Pedro Abrunhosa no Casino Lisboa: um concerto cheio, um mundo por dentro e a música como último refúgio

Pedro Abrunhosa no Casino Lisboa: um concerto cheio, um mundo por dentro e a música como último refúgio da alma.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Carlos Pedroso

A arte é uma das melhores terapias para alma e há noites que não pedem explicação.

E depois há aquelas que até podiam ser explicadas – alinhamento forte, casa cheia, nome grande – mas que, no fim, recusam qualquer resumo simples. O concerto de Pedro Abrunhosa no Casino Lisboa, este domingo, 19 de abril, foi isso mesmo.

Parecia só mais uma grande noite. Não foi.

Foi uma daquelas em que a música deixa de ser só música – e começa a mexer onde nem sempre queremos olhar.

Um palco que já percebeu o que quer ser

Antes de irmos à música, convém perceber o lugar. O Casino Lisboa celebrou 20 anos. E não é só um número redondo.

É um espaço que, com o tempo, foi decidindo o que queria ser – e, mais importante, o que não queria ser.

Paulo Bertão, diretor de relações externas da Estoril-Sol, disse-o de forma direta:
“Estamos orgulhosos, foi muito positivo, foi extremamente positiva a abertura do Casino de Lisboa e desde essa altura até aos dias de hoje somos aqui um polo cultural, aqui no Parque das Nações, e somos uma forte atratividade aqui junto da comunidade.”

Não é conversa de circunstância. É linha.

E reforça:
“Estamos sobretudo na área da cultura, na animação, nos espetáculos, no teatro, na nossa galeria de arte, nas exposições, portanto, felizmente temos tido muitos eventos e normalmente sempre com casas completas.” Depois há os números — que ajudam, mas não contam tudo: “Temos mais de 1 milhão de pessoas de entradas no Casino por ano.”

Mais de um milhão. Mas nesta noite não eram números. Eram histórias lado a lado.

Um alinhamento que não foi uma lista – foi uma travessia

“A.M.O.R.” abriu a noite.

E, a partir daí, não houve propriamente um concerto. Houve uma travessia.

“Fazer o Que Ainda Não Foi Feito”. “Rei do Bairro Alto”. “Talvez Foder”. “Não Te Ausentes de Mim”. “Socorro”. “Ilumina-me”, “Leva-me Para Casa”, “Que o Amor Te Salve Nesta Noite Escura”, “Tudo o Que Eu Te Dou”, também constaram da viagem espiritual, conduzida pelo comandante Abrunhosa.

Não foi sobre tocar sucessos. Foi sobre organizar emoções.

E isso não se faz por acaso.

Já depois do concerto, Abrunhosa explicou isso sem grandes teorias: “Mas a maneira como eu coloco as músicas… distribuo as músicas no espetáculo… elas têm que ser geridas em função do que está acontecendo.”

Ou seja, não há guião fechado. Há leitura. Muita presença. E isso, hoje, é meio caminho andado para ser raro.

O momento em que ninguém fala – e ninguém quer falar

Há sempre um instante. Aquele em que a sala inteira abranda sem aviso.

Neste concerto, teve nome: “Leva-me Para Casa”. Não foi mais alto. Nem mais intenso. Foi mais fundo.

E curiosamente, o próprio já o tinha identificado:
“Nos grandes espetáculos… o Leva-me para Casa é talvez o momento alto do espetáculo… aquela catarse, é uma coisa interessantíssima.”

E foi isso mesmo. Não houve espetáculo ali. Houve entrega. E, durante uns minutos, ninguém tentou ser outra coisa.

A música que não se explica – e ainda bem

Depois do concerto, já sem palco, sem luzes, sem aplausos, a conversa levou-nos a um sítio importante. A tal palavra — espiritualidade.

E aqui não há clichés.

Há clareza: “A espiritualidade é tudo aquilo que não é material, tudo aquilo que não é quantificável, tudo aquilo que não se consegue explicar.”

E talvez seja exatamente isso que ficou naquela noite. Não foi só ouvir. Foi reconhecer.

Aquela sensação estranha de querer voltar a uma música sem saber bem porquê.

Como ele próprio diz: “A espiritualidade na arte… é aquilo que faz com que as pessoas regressem, porque sentem alguma coisa ali que não se sabe explicar.”

E pronto. É isso.

Antes disto tudo, houve estrada – e ainda se sente

Há uma coisa que não se ensina. Nem se aprende em palco. Leva-se. E nota-se.

Nesse sentido, Pedro Abrunhosa recordou tempos idos do seu percurso, em que atuou em bares, na rua. Tempos em que o dinheiro não era o mais importante.

Abrunhosa não esconde esse passado: “Aquela interação… nos bares… gastava-se mais dinheiro a ir, do que lá o gajo ia conseguir ganhar… mas era uma necessidade interior.”

Não há romantismo aqui. Há verdade.

E depois esta frase, que quase resume a noite: “Essa dureza, da tarimba, da rua, da estrada… está tudo aqui.”

E está mesmo. Está na forma como entra nas músicas. Na forma como não tem pressa. E – também, diga-se, na forma como não precisa de provar nada.

Mais do que um concerto – uma posição

A certa altura, deixou de ser só música. E passou a ser outra coisa. Mais difícil. Mais necessária.

“Eu acho que isso é uma obrigação de todos nós“, disse-nos sobre a sua interenção cívica e os alertas que doi deixando para algumas situações no mundo, principalmente as guerras.

Não como artista. Como pessoa.

E depois, sem rodeios: “Não podemos calar a voz porque hoje são outros e amanhã nós”, citando um trecho de uma canção sua.

Reforçou ainda: “Os filhos dos palestinianos são meus filhos… os filhos dos judeus… são meus filhos. Ou seja, nós somos eles.”

Ou seja, já não estamos num concerto. Estamos num espelho. E nem sempre é confortável. Mas é preciso.

Uma escolha que não foi acaso

No meio disto tudo, há também uma decisão que faz sentido.

Pedro Abrunhosa não foi escolhido ao acaso para celebrar os 20 anos. Paulo Bertão explica:
“a escolha do Pedro Abrunhosa foi porque também é uma referência a nível cultural.”

E é isso. Não é só um nome. É um posicionamento.

No fim, fica o que não se resolve

É tentador fechar isto com uma conclusão bonita. Mas não é bem por aí. Porque há noites que não se fecham. Ficam abertas. Ficam a fazer perguntas. E este concerto foi isso.

E talvez Pedro Abrunhosa seja dos poucos a conseguir isso. Sorte a nossa em tê-lo.

Siga-nos no Google News
Rui Lavrador
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

Artigos Relacionados

Siga-nos nas redes sociais

31,799FãsCurtir
12,697SeguidoresSeguir
438SeguidoresSeguir
314InscritosInscrever