Morante de la Puebla conquista Porta do Príncipe em Sevilha numa tarde de génio e pouca matéria-prima, esta quinta-feira.
Foto: Lances Maestranza – Instagram
Morante de la Puebla voltou a escrever uma tarde grande na Real Maestranza de Sevilha. Na corrida de Corpus Christi, perante praça cheia e ambiente de enorme expectativa, o toureiro de La Puebla cortou três orelhas e saiu pela Porta do Príncipe.
O triunfo nasceu, sobretudo, da capacidade de inventar onde quase nada parecia existir. A corrida, com touros de Hnos. García Jiménez, Olga Jiménez e Garcigrande, teve apresentação desigual e escassa força em vários momentos. Mas Morante fez do pouco matéria suficiente para levantar Sevilha.
Juan Ortega foi ovacionado no primeiro do seu lote e escutou silêncio no quinto. Pablo Aguado, por sua vez, ouviu ovação no terceiro e silêncio no sexto.
Morante transforma “Sosito” numa obra de arte
O momento maior da tarde chegou no quarto touro, “Sosito”, de Hnos. García Jiménez. O animal foi protestado de saída, pela fraca presença, e pouco permitiu no capote.
Ainda assim, a lide de Juan José Domínguez foi decisiva. O bandarilheiro dominou os terrenos, mediu os tempos e acabou ovacionado depois de lidar o touro.
Na muleta, Morante fez o que parecia impossível. Depois de um trincherazo profundo, mudou a muleta de mão e rompeu o olé na Maestranza.
A primeira série pela esquerda trouxe o touro cosido à muleta, com ajuste, suavidade e temple. Cada muletazo pareceu durar uma vida. Sevilha levantou-se e Morante deixou-se ir.
Nos passes de peito, varreu o lombo do touro com uma lentidão esmagadora. Depois, abriu o compasso, voltou ao natural e ligou tudo num palmo de terreno.
O final de cada muletazo parecia já anunciar o seguinte. A faena cresceu sem pressa, com um molinete e um cambio de mãos de enorme sabor.
Quando o touro já pedia menos, Morante ainda encontrou forma de rematar por alto, com graça e toureio. Depois, matou com segurança e autoridade.
A praça gritou “José Antonio – Morante de la Puebla”, ao som de palmas por tangos. O touro demorou a cair, mas os lenços apareceram. Duas orelhas e Porta do Príncipe.
A primeira orelha abriu caminho ao triunfo
A tarde de Morante começara com o sobressalto da devolução do primeiro touro. “Mariposo”, de Hnos. García Jiménez, mostrou falta evidente de forças e recebeu o lenço verde antes de entrar no cavalo.
Saiu então o sobrero “Lancero”, de Garcigrande, ligeiramente protestado. Fino de linhas, custou-lhe repetir no início, mas Morante começou a aquecer a corrida no capote.
À verónica, levou o touro cada vez mais devagar. Uma das verónicas, na segunda raia, pareceu suspender o tempo. A meia, já com o touro a querer menos, saiu templada e obrigada.
Na muleta, Morante percebeu depressa o que o animal precisava. Não o apertou por baixo. Levou-o a meia altura, dando-lhe confiança.
Quando acertou terrenos e alturas, a faena respirou. Houve um natural quase circular, um muletazo muito longo pela direita e um cambio de mãos com sabor.
A estocada, em sorte contrária, foi de execução perfeita. A primeira orelha abriu a porta ao que viria depois.
Juan Ortega deixa sabor, mas a espada trava prémio
Juan Ortega teve no segundo, “Veraneante”, de Hnos. García Jiménez, um touro anovilhado e fraco.
O animal saiu afligido do primeiro encontro com o cavalo e perdeu as mãos no segundo. Mesmo assim, o presidente mudou o tércio.
Na muleta, Ortega brindou ao público e dobrou-se com suavidade para levar o touro ao tércio. Pela esquerda, conseguiu os melhores momentos. O touro humilhou e colocou bem a cara.
A música soou depois da primeira série. Pela direita, a investida foi mais curta, mas Ortega encontrou remates de gosto.
Dois cambios de mãos, remates desmaiados e um abaniqueo torero foram muito aplaudidos. A qualidade maior do touro esteve no pitão esquerdo, mas a espada impediu outro resultado.
Pinchou no primeiro encontro e matou à segunda. Ouviu ovação.
No quinto, “Cotilla”, remendo de Garcigrande, a história teve menos brilho. O touro saiu solto, pouco se empregou no cavalo e chegou à muleta com uma codícia inicial que não teve continuidade.
Ortega ficou apertado no centro da faena, foi surpreendido numa arrancada e o touro afligiu-se pela esquerda. Voltou à direita, mas a obra já tinha perdido rumo. Escutou silêncio.
Pablo Aguado põe a Maestranza em pé no capote
Pablo Aguado teve no terceiro, “Fanfarrono”, de Olga Jiménez, a sua passagem mais vibrante.
O sevilhano foi à porta gayola e recebeu o touro com um farol de joelhos. Depois, já quando o presidente mudava o tércio, deixou quatro verónicas e duas meias arrebatadas que levantaram a Maestranza.
Também entrou ao quite por verónicas. Estava em sazão.
Nas bandarilhas, Iván García destacou-se com dois pares soberbos, sobretudo o segundo, que o obrigou a saudar.
Na muleta, Aguado começou por baixo com a esquerda, num início arrebujado, com um molinete e uma trincherilla muito celebrados. A música soou.
O touro foi de mais a menos e pediu tempo entre cada muletazo. Pela esquerda disse pouco, e Aguado regressou à direita.
Com um passe das flores, tirou-o das tábuas até à segunda raia e ligou com um circular. Repetiu o recurso, sempre atento à falta de continuidade do animal.
Fechou com toreria no tércio e matou de estocada inteira ao segundo encontro. A praça respondeu com ovação.
Aguado brinda a Morante, mas o sexto não ajuda
No sexto, “Esaborio”, de Hnos. García Jiménez, Pablo Aguado brindou a Morante, depois do gesto carinhoso do toureiro de La Puebla na corrida anterior de Aranjuez.
O touro, porém, pouco ofereceu. Baixo, curto de pescoço e de cara aberta, confirmou a fraca apresentação de parte do curro.
Ainda arrancou com alegria na segunda vara, desde meia distância, num puyazo traseiro de Espartaco. Mas, na muleta, faltaram bravura e raça.
Aguado começou de joelhos, levou-o depois à segunda raia e conseguiu uma primeira série ligada, rematada com um molinete.
Depois, tudo ficou parado. Pela esquerda, o touro disse ainda menos. O sevilhano abreviou e foi pela espada. Fez bem. Silêncio.
Uma corrida desigual salva pelo génio
A corrida teve lotação esgotada, com “No hay billetes”, mas o conjunto ganadeiro deixou muitas dúvidas. Houve protestos de saída, falta de forças e escassa apresentação em vários exemplares.
Ainda assim, Morante de la Puebla mudou a tarde. Cortou uma orelha ao sobrero de Garcigrande e duas ao quarto de Hnos. García Jiménez.
Juan Ortega deixou momentos de muita qualidade no segundo, mas sem tocar triunfo. Pablo Aguado brilhou no capote no terceiro e teve pouco material no sexto.
A ficha final resume o essencial: Morante de la Puebla, orelha e duas orelhas; Juan Ortega, ovação e silêncio; Pablo Aguado, ovação e silêncio.
Mas a ficha, sozinha, não explica tudo. Sevilha viu Morante inventar uma faena, inventar um touro e abrir a Porta do Príncipe numa tarde em que a matéria-prima esteve longe de acompanhar o tamanho do artista.

