Suzana Garcia revolta-se com caso de abuso infantil e critica TikTok e Governo espanhol, ontem no Dois às 10.
Suzana Garcia mostrou-se profundamente indignada, esta terça-feira, 11 de agosto, no Dois às 10, perante o caso de um menor com perturbação do espetro do autismo que terá sido vítima de abusos sexuais transmitidos em direto no TikTok. A advogada não ficou apenas pela análise criminal e alargou a intervenção às responsabilidades das plataformas digitais, à proteção das vítimas e, já numa segunda fase do debate, à situação política em Espanha.
Perante Cristina Ferreira e Cláudio Ramos, a jurista começou por chamar a atenção para um dado que considerou particularmente inquietante: a conta associada ao alegado agressor continuava a crescer na rede social, mesmo depois de o caso ter adquirido dimensão pública.
“É formidável a forma como nós continuamos a ser fracos com os fortes e fortes com os fracos, porque uma plataforma como o TikTok tem responsabilidades sociais. E a conta deste ser vivo tem quase 16 mil pessoas que o estão a seguir e subiu exponencialmente nas últimas horas. Mostra muito, isso demonstra bem que não estamos de facto sozinhos e que os lobos estão escondidos com peles de cordeiro, mas estão no meio de nós”, lamentou.
A crítica de Suzana Garcia incidiu depois sobre aquilo que considera ser uma inversão de prioridades na forma como determinadas sociedades lidam com os autores deste tipo de crimes e com as vítimas.
Recorrendo a um exemplo da Alemanha, a advogada questionou a existência de mecanismos de apoio dirigidos a pessoas que sentem atração sexual por menores quando, no seu entender, a atenção devia começar pela proteção e acompanhamento das vítimas.
“O que me repugna é que nós estamos num mundo em que na Alemanha, no jornal, nós olhamos para o jornal e vem lá dizer: ‘é um pedófilo, sente que não consegue controlar-se, nós compreendemos, estamos cá para o ajudar, ligue…’. Ou seja, nós estamos numa sociedade tal em que cada vez olhamos para as vítimas de uma forma mais despersonalizada e para os agressores, como em tudo na vida, até no discurso político que nós temos, os coitadinhos dos criminosos precisam do nosso apoio, está bem, está tudo bem, e as vítimas nesta equação?”, questionou.
«Temos que ter a coragem de bater com o murro na mesa»
A conversa acabou também por tocar na evolução histórica da proteção das crianças dentro do contexto familiar. Suzana Garcia recordou que houve épocas em que os menores eram encarados de forma muito diferente pelo próprio sistema jurídico e pela sociedade, defendendo que essa realidade torna ainda menos aceitáveis casos como aquele que estava em análise.
Foi nesse momento que utilizou uma das imagens mais duras da sua intervenção.
“É precisamente isso que se chama evolução. Nós já não estamos num patamar de evolução moral e axiológica como estávamos na altura. Há 50 anos as crianças eram propriedade dos pais. Tinham o direito e o poder de morte (…) É precisamente por isso que é tão importante nós extirparmos essas pessoas, porque ainda são células… o cancro está extirpado, mas ainda temos metástases. E é por isso que nós temos que ter a coragem de bater com o murro na mesa e dizer que isto é inadmissível”, rematou.
O debate poderia ter terminado na dimensão criminal do caso. Suzana Garcia, porém, levou-o também para o campo político.
Ao recordar que o episódio ocorreu em Espanha, afirmou sentir alívio por não se tratar de um caso português, alegando que, se assim fosse, exigiria uma resposta direta da tutela da Justiça.
“Eu fico feliz que isto esteja a acontecer em Espanha e não em Portugal, porque eu garanto-vos que se isso fosse em Portugal, estava eu às portas da Ministra da Justiça a dizer-lhe: Cuius iuris, senhora Doutora? Cuius iuris? Porque isto é inadmissível!”, afirmou.
Ceuta entra no debate e Pedro Sánchez torna-se alvo de críticas
A partir daí, a advogada passou a dirigir críticas ao executivo espanhol e invocou a situação vivida em Ceuta como exemplo daquilo que considera ser uma fragilidade das instituições do país vizinho.
As palavras de Suzana Garcia representam a sua leitura política do momento espanhol e surgiram no contexto de um debate que tinha começado com o caso criminal.
“Eu sei que a Espanha está toda muito progressista com o ministro que lá está a desgovernar o país. Se dúvidas houver, basta lembrarmo-nos do que aconteceu em Ceuta. Está a desgovernar o país”, declarou.
A comentadora terminou ainda com críticas à ausência de mobilização pública e ao comportamento de figuras com grande exposição nas redes sociais, defendendo que casos desta natureza deveriam provocar uma resposta social mais visível.
“Não há uma alma, não há uma influencer, não há um séquito dessa cáfila de parasitas da sociedade que achem até para aparecerem na televisão e nos jornais… que vá fazer essa manifestação por nós, porque eu sou portuguesa, eu estou deste lado, não vou atravessar a fronteira para pôr ordem no vosso galinheiro”, concluiu.
A intervenção de Suzana Garcia acabou, assim, por percorrer três frentes distintas: a proteção do menor e das vítimas, a responsabilidade das plataformas digitais e a crítica política à forma como Espanha responde a situações que, na perspetiva da advogada, exigem maior firmeza institucional.
