João Pedro Pais: 28 anos a emocionar o público com canções

João Pedro Pais: 28 anos a emocionar o público com canções, tendo em 2025 lançado um disco que contou com fotografias de Bryan Adams.

Texto: Rui Lavrador
Fotografia: João Sousa

Antes de subir ao palco do Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, João Pedro Pais abriu o coração numa conversa íntima e sem filtros. A entrevista aconteceu a 8 de novembro e revelou um artista profundamente consciente do seu caminho, do seu lugar e do tempo que atravessa.

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Ainda assim, achei que faria sentido apenas lançá-la hoje, em que este site celebra o 10º aniversário.

Desde logo, o músico falou sobre a receção das novas canções junto do público. Ao longo de cerca de 45 concertos realizados este ano, a reação tem sido clara. “Quando tocamos músicas novas as pessoas reagem bem”, explicou, sublinhando que existe uma relação de confiança construída ao longo dos anos.

Um disco vivido em palco e partilhado com o público

Além disso, João Pedro Pais reconhece que o público conhece o seu universo musical. “O público sabe, costuma saber aquilo que eu faço musicalmente e divertem-se connosco”, afirmou, revelando uma ligação emocional que se mantém viva concerto após concerto.

Por outro lado, o novo disco ganhou destaque também pela imagem. Um dos temas mais falados foi a participação de Bryan Adams na fotografia do álbum. Sobre esse momento, o cantor foi claro quanto à responsabilidade sentida.

“É uma responsabilidade, porque eu não olho para o Brian Adams como uma estrela”, confessou. Ainda assim, fez questão de contextualizar. “Ele está à parte. No mundo, na indústria da música, ele está à parte”.

O respeito pelo percurso e a consciência do lugar

Nesse sentido, João Pedro Pais afastou qualquer comparação entre realidades distintas. “Eu não canto para o mundo, eu canto apenas no meu país”, disse, com uma lucidez rara no meio artístico. Para o músico, esse é exatamente o lugar onde faz sentido estar.

Quando questionado sobre o momento da sessão fotográfica, revelou uma decisão consciente. “Eu disse que não, não ia me sentir bem”, explicou, recusando ouvir as próprias canções durante o trabalho. Para o artista, havia ali uma questão de respeito. “Há que saber estar perante pessoas que musicalmente marcaram o mundo”.

Palco, intimidade e a falsa ideia de timidez

Ao longo de quase 28 anos de carreira, João Pedro Pais construiu uma relação intensa com o público. Apesar disso, rejeita a ideia de ser uma pessoa tímida. “Eu não me considero tímido”, afirmou. Para si, trata-se antes de respeito e de saber ocupar o espaço certo.

Ainda assim, reconhece que o palco é um lugar especial. “Só quando piso um palco, quando tenho uma produção própria, é que eu tenho que me exibir”, explicou. Fora desse contexto, prefere passar despercebido. “Eu não gosto de dar nas vistas quando não tenho que dar”.

Colaborações, tempo e escolhas conscientes

Durante a conversa, surgiu também a colaboração com Fábia Rebordão, apresentada ao vivo no mesmo teatro, aquando do concerto da artista. Sobre um possível lançamento desse tema, João Pedro Pais foi prudente. “Tem que fazer sentido fazer. E não fazer só porque é bonito”, afirmou. Ainda assim, muito provavelmente a música irá mesmo ser lançada.

Quanto ao futuro discográfico, o músico revelou que prefere esperar. “Acho que faz sentido estrear uma música nova em 2027”, ano em que assinala 30 anos de carreira. Para ele, marcar essa data com intenção é essencial.

Criatividade, influência e o essencial da vida

Questionado sobre sonhos por cumprir, a resposta foi desarmante. “Já não tenho grandes sonhos”, disse, explicando que a prioridade é continuar enquanto fizer sentido. “Enquanto me divertir, enquanto as pessoas se contentarem comigo, faz sentido andar cá”.

A criatividade, essa, continua ativa. “Eu revejo-me naquilo que escrevo”, partilhou, assumindo a dimensão autobiográfica das canções, mas também o espaço para a ficção. Tudo influencia o processo, desde filmes a conversas, desde o quotidiano às pessoas que encontra.

Reconhecimento inesperado e respeito mútuo

Por fim, João Pedro Pais recordou um encontro marcante com Garrett McNamara, que o reconheceu e valorizou. “Ele disse, eu conheço-te, cara. Eu conheço-te”, contou, visivelmente emocionado.

Esse momento simboliza algo maior. Mesmo sem procurar o centro das atenções, João Pedro Pais deixou uma marca profunda. Ao longo de quase três décadas, as suas canções continuam a criar pontes, memórias e emoções que resistem ao tempo.

Opinião: a raridade de quem permanece sem perder a verdade

Por fim, há algo que, enquanto ouvinte atento, sinto que importa sublinhar. João Pedro Pais é um caso raro na música portuguesa. Manter-se relevante durante quase três décadas não acontece por acaso, nem apenas por talento técnico.

Antes de mais, há uma coerência artística difícil de encontrar. João Pedro Pais nunca precisou de seguir modas para se manter no topo. Pelo contrário, foi ficando porque as suas canções continuaram a fazer sentido na vida real das pessoas.

Além disso, as suas músicas atravessam gerações porque falam de emoções universais. O amor, a esperança, a dor e a desilusão estão lá, ditos de forma simples, mas profundamente honesta. E isso cria identificação.

Por outro lado, muitos ouvintes encontraram nas suas letras um lugar seguro. Em momentos de perda, de dúvida ou de recomeço, há canções dele que funcionam quase como abrigo emocional. Isso não se fabrica, constrói-se com verdade.

Também é importante dizer que João Pedro Pais nunca se colocou acima do público. Há uma humildade constante na forma como olha para o seu percurso e para o impacto que tem. E essa postura aproxima, em vez de afastar.

No fundo, talvez seja isso que explica tudo. A capacidade de tocar tanta gente não vem do espetáculo, mas da humanidade. E é precisamente por isso que, tantos anos depois, as suas canções continuam a ser necessárias.

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