão de encerramento da componente cinematográfica está marcada para as 18h00, embora os encontros culturais prossigam até ao dia seguinte.
Livrarias recebem conversas e lançamento de livros
Ainda a 21 de outubro, às 19h30, Frei Betto estará na Livraria Saudade, na Rua Melvin Jones, 6A. O escritor e jornalista João Gabriel de Lima participará numa conversa sobre literatura e democracia, que abordará também o contexto brasileiro contemporâneo.
A programação termina na quinta-feira, 22 de outubro, às 19h00, na Livraria da Travessa, na Rua da Escola Politécnica, 46, com lançamento de livros e encontro com leitores.
Escritor, teólogo e ativista, Frei Betto é apresentado pela organização como uma figura de destaque da Teologia da Libertação, com um percurso ligado às comunidades populares, aos movimentos sociais e à resistência à ditadura brasileira. A Mirar Lejos, responsável pela iniciativa, desenvolve projetos nas áreas da cultura, da preservação da memória e dos direitos humanos.
