Marcos Bastinhas rendido à Nazaré: «Para mim, é como estar em casa»

Marcos Bastinhas rendido à Nazaré: «Para mim, é como estar em casa», afirmou, emocionado, o cavaleiro.

Entrevista e Fotografia: Diogo Nora
Texto: Rui Lavrador

Marcos Bastinhas voltou a sentir, na Praça de Touros do Sítio da Nazaré, um daqueles afetos que não precisam de grandes explicações. Depois de duas lides exigentes, perante touros de Manuel Veiga com dificuldades distintas, o cavaleiro elvense saiu da arena satisfeito pela forma como conseguiu ultrapassar os problemas e, sobretudo, pela resposta de um público que mantém com a família Bastinhas uma ligação antiga.

Ao Infocul.pt, Marcos analisou os dois touros que lhe couberam em sorte, explicou as dificuldades de lidar primeiro com um exemplar que se adiantava nas reuniões e depois com outro agarrado às tábuas, falou da relação quase familiar que mantém com a Nazaré e fez ainda um balanço de uma temporada que considera diferente, mais madura e vivida com outra serenidade.

«Estamos cá para superar»

Marcos Bastinhas não escondeu que encontrou pela frente dois touros bastante mais complicados do que aquilo que esperava da ganadaria Manuel Veiga.

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«Foram dois touros complicados, dois touros que exigiam, com muito sentido. Não vínhamos à espera que esta ganadaria apresentasse estas dificuldades, mas nós estamos cá para isso, para superar e para fazer com que o público não note essas dificuldades.»

Mais do que ficar preso aos problemas colocados pelos adversários, o cavaleiro preferiu olhar para aquilo que conseguiu transmitir às bancadas.

«Penso que foi isso que consegui fazer. Consegui tourear bem, consegui transmitir emoção às bancadas, as pessoas estavam contentes, aplaudiram de pé e é isso que, mais uma vez, me enche o coração.»

Na Nazaré, Bastinhas voltou a ter de fazer aquilo que tantas vezes separa uma atuação conseguida de uma passagem discreta: esconder as dificuldades sem fingir que elas não existem.

Dois touros e dois problemas completamente diferentes

O primeiro exemplar apresentava uma dificuldade particularmente incómoda. Adiantava-se no momento da reunião, encurtando distâncias e tornando muito mais delicado calcular o momento certo para chegar à cara do touro.

«São dois touros distintos, com duas dificuldades distintas. Essa primeira, de se adiantar, é muito complicada, porque os cavalos também notam essa dificuldade e apercebem-se dela.»

O problema não estava apenas na reação do touro, mas também na imprevisibilidade dessa investida.

«Depois, não é fácil medir bem as distâncias, porque não sabemos qual é a velocidade nem a distância que ele vai percorrer. Então, é complicado conseguirmos acoplar-nos ao touro.»

No segundo, a equação mudou. O touro tinha marcada tendência para as tábuas, obrigando Marcos e os cavalos a um trabalho constante para o retirar daqueles terrenos antes de procurar a reunião.

«Os touros fechados em tábuas também exigem muito dos cavalos. É preciso estar sempre a tirar o touro das tábuas para tentarmos cravar e têm de ser cavalos com um nível elevado para conseguirmos fazer boas atuações.»

Bastinhas reconheceu que este género de comportamento facilmente pode engolir uma atuação.

«Se assim não for, passamos completamente ao lado das corridas com estes touros. Felizmente, não foi isso que aconteceu.»

Se a Nazaré fosse uma monarquia…

Houve depois espaço para a provocação inevitável.

Se a Praça de Touros da Nazaré fosse uma monarquia, Marcos Bastinhas seria rei?

A resposta não entrou pelo caminho da coroa, mas explicou talvez melhor do que qualquer título nobiliárquico aquilo que se passa entre o cavaleiro e aquele público.

«Não sei explicar. Já era assim com o meu pai e, graças a Deus, continua a ser comigo. Sempre que venho aqui, o carinho do público é enorme e eu também me entrego de corpo e alma a estas pessoas.»

É uma relação herdada, mas não vive apenas da herança. Marcos fez questão de sublinhar que a Nazaré ocupa hoje um lugar próprio na sua carreira.

«É, sem dúvida, das minhas praças favoritas. Se pudesse fazer aqui dez corridas seguidas, também fazia dez corridas seguidas, porque, para mim, estar na Nazaré é como estar em casa.»

Talvez seja essa a melhor explicação para o fenómeno. A Nazaré trata-o como um dos seus e Bastinhas responde como quem não visita apenas uma praça, mas regressa a um lugar onde sabe que a porta estará aberta.

«Um Marcos mais maduro»

A temporada marcou o regresso de Marcos Bastinhas e, olhando para aquilo que já viveu ao longo do ano, o cavaleiro identifica diferenças não apenas no seu toureio, mas também na forma como se apresenta perante a profissão.

«Tem sido uma temporada muito boa, graças a Deus. Uma temporada com um Marcos diferente, um Marcos mais maduro, em que consegui trazer coisas novas, trazer também um toureio mais clássico, juntando-o a outro mais moderno.»

A mudança, contudo, não se resume àquilo que acontece quando entra em praça.

«Sou também uma pessoa com mais paz interior e com mais para dar aos aficionados. Fico muito satisfeito com esta temporada e só espero que acabe da melhor maneira.»

Há aqui uma evolução que Bastinhas não procura esconder. Continua presente a irreverência que lhe é característica, mas acompanhada agora por uma procura de maior classicismo e por uma serenidade que o próprio assume ter encontrado.

Califórnia, Almeirim e Elvas antes de fechar contas

Ainda há, contudo, muito caminho até ao final da temporada.

Marcos Bastinhas tem pela frente uma deslocação à Califórnia para participar na despedida de Paulo Jorge Ferreira, cavaleiro com quem mantém uma relação de amizade, seguindo-se compromissos em Almeirim e, finalmente, o regresso a Elvas.

«Ainda vou para a Califórnia, para a despedida do Paulo Jorge Ferreira, que é um grande amigo. Depois ainda tenho Almeirim e, finalmente, Elvas, em casa. Por isso, ainda há muito trabalho a fazer.»

Por isso mesmo, Bastinhas recusou qualquer tentação de fazer já contas definitivas ao ano.

«Ainda não podemos estar a fechar o ciclo, porque ainda temos muita luta.»

Na Nazaré, essa luta passou por dois touros que lhe fizeram perguntas diferentes e obrigaram a respostas igualmente distintas. Marcos encontrou-as, voltou a sentir um público rendido e saiu de uma praça onde, como o próprio admite, já não parece verdadeiramente visitante.

Se é rei ou não, deixemos a monarquia para outra conversa. Na Nazaré, pelo menos, ninguém parece exigir-lhe passaporte.

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