Pablo Alborán na MEO Arena: o 13º concerto, a superstição e a coragem de sentir num 25 de Abril, na noite de ontem.
Texto: Rui Lavrador
Fotografia: Diogo Nora / D.R.
O número que não devia ser confortável
Treze. Não é um número neutro. Nunca foi. Carrega superstição, desconfiança, aquele desconforto antigo de quem entra num dia sem saber bem o que vai acontecer.
O concerto de Pablo Alborán na MEO Arena foi o 13º da Global Tour KM0. E talvez isso explique alguma coisa. Não como explicação racional – mas como sensação.
Porque nada naquela noite procurou ser confortável. E ainda menos num 25 de Abril.
Há datas que pedem alegria. Mas também pedem memória. E a memória raramente é leve. Vem com camadas. Com feridas. Com aquilo que ainda não está resolvido. Ainda assim, e se expusermos a dor com alegria?
Alborán entrou nesse território sem dizer que estava a entrar.
Há demasiadas coisas que nos dizem
O início não tenta seduzir. “Clickbait”, “Tabú”. Um mundo que fala alto demais. Onde dizem que a vida está decidida, que os sonhos são enganos, que no fim desaparecem.
Dizem tantas coisas que às vezes apetece que se calem de uma vez.
E é curioso como isso encaixa num concerto que, no fundo, vai ser sobre o contrário: sobre tentar ouvir outra vez.
Quando chega “Quién”, a pergunta não fica no ar. Fica no corpo. Quem és quando ninguém está a ver? Quem sobra quando tiras tudo o que aprendeste a dizer?
E depois vem aquele movimento estranho — ficar ou ir embora? “Me quedo”, mas ao mesmo tempo “vámonos de aquí”. Como se o próprio acto de permanecer já fosse uma forma de fuga.
O 13º concerto não se protege
Há qualquer coisa de mais exposto nesta fase de uma digressão.
No 13º concerto já não há primeira impressão para salvar. Ainda há – com Pablo haverá sempre – aquela energia inaugural. Mas também há verdade.
E isso sente-se quando ele se senta ao piano.
“Mis 36”. “Planta 7”.
Não há onde esconder nada. Nem na voz, nem nas mãos. Há uma espécie de desordem controlada. Como quem sabe que não consegue corresponder sempre — e aceita isso.
“Nunca es suficiente, nunca sé corresponderte.”
E talvez seja essa a frase que atravessa o momento. Não dita, mas sentida.
Amar é uma forma de resistência
Quando “Tu Refugio” entra no alinhamento, não traz romantismo. Traz realidade.
Um café deixado a meio. Um esquecimento. Pequenas manias. Aquela ideia de que somos um desastre… mas ficamos. E ficar, hoje, já é quase radical.
“Déjame ser tu refugio… aguantémonos la vida.”
A expressão pesa mais do que parece. Aguentar a vida. Não vencê-la. Não dominá-la. Aguentá-la. E ali, numa sala cheia, percebe-se que não é pouco.
Há pedidos de perdão que não se resolvem
“Pérdoname” não chega como momento alto. Chega como momento necessário.
Sem Carminho, a ausência também fala. E o arranjo passou a canção de um fado-flamenco para uma bachata. Curiosamente, a canção fica mais crua. Mais centrada naquele lugar desconfortável de quem pede desculpa sem saber se vai ser ouvido.
E há qualquer coisa de profundamente honesto nisso. Porque nem tudo se resolve. Nem tudo se fecha.
Algumas coisas ficam abertas. E cantar sobre isso não fecha a ferida — só a torna partilhada.
O momento em que se decide viver
“Vívela” não é um hino. É uma escolha. Porque antes dela vêm todas aquelas vozes: dizem que o destino manda, que há um relógio a decidir tudo, que o querer não chega.
Mas depois há essa recusa tranquila.O querer pode ser poder.
Tirar o rencor do peito. Olhar para onde estamos a ir. Mostrar as asas, mesmo que não saibamos o que fazer com elas.
E dizer — quase em desafio — que a vida é bonita.Mesmo quando está do avesso.Sobretudo quando está do avesso.
No 13º concerto, isso já não soa a frase. Soa a sobrevivência. E sobrevivermos é sempre o primeiro passo.
Voltar atrás não é recuar
As imagens de infância em “KM0” são divertidas.
Há ali qualquer coisa de estranho em olhar para quem fomos. Como se estivéssemos a ver alguém que já não reconhecemos completamente.
E, ainda assim, é dali que vem tudo. “KM0” é um regresso carregado. Um ponto de partida com história, com erros, com tentativas falhadas.
Recomeçar nunca é começar do zero. É começar com tudo.
E depois… silêncio
Não há forma suave de entrar neste momento. “Grândola, Vila Morena.”
Num 25 de Abril, não é apenas uma canção. É quase um corpo coletivo. E ouvi-la ali, na voz de Pablo Alborán, cria um desvio inesperado. Não é espetáculo. É consciência.
A sala não explode. Não há gritos descontrolados. Há outra coisa. Uma firmeza. Um coro.
Como se todos soubessem que aquilo não se aplaude apenas. Sustém-se. E talvez tenha sido aí – precisamente aí – que o concerto deixou de ser um concerto.
Treze. Número de azar, dizem. Mas ali, naquele instante, parecia outra coisa: um ponto de viragem. E para este que vos escreve – supersticioso até mais não – o 13 tornou-se quase a sorte suprema.
Depois do peso, a luz
E talvez por isso o que vem a seguir pareça mais leve. “La vida que nos espera” não resolve nada. Mas abre espaço. Apagar a luz quando o mundo dói. Ficar. Fazer com que valha a pena.
E acreditar — não porque temos provas, mas porque precisamos. “Qué bonita la vida que nos espera.”
Não como certeza. Como insistência.
No fim, não há conclusão limpa
A banda esteve sempre no sítio certo. A imagem construiu ambiente sem distrair. Mas nada disso explica o que aconteceu.
O que explica – ou tenta – está noutra coisa. Na forma como a dor não pesou demasiado. Na forma como a alegria apareceu sem pedir licença. E também na forma como ninguém ali parecia estar a fingir.
Treze concertos depois, talvez seja isso que fica. Não a perfeição. Mas a coragem de continuar.
Mesmo sem garantias. Mesmo com tudo do avesso.
A magia do 13, a simbologia do 25 de Abril e a aura sempre conquistadora de Alborán, numa noite feliz na MEO Arena.
Alinhamento:
Si Quisieras
INTRO
Clickbait
Tabú
Quién
Me Quedo
Vámonos de Aquí
No Vaya a Ser
Qué Tal Te Va
Tanto
Mis 36 (ao piano)
Planta 7 (ao piano)
Algo de Mí
Medley: Perfectos Imperfectos / Que Siempre Sea Verano / Tu Refugio / Donde Está el Amor
Pérdoname
Pasos de Cero
Saturno
Solamente Tú
Por Fin
KM0
Prometo
Copiloto
Vívela
La Fiesta / Vivir
La Vida Que Nos Espera




