Rent no Casino Lisboa, traz memória e impacto, mas numa versão portuguesa, totalmente cantado em português e com um elenco jovem.
Fotografias: Casino Lisboa – Estoril-Sol

Há espetáculos que chegam ao palco com a vida já toda atrás. Rent é um deles. Não entra em cena vazio, nem pede licença para existir. Traz a Broadway às costas, um Pulitzer, um Tony, canções que se colaram à memória coletiva e uma sombra bonita, mas pesada: Jonathan Larson não chegou a ver o sucesso da obra que escreveu.
Por isso, quando Rent sobe ao palco do Auditório dos Oceanos, no Casino Lisboa, a pergunta não é apenas se a produção é competente. A pergunta é outra, mais difícil: será que aquela urgência ainda nos atravessa?
A versão portuguesa fica em cena até 28 de junho e apresenta-se cantada e interpretada integralmente em português. O elenco é numeroso, a produção tem ambição e há, desde logo, um mérito que não deve ser escondido: trazer Rent ao público português é, por si só, uma escolha relevante.
Mas Rent não é um musical para ficar bonito. É um musical para suar.

Um clássico que nasceu da urgência
Inspirado em La Bohème, de Puccini, Rent acompanha um grupo de amigos no East Village, em Nova Iorque, no coração dos anos 90. Fala de amor, doença, precariedade, desejo, perda e sobrevivência.
É teatro musical, sim. Mas não devia ser apenas espetáculo. Deve parecer vida a acontecer à frente de quem vê. Vida imperfeita, com falhas, com fome, com medo e com uma vontade quase insolente de continuar.
Quando uma obra destas chega demasiado arrumada, perde qualquer coisa pelo caminho. Rent precisa de arestas. Precisa de rua. Precisa de corpos que pareçam ter vivido antes da primeira nota.
No Casino Lisboa, há momentos em que essa energia aparece. Há entrega, há ritmo e há uma vontade evidente de fazer chegar a história à sala. Porém, também há instantes em que a máquina parece mais preocupada em não falhar do que em deixar a ferida respirar.
E Rent, convém não esquecer, vive precisamente dessa ferida.

A versão portuguesa entre a ambição e a contenção
A produção portuguesa conta com a colaboração inédita de Michael Greif, encenador original do espetáculo, aqui como consultor artístico. A encenação é de Sissi Martins, que também integra o elenco, e a adaptação portuguesa é assinada pela MTL, em co-produção com a UAU.
A tradução para português aproxima a obra do público nacional, mas essa aproximação traz sempre um risco. Algumas palavras precisam de mais do que equivalência. Precisam de sangue. Num musical como Rent, a língua tem de parecer necessidade, não apenas solução.
Durante mais de duas horas, o público encontra um espetáculo dinâmico e reconhece a força de temas como Seasons of Love ou Take Me or Leave Me. São canções que carregam uma memória própria e que, por isso, pedem muito a quem as interpreta.
Nem sempre basta cantar bem. Às vezes, é preciso cantar como quem não tem outro lugar para cair.

Reaproximar o público dos musicais
Há algo de bonito – e profundamente importante – em reaproximar o público português dos grandes musicais.
Rent tem esse poder. Chama público, chama memória, chama comparação. E talvez seja aí que a fasquia se torna cruel. Quem conhece a obra não procura apenas uma versão correta. Procura ser atingido por ela.
A montagem portuguesa tem momentos conseguidos e uma clara vontade de honrar o original. Ainda assim, há alturas em que se sente uma distância entre aquilo que Rent é e aquilo que esta versão consegue fazer arder. E aqui é uma responsabilidade do elenco e da sua performance.
Não se trata de exigir uma cópia da Broadway. Pelo contrário. Trata-se de pedir que a obra encontre uma verdade própria. Que não pareça apenas interpretada, mas vivida.

Um elenco com responsabilidade nas mãos
O elenco junta Bruno Huca, Carlos Martins, Dennis Correia, Diogo Leite, Gonçalo Martins, Inês Ramos, Margarida Martins, Marta Lys, Marta Mota, Nuno Martins, Pedro Fontes, Pedro Paz, Rafaela Monteiro, Sara Claro e Sissi Martins.
A equipa técnica inclui Pedro Morim na cenografia e figurinos, João Fontes no desenho de luz, Daniel Fernandes no desenho de som e Sílvia Moura na direção de cena. A produção executiva é de Martim Galamba, com fotografia de Renato Arroyo.
Num espetáculo destes, todos contam. A luz, o som, o espaço, os corpos, os silêncios. Rent não sobrevive apenas à soma das partes. Precisa daquela combustão rara em que tudo parece desobedecer ao ensaio e, ainda assim, encontrar sentido.

O que fica depois da última nota
No fim, Rent continua maior do que qualquer montagem. Essa é a bênção e o castigo dos grandes musicais. Mesmo quando uma versão não nos leva tão longe quanto poderia, a obra permanece ali, a lembrar o que pede.
Pede coragem. Também verdade. Pede menos superfície e mais vertigem.
A versão em cena no Auditório dos Oceanos tem o valor de recolocar Rent diante do público português. E isso importa. Mas também deixa a sensação de que este é um musical que não se contenta com estar em palco. Quer incendiar qualquer coisa.
Quando consegue, a sala sente. Quando não consegue, percebe-se ainda mais a falta que faz.
Rent está em cena no Casino Lisboa até 28 de junho, às quintas e sextas-feiras, às 21h00; aos sábados, às 16h00 e 21h00; e aos domingos, às 16h00. A classificação é M/12 e os bilhetes variam entre 26€ e 35€.
O público poderá continuar a descobrir esta versão portuguesa. E talvez, em cada representação, Rent encontre mais um pouco da desarrumação vital de que precisa para ser aquilo que sempre foi: não apenas um musical sobre amar antes que seja tarde, mas uma urgência a cantar contra o fim.

