Havemos de voltar a Setúbal: Buba Espinho dá concerto inacreditável no Fórum Luísa Todi, no dia ontem, 30 de abril, pelas 21h.
Texto: André Nunes / Fotografias: Sandro Alemão
Alentejo conquista Setúbal com sala esgotada
Uma sala esgotadíssima… Foi assim o maior repto que podia existir para esta sala setubalense, com centenas de pessoas em total expectativa para ouvir o seu alentejano favorito cantar. E não cantou só. Fez as pessoas sentirem tudo, e ainda mais qualquer coisa de extraordinário, num concerto que pode ser descrito como arrebatador ou até arrasador, tal foi a qualidade dos artistas e do público.
Já o tema “Afã” se dava a conhecer por entre as notas saídas das colunas do Fórum Municipal Luísa Todi, já o público demonstrava que iria ser uma atmosfera eletrizante. Buba aparece, e os aplausos não tardaram nem um segundo desde a sua aparição. Por entre os versos, “Deixa essa gente com conversa e intrigas” dá o mote a um concerto único em terras sadinas, ao som de belas cantigas à antiga e moderna alentejana. O público estava preparado para receber toda a imensidão do Alentejo!
“A esperança que ainda há no teu olhar”
“Boa noite Setúbal, sejam bem-vindos. Obrigado por terem esgotado em semana um concerto tradicional de música portuguesa”, são as primeiras palavras de Buba. “A música portuguesa está de boa saúde. Obrigado a todos nesta sala”, continua.
“Diz-me onde é que foi que eu perdi/ A esperança que ainda há no teu olhar”, em “Jardim Paraíso”, lança imediatamente um rumor por entre o público que determinado tema conhecido de Buba iria estar presente no espetáculo, um tema sobre reencontro, saudade e achar o que se perdeu. No fundo, sobre “voltar”, “um dia”.
Uma esperança forte… essa de encontrar olhares de versões de nós próprios e versões das pessoas que idealizamos na nossa cabeça, para quebra do coração quando se revelam, mas continuamos com essa espera dolorosa de concretizarmos essas versões.
“Nem sempre foi fácil para a música portuguesa encher salas… a música portuguesa precisa tanto de vocês como nós. Especialmente o distrito que escolhi para viver”, num ato de coragem de chamar este distrito como o seu e que as pessoas da sala adoraram e gritaram.
“E sei que está a ouvir lá em cima e está orgulhosa”
“O meu nome é Tony carreira e obrigado por terem vindo”, brinca Buba tal não era o sentimento e envolvência que os presentes lhe passaram. O tema “Digo que devo continuar”, uma música com ritmo e fluxos de diversos géneros, continua esta energia e termina em aplausos estridentes. Os pés das pessoas não paravam e as cabeças também, a acompanhar musicalmente o tema.
Da mesma forma que Buba recebeu uma energia de elevação feliz do público, tinha também um pedido especial a fazer. Iria tocar o tema “Rosa albardeira”, do repertório de António Zambujo, dedicado à sua mãe: “Este era o tema favorito da minha falecida mãe. É a forma que tenho de me recordar dela. E sei está a ouvir lá em cima e está orgulhosa. Esta é para ela”.
Uma rosa albardeira é uma flor que cresce espontaneamente na Península Ibérica e, contra tudo e contra todos, cresce bela e imponente contrastante com as paisagens mais secas. No fundo, é a figura da mulher rural, do seu trabalho e beldade. A autêntica beleza espontânea do Alentejo que se sentia na vibração do timbre de Espinho.
Uma flor resistente e bela na serra
“Já não me largo de ti”, canta Buba, e sentou-se como se estivesse a ver a rosa e o público viu a rosa também, por toda a capacidade de ele os levar para esse momento específico. Envolveu-se no momento e haveria alguém a dizer que até cheirou a rosa. Até na descrição da serra onde está a flor, “à noite pela fresquinha”, vimos a serra nos gestos e expressões do olhar amplo do artista. O foco de luz sobre Espinho era para ele e para a rosa, com mais nada a acontecer.
“Deixei pai, deixei mãe” é um apego que temos a quem amamos e, quando temos sorte, quem nos ama de volta.
“Já não me largo de ti”, e observou-se quem não largamos mesmo que já não esteja neste mundo terreno. Aqui as palmas ouviram-se lá fora.
“Quem está chateado com as namoradas aproveitem agora”
“Setúbal, na próxima canção vamos precisar de energia positiva. Vamos precisar de amor, de respeito e paixão. Vamos ser casa um dos outros. E peço que não seja só nestes momentos. Estes momentos são para aproveitar, sair fora da rotinas e azáfama do trabalho. Agora é o amor e a partilha que são os alicerces desta canção. Peço que deem as mãos às pessoas que trouxeram hoje”.
E ainda acrescenta: “Quem está chateado com as namoradas aproveitem agora”. Depois, “mandem a fatura lá para casa”. Acima de tudo, Buba pediu para aproveitaram e dizerem o que deviam dizer: “és um amor para a vida toda”.
E quem esteve presente deu as mãos sem pensar duas vezes e acompanharam o tema “Casa” do princípio ao fim. Até sem Buba o público sabia cantar e ele retorquiu: “O refrão é vosso”.
“Crianças no banco de trás e o pôr-do-sol em frente” como cowboys
E tudo porque o amor também é “Casa, Bagunça e Viagem para o resto da vida”. Acima de tudo, é “Crianças no banco de trás e o pôr-do-sol em frente” e nós sentimo-nos cowboys a cavalgar, como sempre imaginamos, até ao pôr do sol, ao lado das pessoas que sempre quisemos e imaginamos que resultasse.
Neste sentido, no chão sentia-se o tremer de emoção das pessoas e suas paixões únicas e só delas.
“Estou de abalada, vou para Setúbal”
“Roubei-te um beijo”, o próximo tema, parece ter algo que se assemelhe a uma história de amor de primária ou pré-adolescente. Esse ato de “roubar um beijo” à rapariga mais bonita da turma e fugir, para nos protegemos com os nossos amigos e fingir que só queremos brincar às pistolas, às lutas ou à bola. E ela olha, sorri, e nós de volta com sorriso amarelo e com os dentes meio tortos e ainda a crescer.
Neste tema, o cantor fez um jogo com a letra e diz “estou de abalada, vou para Setúbal”, “Tu não me queres/ Aqui mais ninguém me apanha”.
“Ninguém me apanha/ Já cá não está quem sofria/ Meu lindo amor/ Tu hás-de chorar um dia” e temos novamente a ideia de conclusão de histórias por acabar. Ou a esperança dessa conclusão.
Assim, temos novamente a ideia do pôr do sol, essa ideia romântica de nos dirigirmos a pôr do sol com todas as nossas inacabadas conclusões e com a catarse que demoramos décadas a encontrar. E se a encontrarmos. Buba, para trazer a energia de volta, acaba com o seu bom humor habitual: “Vais chorar um porradão de dias”, e as lágrimas de quebra tornam-se lágrimas sinceras de alegria.
Onde andam os Bandidos?
“Com o calor que ‘tá aqui fará em Beja!”, exclama Buba Espinho. Não esquecendo que está a decorrer o certame Ovibeja, será que é um spoiler para a sua aparição no dia 1 de maio em Beja no concerto dos Bandidos do Cante? Logo começam murmúrios entre a audiência, aflando desta hipótese e começa a planear uma possível ida à cidade alentejana.
“O coro aqui está forte Setúbal”, comenta, incrédulo com o alcance do poder da voz deste “coro”, na terra favorita do encontro de um rio e mar.
Os temas nostálgicos
Devido ao público ser eclético, é possível ter noção da força conjunto que o “coro” aplicou a acompanhar Buba Espinho em “Menina estás à janela”. Um tema nostálgico para a maior parte do público que tinha diversas gerações, mas também clássica para cantou a filhos até adormecerem em pequenos, ao seu ouvido e sussurrando muito baixinho.
E vimos mesmo a lua pois o desenho de luz deixou um luar bem azul presente, com força musical daqui até essa Lua e essa menina que está à janela, ou que vimos na escola ou depois e nunca esquecemos de nos perguntar o que luzia mais a nossos olhos. Ela ou a lua?
Uma luz solitária, a meio do palco, abata-se sobre Buba Espinho. Como um crooner dos tempos antigos. Uma imagem que lembra capas de álbuns e atuações que vimos em gravações, de Frank Sinatra ou Dean Martin.
De Setúbal passámos para o Alentejo, e agora para um salão de jazz onde Buba cantou as suas mágoas e envolveu o público, com chuva lá fora ou a cantar à chuva. Ou a fazer uma serenata, com “Refém”, escrito e composto por Eduardo Espinho. Mas era um crooner à portuguesa, um crooner com arranjos de Fado e que marcou.
Tanto que logo se ouviram gritos de “Ó fadista” e “Ó artista”, assim como “És lindo”.
E Buba, na sua personalidade única, responde: “Um de cada vez”. E entre risos, diz que só percebeu “lindo fadista, foi uma compilação entre os dois?”.
“Um dia hei de voltar, seja lá quando isso for”
Porém, iria falar de algo muito forte e por vezes até dececionante para si: “Quis sair do Alentejo muito cedo com o propósito de voltar e acredito que haja muita gente pois faz parte da nossa identidade sair muito cedo. Temos de sair das nossas terras pois é difícil viver no interior. Esta vai para quem sai de casa cedo e voltam mulheres e homens mais fortes.” Era este o momento porque esperávamos, “Um dia hei de voltar”. E por mais que se oiça este tema, nunca parece só mais uma vez.
Buba Espinho fez sentir a sua voz no “quero” em “É cá que eu quero ficar”, com uma ênfase vibrante e de marcada. Assim como o fez em “Um dia hei de voltar”, com o verbo “voltar”, em que se sentiu este desejo e teve vibrações e efeitos melancólicos em toda a parte do Fórum. Sentimos o querer voltar de Buba, e nós queremos também, mesmo que seja uma ideia já do passado.
O público estava rendido. E, para quebrar, ouvimos “Bem-vindos eu sou o Bernardo”. Prossegue com “Não era fácil pois o cante era ligado a bebedeiras e depois mandavam-nos calar em cafés e diziam que estávamos bêbedos. E só queríamos cantar o que os nossos pais e avós nos deixaram em sítios da sua terra”. Afirmou que mesmo em reuniões com editoras era difícil passar a mensagem do cante, mas que “agora já sabem cantar à alentejana”. E exclama que o “cante alentejano não é de bêbedos, é património imaterial da humanidade!”.
Uma fã grita imediatamente: “e agora são salas esgotadas todas as semanas”!
E Buba não tarda: “A culpa é vossa porque vocês é que compram os bilhetes”. E enquanto demora a afinar a sua guitarra, brinca que a guitarra “é alentejana”.
“Os calos são os anéis”
Repentinamente, todas as luzes se apagam para o tema “Verão, Alentejo e os Homens”. Luzes de cor amarelada saem do círculo onde Buba estava, de baixo para cima como se fossem o sol a romper. “O calor castiga os corpos/ Os ceifeiros vão ceifando/ Sem parar o seu labor” e percebe-se que este sol é o inverso do pôr do sol. É o início de mais um dia de labuta onde “os calos são os anéis”.
A pouco mais de meio do espetáculo, e mal termina este tema, todos se levantam e entre assobios e palmas limpam as lágrimas. “Por isso é que ele esgotou o coliseu”, grita um fã.
“Por onde passamos as pessoas recebem com amor e cantam o nosso cante alentejano. Obrigado Setúbal!”, devolve o artista alentejano. “Vamos lá todos juntos somos três terços do mundo, Setúbal.” “Falta os chineses”, responde na galhofa um membro do público.
E estava tudo pronto emocionalmente para a “Gotinha de água”, com um ânimo como se percebeu que só os sadinos conseguem dar, ao atribuírem palmas assim que perceberam qual era o tema. Isto visto ser um tema universal português, em que os nossos avós ouviram, e agora os netos do cante também cantam.
Reencontrámos tanto de nós neste espetáculo
Chega, assim, a altura de cantarmos “Ao teu ouvido”. Um tema de Bárbara Tinoco que interpretou em colaboração com Buba Espinho. Uma balada nostálgica, que puxa por memórias que serão particulares a cada um, consoante a sua vivência e referências dos versos.
“Onde está a rapariga que eu gostava mais que a vida?” e ninguém no público soube responder, mas soube acompanhar bem alto e a boa voz. Talvez não na fonte a ir buscar uma gotinha de água, nem no rio sado.
Mas com este tema todos nós encontrámos, por segundos, as caras metade espalhadas pelo mundo e já bem longe do nosso quotidiano. E tudo em uníssono neste espaço setubalense.
“Onde está a minha avó que me ensinou esta canção?” e as lágrimas teimam em cair, pensando onde estão as nossas avós que iriam adorar ouvir Buba Espinho nesta noite tão especial.
E seja uma ou outra, rapariga ou avó, o tema lembra-nos de que perdemos tanto. Mas também reencontrámos tanto neste espetáculo.
“Onde estão os rapazes de campo e as raparigas que vinham de Setúbal?”
Buba ainda joga com a letra a letra e faz trocadilhos: “Onde estão os rapazes de campo e as raparigas que vinham de Setúbal?” e “Onde fica o Luísa Todi que me ensinou esta canção?”. O que leva a um aumento ainda maior dos sentidos de quem se apaixonou nesta cidade ou por esta cidade, pois não se sabe dos rapazes nem das raparigas que vinham de Setúbal.
Uma interação massiva de público seria a melhor descrição para o que se seguiria. Uma bateria toca sem parar, com acompanhamento a palmas num momento início que até a luz estava em sintonia. Buba volta a presentar a sua banda: Luís Aleixo na guitarra e vozes, António Andrade Santos na voz e teclas, Bruno Chaveiro na guitarra portuguesa, Guilherme Melo na bateria e Jimmy no baixo elétrico. Buba pediu aplauso também para a sua equipa de bastidores e técnicos de luz e som do espaço.
Não nos queríamos ir embora nem por nada
Após mais um tema, Buba corre de um lado para outro do palco e diz “até à vista”. Mas continua em voz-off a puxar pelo público. Volta a palco e agradece novamente à cidade.
Contudo, o público bateu os pés e gritavam por mais. Não se queriam ir embora nem por nada como diria o próprio Buba.
Assim, Buba volta a palco e pergunta: “Onde é que vocês pensaram que a gente ia? O próximo tema é a forma mais pura de Cante que aprendemos com os nossos antepassados e os nossos avós. Sem microfones e sem música”. Todos os músicos presentes chegam perto da boca de palco e entrelaçam os braços para interpretar “É Tao Grande o Alentejo”. A balançarem como se estivesse uma taberna no seio da mais pequena aldeia parada no tempo, mas cheia de alma e coragem de viver “onde os calos são os anéis”.
Mas o foco de luz não bateu certo e o público gritou para “irem mais para trás”. Os artistas acederam e Buba comenta: “Está bom aqui?”.
Depois o silêncio era absoluto. Ninguém falou nem se atreveu a tossir ou a mexer-me no lugar com medo de a cadeira emitir qualquer som. O respeito era absoluto e o público só entrou no tema em “Tanta terra abandona”.
Após isto, a ovação foi ensurdecedora, em que até os mais idosos se levantaram com um só salto para baterem palmas.
“Tragam energia positiva pelos que estão e já não estão e façam eles viverem”
“Setúbal é uma terra com uma história de muita cultura. O Coliseu para mim já passou para mim interessa os que vem e obrigado a vocês”, finaliza o artista. “Somos uns privilegiados por podermos fazer disto a nossa vida. Passamos mais tempo na estrada do que com famílias, mas com estes momentos acreditamos que fizemos a escolha certa. Acreditem na música portuguesa mesmo que não conheçam vale a pena. Não há melhores na música, e apoiem. Setúbal, ponham essas luzes dos telemóveis bem altas. Liguem as lanternas e tragam energia positiva pelos que estão e já não estão e façam eles viverem em cada letra e melodia e isso é o mais importante na vida. Saímos de coração cheio, Setúbal, por esta noite. Obrigado e até à próxima”.
E somos embalados pelo encore do tema “Casa”, num festejo máximo da nossa cultura e aonde queremos chamar “casa”, assim como a quem queremos chamar.
Setúbal é invadida por longos campos cultivados a céu aberto
À saída do espaço, parecia que o concerto ainda não tinha terminado e estavam dezenas de pessoas à espera para entrar. Foi esta. Amanda humana com que a equipa se deparou. Uma multidão, separada em pequenos grupos, a falar de tudo o que atinja passado em alto e bom som. Um completo alvoroço que parecia uma comunidade alentejana.
Estavam todos a recuperar de tudo o que sentiram nas horas anteriores.
Nunca o Alentejo esteve tanto em Setúbal como agora. Fomos todos amor e planícies com searas e olivais. E a Avenida Luís Todi foi, antes e pós espetáculo, uma grande península alentejana de onde ninguém queria “abalar”.
[Best_Wordpress_Gallery id=”8058″ gal_title=”Buba-Setubal-2025″]Alinhamento de Buba Espinho no Fórum Municipal Luísa Todi
- Afã
- Jardim paraíso
- Digo que devo continuar
- Rosa albardeira
- Casa
- Não é tarde nem é cedo
- Roubei-te um beijo
- Menina estás à janela
- Refém
- Um dia hei de voltar
- Verão
- Gotinha de água
- Ao teu ouvido
- Zé de Alfama
- Os guardas
Encore
16. É tão grande o Alentejo
17. Casa
