Junho ainda junta Portugal: O problema é saber o que fazemos uns com os outros depois disso

Junho ainda junta Portugal: O problema é saber o que fazemos uns com os outros depois disso, das luzinhas apagarem.

Editorial de junho – Infocul.pt by ARDglobal

Junho tem esta mania antiga de nos enganar com luzinhas.

Pendura-se nas ruas, espalha cheiro a sardinha, põe música onde ontem havia buzinas e convence-nos, por umas horas, de que ainda somos todos muito próximos. É bonito. É útil. E, em certos momentos, até parece verdade.

Depois passa uma mota a fazer mais barulho do que uma crise política, alguém discute por causa de uma mesa, outro filma a marcha inteira sem olhar para ela, e percebemos que Portugal continua igual. Só está mais iluminado.

Ainda assim, há qualquer coisa em junho que nos desarma.

Talvez seja o cheiro a carvão. Talvez seja a memória de infância que aparece sem pedir licença. Talvez seja aquela portuguesa capacidade de transformar desconforto em festa e falta de orçamento em tradição. Também pode ser apenas fome, o que explicaria muita coisa.

Mas junho, mesmo com todos os seus exageros, ainda nos junta.

E isso, nos tempos que correm, já não é pouco.

A rua continua a ser o melhor palco

Há meses que passam pela vida de um país sem grande personalidade. Junho não. Junho entra de cotovelos.

Entra pelos bairros, pelas vilas, pelas aldeias, pelas coletividades, pelos largos, pelas escadas, pelas varandas e pelas conversas que começam sempre com uma crítica qualquer. Em Portugal, até a alegria precisa de vir acompanhada de uma reclamação. É quase património imaterial.

No entanto, quando a rua se enche, acontece uma coisa rara: o país parece menos sozinho.

As pessoas saem. Cumprimentam-se. Fingem que não têm saudades umas das outras e acabam a falar da vida inteira entre uma sardinha e um copo mal servido. Há crianças a correr, idosos a observar, jovens a dançar como se tivessem inventado o verão e adultos a lembrar que o joelho já não perdoa.

Tudo isto é cultura.

Mesmo que alguns só reconheçam cultura quando há bilhete caro, cortina pesada e palavra francesa no programa. A rua, coitada, continua a ter esse defeito: é democrática. E há sempre quem ache a democracia um bocadinho vulgar quando não vem com convite personalizado.

Porém, a cultura portuguesa vive muito disto.

Vive da associação que monta o palco antes de o município chegar para a fotografia. Vive do artista que canta para pouca gente com mais dignidade do que muitos cantam para multidões. Vive da banda que afina à pressa, da marcha que ensaiou tarde, do rancho que resiste, do teatro amador que não tem glamour, mas tem alma.

E, às vezes, alma é a única coisa que sobra quando acaba o subsídio.

O popular incomoda muita gente

Há uma hipocrisia engraçada, embora cansativa, na forma como olhamos para o que é popular.

Quando vem de fora, chamamos-lhe experiência autêntica. Quando acontece na nossa rua, chamamos-lhe barulho. Quando é num mercado europeu cheio de turistas, é tradição viva. Quando é numa coletividade portuguesa, é coisa pequena. Quando alguém dança em Sevilha, é cultura. Quando dança numa terra nossa, há sempre um iluminado a perguntar se aquilo ainda faz sentido.

Faz.

Faz sentido porque junta pessoas. Faz sentido porque dá palco a quem não aparece nos cartazes grandes. Faz sentido porque guarda formas de viver que não cabem em comunicados, nem em dashboards, nem em relatórios de impacto.

Além disso, faz sentido porque nem tudo precisa de ser “cool” para ter valor.

Aliás, desconfio muito de tudo o que se esforça demasiado para ser cool. Normalmente tem pouca verdade, muita espuma e alguém a cobrar demasiado por uma cadeira desconfortável.

Junho não é cool. Junho é suado, barulhento, imperfeito e um bocadinho kitsch. Felizmente.

Tem manjericos com quadras duvidosas. Tem música alta demais. Tem filas sem lógica. Tem santos populares, festas de bairro, artistas esquecidos, febras teimosas e aquele primo que aparece uma vez por ano com opiniões firmes sobre tudo.

Mas também tem uma coisa que nos anda a faltar: presença.

Estamos juntos, mas já não sabemos estar

O problema começa aqui.

Junho põe-nos lado a lado, mas isso não significa que nos devolva uns aos outros. Estar junto nunca foi o mesmo que estar presente. E nós tornámo-nos especialistas em ocupar lugares sem habitar nada.

Estamos numa festa, mas respondemos a mensagens. Estamos num concerto, mas vemos pelo ecrã. Estamos numa mesa, mas à espera de outro sítio. Estamos com pessoas, mas sempre meio disponíveis para desaparecer.

Depois queixamo-nos da solidão.

E, claro, a solidão é real. Mas também há uma solidão que fomos construindo com muito talento. Uma solidão com notificações, filtros, stories, comentários rápidos e aquela necessidade absurda de transformar tudo em prova de vida.

Hoje há quem não vá a uma festa. Vai produzir evidência de que esteve numa festa.

E isto talvez pareça uma rabugice de quem já não aguenta auscultadores aos berros no metro. Também é. Mas não é só.

É que perdemos alguma capacidade de ficar.

Ficar numa conversa. Ficar num silêncio. Ficar num lugar sem procurar logo outro. Ficar com pessoas difíceis, como todas são quando deixam de ser personagens. Ficar numa comunidade sem exigir que ela seja confortável todos os dias.

Porque comunidade não é uma fotografia bonita com bandeirolas.

Comunidade é trabalho. É chatice. É paciência. É aparecer quando não há festa. É ajudar quando já não dá jeito. É apoiar a cultura quando o algoritmo está distraído. É ir ao espectáculo pequeno, comprar o livro menos falado, ouvir o artista que ainda não foi legitimado por Lisboa, pelo Porto ou por uma trend qualquer.

Comunidade é menos legenda e mais presença.

Portugal gosta da palavra comunidade. Das pessoas, nem sempre

Há uma ternura muito portuguesa nesta ideia de vivermos todos muito ligados. Mas também há uma mentira confortável.

Gostamos de dizer que somos um país de afetos. E somos. Às vezes. Quando nos convém. Quando o afeto não exige demasiada tolerância, demasiada escuta ou demasiada mudança de planos.

Gostamos de vizinhança, mas não gostamos muito do vizinho. Gostamos de tradição, mas implicamos com quem a mantém. Gostamos de cultura, mas perguntamos logo quanto custou. Gostamos de artistas, desde que tenham sucesso. Antes disso, são só pessoas a insistir.

E gostamos muito de comunidade desde que ela não nos obrigue a sair do nosso pequeno trono de opinião.

Este é talvez o retrato mais cruel do país: temos uma facilidade imensa em juntar-nos para celebrar, mas uma dificuldade enorme em permanecer juntos quando é preciso cuidar.

Junho, por isso, é bonito e incómodo.

Mostra-nos o melhor de nós. A rua cheia, a mesa aberta, a gargalhada espontânea, a música sem vergonha, a comida partilhada. Mas também mostra o nosso lado mais preguiçoso. A pressa de consumir a festa sem perceber quem a fez. A tendência para aplaudir a tradição enquanto ignoramos quem a carrega. A mania de procurar alma, mas só se vier bem embalada.

No fundo, queremos comunidade com estacionamento à porta.

Depois da festa, fica o teste

A festa acaba sempre.

As luzes apagam-se. O palco desaparece. A rua volta a ser rua. O chão fica sujo. A associação arruma cadeiras. O artista segue para outro sítio. O bairro regressa à sua rotina. E as pessoas, essas, voltam ao seu pequeno cansaço.

É aí que se percebe se junho serviu para alguma coisa.

Porque celebrar é fácil. Ou, pelo menos, mais fácil. O difícil é continuar depois. O difícil é transformar festa em vínculo. Rua cheia em participação. Cultura popular em respeito. Tradição em futuro. Presença em cuidado.

E talvez seja esta a pergunta que junho nos deixa todos os anos, mesmo quando fingimos que só veio trazer santos e bailarico: o que fazemos com aquilo que ainda nos junta?

Se for apenas mais uma oportunidade para publicar fotografias, então tivemos cenário. Se for apenas consumo, tivemos programa. Se for apenas barulho, tivemos distração.

Mas se, por acaso, nos lembrar que uma terra sem encontro é apenas um conjunto de moradas, então junho ainda cumpre o seu papel.

Ficar também é uma forma de coragem

Há uma beleza discreta em quem fica.

Não em quem fica parado, preso, resignado. Mas em quem fica disponível. Em quem fica para ouvir. Em quem fica para construir. Em quem fica numa associação, numa sala pequena, numa festa local, numa redação, numa coletividade, numa aldeia que perdeu gente, num bairro que perdeu tempo.

Ficar, hoje, é quase um gesto contra a moda.

Num mundo viciado em novidade, ficar parece pouco sofisticado. Não rende tanto. Não impressiona tanto. Não dá aquela sensação moderna de movimento permanente. Mas talvez seja precisamente por isso que importa.

Ficar é dizer: isto ainda merece. Esta rua ainda merece. Esta cultura ainda merece. Estas pessoas ainda merecem. Este país, apesar de tudo, ainda merece.

E sim, “apesar de tudo” é uma parte importante da frase.

Porque Portugal cansa. Cansa muito. Cansa pela burocracia, pela pequenez, pela inveja, pela falta de visão, pelo provincianismo mascarado de sofisticação e pela sofisticação mascarada de coisa nenhuma.

Mas depois chega junho.

E há uma mesa na rua. Uma canção torta. Um cheiro conhecido. Uma criança a rir. Uma senhora a dançar sem pedir desculpa. Um homem a fingir que não se emocionou. Uma terra inteira a tentar, mesmo mal, continuar a ser terra.

E talvez isso nos baste para não desistir.

Não para romantizar tudo. Deus nos livre. Portugal já tem romantização suficiente e soluções a menos. Mas para lembrar que há ainda qualquer coisa viva debaixo do ruído.

Junho ainda sabe juntar-nos.

Agora falta saber se nós, depois de tanto ecrã, tanta pressa, tanta opinião e tanta pose, ainda sabemos ficar.

Ficar na rua. Ficar na conversa. Ficar na cultura. Ficar uns com os outros.

Mesmo quando já não há luzinhas.

Sobretudo quando já não há luzinhas.

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